


















 Um anjo vingador
  Once a Maverick
  Theresa Michaels
  Desbravadores 1


   O cdigo do Oeste proibia que se espionasse o passado de um estranho, mas quando Tyrel Kincaid descobriu-se ajudando Dixie Rawlins a escapar de um jogo de cartas
no qual ela trapaceara, exigiu respostas. Agora a morte os seguia atravs do deserto, mas Tyrel Kincaid nunca se sentira to vivo quanto naquele momento.
   Determinada e eliminar o homem que assassinara seu pai, Dixie Rawlins era uma mulher destinada a seguir sempre sozinha. At a noite em que Tyrel Kincaid juntou-se 
a ela em sua vingana e reacendeu os sonhos de uma vida regida pelo amor...
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   CAPTULO I
   
   Quente. Molhado. Mulher.
   Tyrel Kincaid organizou suas necessidades nessa ordem. Estava perto do balco de um saloon de mineiros num ponto perdido no mapa, tentando livrar-se do frio da 
chuva que comeara horas antes. Estava muito afastado do fogo  lenha para sentir seu calor, mas os corpos muito juntos o aqueciam. O salo era pequeno, enfumaado, 
e j comeava a sentir um terrvel ardor nos olhos.
   A bebida era ordinria, mas molhada, e servia para limpar o p acumulado na garganta. Kincaid terminou de engolir a segunda dose.
   E a mulher... Bem, estava ali, apesar de ningum pensar nela nesses termos.
   Alguns habitantes do Arizona afirmavam que Ty possua a sorte de um garanho. Quando questionado, ele limitava-se a responder com um sorriso cnico.
   Sorte no era a melhor palavra para descrever a entidade que o seguia.
   Problema era um termo mais adequado.
   E encrenca era o que pressentia desde que seu cavalo fraturara a perna e fora obrigado a sacrific-lo. Arrastar os alforjes sob a chuva s aumentara a sensao 
que provocava arrepios incmodos.
   ntimo de confuses e problemas podia nomear os tipos que captava no ar. As vezes era um cheiro sutil, como o de gua no deserto. Outras vezes o problema cheirava 
como uma tempestade se formando, carregada de eletricidade, indomvel e ameaadora. Ou a encrenca vinha na forma de um perfume de mulher.
   Naquela noite, Ty sentia os trs aromas de uma s vez. Sabia que estava prestes a enfrentar um problema especial. Do tipo criado num saloon de mineiros to barato 
quanto o usque que acabara de engolir para prantear a morte de um animal querido. De posse do terceiro drinque, olhou em volta e identificou a mais provvel fonte 
de todos os problemas. A mulher.
   Dixie Rawlins.
   Conhecia o sorriso de anjo sob a aba do chapu batido como o de qualquer mineiro. Sentara-se diante dela numa mesa de pquer vrias vezes ao longo do ltimo ano, 
e ponderara aquele sorriso ao estudar a possibilidade de uma vitria. A mulher no tinha piedade quando o assunto era dinheiro. Em duas ocasies o deixara limpo 
como um recm-nascido.
   Dixie nunca passava muito tempo no mesmo lugar. Normalmente recolhia o que ganhava na mesa de jogo, recusava ofertas de bebida e comida e tambm no oferecia 
nenhuma regalia a quem quer que fosse.
   Como se recusava a admitir as fagulhas que pareciam cerc-los cada vez que se encontravam.
   Segurando o copo, Ty a observou. Ela era atraente, apesar dos trajes velhos e sujos. Mas tinha outra recordao ligada  aparncia de Dixie Rawlins, e a imagem 
que a mente produzia coincidia com a que tinha diante dos olhos nesse momento.
   De repente ela levantou a cabea e fitou-o, sem demonstrar o menor sinal de reconhecimento.
   Kincaid levantou o copo com a inteno de fazer um brinde silencioso, mas ela desviou os olhos antes que pudesse concluir o movimento. Era horrvel sentir novamente 
a tenso, a resposta fsica angustiante e intensa que sempre experimentava quando encontrava aquela mulher. Estava preso no pequeno vilarejo at poder comprar outro 
cavalo. Segundo um bbado que encontrara no caminho, talvez tivesse sua primeira oportunidade no dia seguinte. Sabia que o proprietrio podia pedir uma quantia grande 
o bastante para deix-lo na misria. Afinal, estavam muito longe da civilizao, e era sabido que, nessas circunstncias, o preo de uma boa montaria podia chegar 
a trs vezes o valor de mercado.
   A mesa onde Dixie distribua cartas para uma nova partida comeou a exercer uma atrao quase irresistvel sobre ele. Ainda podia lembrar o que acontecera nas 
ltimas vezes em que seu caminho cruzara com o dela.
   O que levava uma mulher a vagar por um mundo dominado pelos homens? Jamais havia tentado pensar nas razes de Dixie anteriormente, mas hoje estava possudo por 
uma estranha disposio. Dixie no s movia-se de um vilarejo para o outro jogando cartas e trapaceando, mas permanecia o tempo suficiente para fazer perguntas sobre 
um determinado homem. Algo sobre uma cicatriz...
   No conseguia recordar os detalhes da descrio que ela oferecia. De qualquer maneira, achava que ela estava perdendo tempo.
   O territrio oferecia uma infinidade de esconderijos para algum disposto a sumir de circulao. Nas leis estabelecidas pelos pioneiros que haviam desbravado 
a regio, havia uma que estabelecia que ningum perguntava de onde um homem vinha, para onde ia ou o que fazia numa determinada localidade. Os mais espertos sabiam 
que a curiosidade podia ser uma inimiga traioeira e fatal.
   Mas Dixie o intrigava. Quanto mais pensava nela, mais certeza tinha de que, como ele, era uma solitria. E tinha de respeitar sua opo de vida.
   Como tambm devia respeitar a promessa que fizera a si mesmo sobre nunca mais jogar com aquela mulher. Ela movia os dedos com a rapidez da luz e embaralhava as 
cartas com a agilidade do vento. Mas tinha de admitir que apreciar os movimentos daquelas mos era um prazer.
   Gostava das mos dela, e sabia que no era o nico a sentir-se atrado pelos dedos longos e finos. Era irritante saber que outros homens tambm imaginavam como 
ela usaria aquelas mos para despertar um corpo masculino.
   De repente sua mente ofereceu uma imagem ntida de Dixie sentada ao lado da fogueira em seu acampamento, escovando os longos e espessos cabelos castanhos. Cada 
movimento com a escova havia revelado curvas doces e femininas que ela mantinha sempre escondidas sob a camisa masculina.
   Naquela noite quase aproximara-se para tentar conversar, mas ela havia se virado, alertada por um rudo qualquer, e Ty vira o brilho das lgrimas em seus olhos. 
Poucas regras regiam sua vida, mas uma delas era manter-se bem longe de mulheres chorosas. Alm do mais, todos tm direito a um mnimo de privacidade.
   Partira sem fazer barulho, mas levara a imagem gravada na lembrana e nunca mais deixara de pensar no que teria acontecido se houvesse se aproximado dela.
   A noite seria longa e solitria. Estava aquecido. Aplacara a sede. Agora precisava de uma mulher.
   Mas preferia ser cauteloso. Afinal, Dixie sabia como manejar uma pistola.
   
   Dixie Rawlins no gostava de abusar da sorte. Contrariando as prprias regras, permanecera no campo Wobe por duas noites. Conhecia o valor do que ganhara at 
esse momento, sabia quanto ainda era necessrio para poder partir, e j havia percebido que as informaes eram to escassas quanto os ases distribudos entre as 
cartas dos homens com quem jogava. Nenhum deles poderia cont-los, por que trs j estavam em sua mo.
   No precisava concentrar-se muito no jogo, por isso deixava os olhos vagarem pela sala em busca do homem com a cicatriz.
   Os ltimos dezoito meses de procura comeavam a esgot-la. Aceitara o fato de que qualquer homem podia esconder-se nesse territrio, e com tal perfeio que 
at mesmo sua sombra podia perder-se.
   J nem se lembrava das roupas femininas que antes gostara de usar. Os cabelos longos eram a nica vaidade que ainda permitia-se manter. E at esse pequeno luxo 
tornara-se perigoso.
   Ainda tinha uma pequena cicatriz no couro cabeludo, lembrana de um irlands imenso que decidira arrast-la quando se recusara a partilhar de sua cama. Jamais 
sentira dor to intensa, mas o sujeito havia aprendido a aceitar um no como resposta.
   A noite lhe custara um preo alto, no s em dor, medo e humilhao, mas em outros desprazeres, tambm. Acabara suja e molhada. 
   E odiava ficar suja. Odiava usar roupas que testemunhavam as semanas passadas sobre um cavalo. Fora forada a cultivar o hbito de respirar pela boca para no 
sentir o prprio cheiro, ou o dos homens com quem jogava. Daria qualquer coisa para fazer os homens de quem ganhava dinheiro e cujas informaes s vezes comprava 
esquecerem que era uma mulher. Um arrepio a percorreu quando lembrou alguns dos apuros que passara quando o disfarce deixara de funcionar.
   Como um animal pressentindo o perigo, levantou a cabea e notou que Kincaid a observava. No era a primeira vez. Nem era a primeira vez que sua respirao se 
alterava em funo da presena dele.
   Conhecia a reputao de Ty Kincaid. Homens e mulheres do territrio afirmavam que suas palavras eram to cortantes quanto a lmina de um punhal, e que sua coragem 
o impelia a subir rios caudalosos em quaisquer circunstncias. No que algum ousasse cham-lo de covarde.
   Duro como as pedras dos bosques, no seria recebido pelos cnticos angelicais quando sua hora chegasse. O diabo certamente organizaria uma festa de boas-vindas 
quando ele voltasse para casa.
   Dixie jogou uma carta e voltou a pensar em Kincaid. Havia uma fora nele que a atraa. No era muito alto, mas havia algo de letal no corpo esguio que forava 
uma comparao com a arma que ele usava para proteger-se.
   Uma qualidade reforada pelos olhos azuis e profundos cravados em seu rosto.
   Ele a observara com aqueles mesmos olhos outras vezes olhos emoldurados por clios to longos e espessos que as mulheres o invejavam por isso.
   Essa noite havia algo de diferente na maneira como a estudava. Era como se quisesse deixar claro que, apesar das roupas sujas e rasgadas, sabia estar diante de 
uma mulher.
   A idia era excitante e ameaadora.
   Dixie concentrou-se nas cartas, desprezando-a. No tinha tempo a perder com um homem, mesmo que s vezes desejasse ter algum como Tyrel Kincaid cavalgando a 
seu lado. Aprendera uma lio brutal nos ltimos meses: os homens no costumam envolver-se nos problemas alheios. Alm do mais, todos os seus pensamentos e esforos 
estavam voltados para uma nica direo: vingana.
   Em alguns momentos a misso que estabelecera para si mesma parecia impossvel, mas fizera o juramento de que iria at o fim. Nada poderia interferir.
   Atrada por uma fora inexplicvel, Dixie olhou para Kincaid novamente. No momento em que os olhos encontraram-se ela sentiu um arrepio de premonio, como 
se ele quisesse preveni-la contra um perigo qualquer.
   De repente tomou conscincia da tenso que pairava sobre a mesa. E do silncio. Devagar, baixou os olhos e viu que deixara cair as cartas, revelando quatro ases.
   Cada um dos quatro oponentes empurrou a cadeira levantou-se. Gelada, viu os adversrios baixarem as cartas e exibirem seus jogos.
   -        Quadra de reis.
   -        Quadra de oito.
   -        Sete sobre trs noves - George Mcgurth coou a cabea. - Elroy tem trs damas e dois valetes. Todos seramos vencedores num jogo honesto.
   -         verdade - Elroy concordou, apontando para as cartas sobre a mesa. - Mos como as que recebemos s acontecem quando se joga com um baralho marcado.
   Dixie estava acostumada a situaes de tenso. No trapaceava com freqncia, mas a trilha era longa e precisava de dinheiro, muito dinheiro para comprar informaes.
   O silncio prolongou-se nervoso. Os mineiros a olhavam como se quisessem espanc-la.
   Antes que algum fizesse um movimento, ela reuniu seus pertences e levantou-se, chutando a cadeira para longe. Com as costas voltadas para a parede, sacou a pistola.
   Havia pelo menos dez homens entre ela e a porta.
   As chances eram mnimas.
   Kincaid.
   O nome cruzou sua mente como um raio, mas no podia olhar na direo dele. No pedira a ajuda de ningum quando comeara essa caada, e no podia comear agora.
   Ty refletiu sobre as chances de Dixie. Roube o cavalo de um homem, e ser condenado  forca. Roube no jogo de cartas, e ser brindado por uma corda no pescoo 
ou uma bala no peito, dependendo do humor do grupo. O fato de a trapaceira ser uma mulher complicava em muito a situao.
   Deixando o copo sobre o balco, pensou em mais uma das regras que norteavam sua vida: jamais se envolver na briga alheia.
   Viu o brilho de pnico nos olhos de Dixie antes de ele ser substitudo por uma resignao calma. Ela tambm sabia que suas chances eram quase inexistentes.
   O fato de os estar enfrentando, lutando pela prpria sobrevivncia com coragem espantosa, fez Ty mover-se antes mesmo de pensar no que fazia.
   - Ei, Rawlins - ele chamou enquanto aproximava-se. - Finalmente a encontrei. Os rapazes no vo se importar se eu me adiantar. No pagou uma aposta, e isso me 
d o direito de reclamar o que me deve agora mesmo.
   Ningum atrevia-se a desafiar um homem com a reputao de Kincaid, e o tom ameaador com que havia falado foi mais que suficiente para abrir caminho entre a 
multido. Ignorando os comentrios sobre enforcarem Dixie, arrancou das mos dela os sacos de ouro que ela reunira antes de levantar-se e jogou-os sobre a mesa.
   -        O que ela tem a perder, Kincaid? - algum perguntou.
   -        Uma cavalgada - ele respondeu com um sorriso malicioso. - Uma longa cavalgada.
   Assobios e aplausos ecoaram pela sala.
   -        S um homem desesperado pode querer dormir com uma torta de lama.
   Dessa vez Ty respondeu sem se virar.
   - Uma aposta  uma aposta. - Olhou significativamente para Dixie. - Certo?
   Julgava-se endurecida por meses de caada, mas sentiu uma onda de calor cobrir seu rosto quando Kincaid a agarrou pelo pulso. Era humilhante e vergonhoso!
   -        Seja rpida, e talvez possamos sair daqui vivos - ele sussurrou. Ao v-la olhar para o saco de ouro sobre a mesa, avisou: - Nem pense nisso! Seria... 
- Mas no pde concluir, porque o som do metal deslizando contra o couro o alertou. Pousando a mo sobre a coronha da arma, virou-se na direo do rudo.
   - No to depressa, Kincaid. - George havia apanhado o rifle que deixara atrs da cadeira. - Temos de dividir a soma que ela ganhou de ns ontem  noite. E no 
tenho certeza de que a deixaremos ir antes de responder pela trapaa de que fomos vtimas.
   Ty sorriu.
   - Ento certifique-se. Trate de ter certeza absoluta ante de empunhar esse rifle.
   - Kincaid!
   O grito na porta distraiu o grupo e todos se viraram para o recm-chegado. Ty s tentou identificar quem chamara quando George deu as costas para ele. O moleque 
no estava sozinho. Dois homens o acompanhavam, fechando a sada. A gua da chuva escorria por suas capa impermeveis e pelos chapus de abas largas, mas Ty sentiu 
que o garoto era o nico que merecia sua ateno.
   Encrenca. O pressentimento o atormentava desde que fora obrigado a sacrificar o cavalo.
   -        Estava procurando por voc, Kincaid.
   Tensa e estridente, a voz do rapaz ecoou no silncio do salo.
   - No sei por qu. No conheo voc, e prefiro que ningum nos apresente.
   -        Tem certeza?
   Pensou em chutar o traseiro do moleque com tanta fora que ele levaria meses para encontrar o caminho de volta. A postura agressiva, o olhar arrogante e o movimento 
constante que fazia com os dedos da mo direita indicavam que ele estava disposto a acrescentar mais uma marca em seu coldre. No precisava de coragem para enfrentar 
um garoto como aquele, e em poucos minutos a questo estaria resolvida. O som abafado e metlico quase o fez virar-se na direo de Dixie, mas o rapaz, ansioso 
e irado, exigia sua ateno. Com voz suave, comeou a falar para ganhar tempo.
   Dixie ainda estava surpresa por ele ter ido ajud-la e ter se colocado  sua frente, como um escudo protetor. Ouvira o desafio na voz do rapaz e sabia que no 
sairiam do saloon sem uma boa briga. Mas era o outro homem, o que aguardava silencioso atrs do garoto, que atraa seu olhar. Jamais esqueceria a cicatriz na mo 
que ajeitava o chapu em intervalos regulares, como num tique nervoso.
   No podia esquec-la. Fora ela mesma quem a desenhara com um caco de vidro quando o sujeito a atacara depois de assassinar seu pai.
   A trilha que seguia h dezoito meses acabara de esquentar, mas Ty estava no caminho.
   Com as mos midas e o corao disparado pela ansiedade e o medo, Dixie concentrou-se no que acontecia  sua volta. A voz de Kincaid assumira um tom agudo, como 
se sua pacincia estivesse chegando ao fim. Sua necessidade de vingana era maior que tudo, mas tinha o dever de retribuir a ajuda que recebera num momento difcil, 
quase crucial.
   Era hora de escolher. As pessoas j se afastavam para deixar o caminho livre entre Kincaid e o garoto, e tinha de decidir depressa.
   A chuva caa forte sobre o telhado fino de zinco. O homem da cicatriz misturou-se  multido. No! No podia perd-lo agora!
   - Pare com esse falatrio, Kincaid! - o moleque gritou. - Ainda no percebeu? Mat-lo vai me tornar famoso em todo o territrio. Prepare-se, Kincaid! Voc vai 
morrer!
   Dixie viu o menino sacar. Viu a pistola deixar o abrigo de couro, e Kincaid permanecia imvel. Os olhos do atacante exibiam o brilho feroz de um caador, mas 
de repente o medo sobreps-se a todas as emoes. No podia ver o rosto de Kincaid. Observava o garoto com tanta ateno, que quando o disparo ecoou ela precisou 
de alguns instantes para perceber que era a pistola do menino que havia cado, a mo dele que sangrava.
   -        Seu bastardo! Voc me arruinou!
   - Talvez - Ty respondeu com tom calmo. - Mas tambm posso ter poupado sua vida.
   -        Quem diabos...?
   Dixie disparou duas vezes, os estrondos abafando os gritos do moleque. Estava de costas para Kincaid, protegendo-se enquanto tambm o protegia.
   Agarrando os alforjes com uma das mos, segurou a arma diante do prprio rosto e moveu-se em perfeita sincronia com Kincaid, sem nunca desgrudar as costas dele, 
descrevendo um crculo enquanto aproximava-se da porta. Os ouvidos registravam o som assustador da chuva violenta, mas o olhar permanecia fixo nos mineiros, atentos 
para qualquer movimento sbito. A atmosfera era terrvel. A tenso no salo era quase palpvel, espessa como um bom bife esperando por uma faca afiada.
   Dixie olhou para o balco mais uma vez, sentindo que Kincaid daria o ltimo passo e giraria para que ela pudesse transpor a soleira.
   Mas precisava ver mais uma vez o rosto do homem que caava h meses, o homem que matara seu pai e roubara tudo que um dia possura. Em alguns momentos chegara 
a duvidar de sua existncia, temendo estar percebendo uma imagem criada por um pesadelo.
   A hesitao a fez tropear. Dixie olhou para cima a tempo de ver uma lmina pronta para ser arremessada... e o rosto da presa. O sujeito no parecia t-la reconhecido. 
E como poderia? No era mais a jovem inocente que no fora capaz de empunhar uma arma e mat-lo quando tivera a chance. Mas no era ele quem empunhava a faca. O 
atacante era o terceiro integrante do grupo, e ele s esperava que Kincaid se virasse para feri-lo.
   - No!
   
   
   CAPTULO II
   
   Dessa vez no estava indefesa. No tinha de ver outro homem morrer. Dixie ergueu a arma no instante em que Kincaid virou-se.
   A faca encontrou o alvo. O gemido rouco e o movimento brusco do corpo colado ao seu comprovaram sua hiptese. Kincaid estava ferido, e no podia nem ver onde 
a faca o atingira. Se desviasse os olhos dos homens que comeavam a se aproximar...
   Dixie disparou contra o cho, espalhando estilhaos de madeira em todas as direes.
   - V embora! Mexa-se! - Ty gritou.
   Sentiu-se empurrada na direo da porta e foi recebida pela chuva espessa do lado de fora. O vento arrancou seu chapu da cabea, mas no havia tempo para correr 
atrs dele. Ty empurrou-a para os quatro cavalos amarrados num posto prximo. No tinha escolha. Teria de acompanh-lo na fuga.
   Imitando-o, soltou um dos animais e prendeu os alforjes na sela. As rdeas eram usadas como chicotes e as pernas tentavam sustent-la sobre o animal apenas com 
a fora dos msculos, j que os estribos eram longos demais. No sabia como Kincaid conseguia cavalgar, e a chuva espessa tornava a visibilidade quase nula.
   Gelada, cavalgou pela noite com um homem que no conhecia, caada como costumava caar. Com a chuva fria veio o entorpecimento do corpo, mas os pensamentos no 
podiam ser detidos. Estivera perto de matar o assassino de seu pai, e perdera a oportunidade para proteger a vida de Kincaid! E fugia acusada de trapacear no jogo 
e roubar cavalos. Um delito j era suficiente para levar algum  forca. Os dois juntos no deixavam sombra de dvida.
   Atenta, seguia a figura que cavalgava alguns metros  frente. Como ele conseguia manter-se sobre a sela? No sabia onde fora ferido, nem se tivera tempo para 
remover a faca. Se o ferimento no recebesse cuidados imediatos, ele sangraria at a morte. Mas no podiam parar agora. E nem poderiam to cedo.
   A chuva continuava caindo. No sabia para onde Kincaid seguia, ou se ele tinha alguma idia de onde poderiam encontrar um abrigo. Mas tinha certeza de que eram 
seguidos. Os homens do territrio no costumavam perdoar o roubo de cavalos, e ainda havia o ouro e o dinheiro que ganhara dos mineiros na mesa de jogo. Como havia 
se metido em tamanha confuso?
   Estavam subindo uma encosta. O animal escorregava sobre o terreno lamacento e traioeiro, e Dixie segurava as rdeas com firmeza enquanto apertava as pernas 
contra os flancos da montaria, temendo ser jogada longe por um movimento mais brusco. Pouco depois desciam a montanha do outro lado e, sem opo, ela continuava 
seguindo a trilha determinada por Kincaid.
   Logo alcanaram uma plancie e aumentaram o ritmo da cavalgada, alcanando uma velocidade que no poderiam manter por muito tempo. Mas a ousadia servia para aumentar 
a distncia entre eles e seus perseguidores, e por isso Dixie tratou de encontrar uma reserva de foras para comandar o cavalo exausto.
   Passara tanto tempo sem confiar em ningum, que era chocante descobrir-se confiando a prpria vida a Kincaid.
   
   Ty sabia que no poderia manter o ritmo por muito mais tempo. Sempre havia admirado a coragem, e Dixie era uma mulher forte. Ela o seguia sem tentar det-lo, 
sem fazer as centenas de perguntas que deviam estar fervilhando em sua mente, e por isso era grato. Para ser franco, no seria capaz de responder.
   Cruzavam a plancie na direo do riacho no vale Mint. Estavam no territrio Yavapai, em algum ponto a noroeste de Prescott. O vale recebera esse nome por causa 
de um desbravador chamado McKee, que encontrara o riacho e a profuso de menta que brotava perto dele. McKee se fora h muito tempo. Os ndios o foraram a abandonar 
seu rancho dez anos atrs. Ty esperava que os galpes ainda estivessem em p, porque precisava de um abrigo para eles e os cavalos.
   No podia nem pensar na dor no ombro. A chuva gelada entorpecera seu corpo, mas ainda podia sentir o calor do sangue jorrando a cada movimento mais brusco da 
montaria roubada. O cavalo tentava escapar ao comando, e Ty sentia que no teria foras para domin-lo por muito mais tempo. De onde havia tirado a idia de envolver-se 
com Dixie Rawlins? Melhor nem pensar.
   A famlia costumava cham-lo de indomvel, e o termo era perfeito para descrev-lo. Durante cinco anos percorria o territrio sem nunca deter-se muito tempo 
em algum lugar, voltando para casa ocasionalmente s para sentir-se tomado pela inquietao e partir novamente depois de uns poucos dias. No conseguia entender 
ou explicar essa nsia de liberdade e movimento, mas a nica coisa que odiava no tipo de vida que escolhera era a reputao de atirador rpido.
   Era um ttulo indesejado, porque acreditava que as palavras eram mais convincentes do que as balas. O pai plantara essa convico no corao dos trs filhos.
   Maldito moleque! Devia t-lo prevenido contra o risco que corria. Sim, porque, apesar de sua crena, certificava-se sempre de ser o sobrevivente em todos os confrontos.
   - Kincaid! - Dixie gritou, aproximando-se e estendendo o        brao para ajud-lo a manter-se sobre a sela. 
   - Precisamos encontrar abrigo! Sabe para onde est nos conduzindo? 
   - Sei. Eu sempre sei.
   A relva do vale era alta e o ritmo que seguiam, mais lento. Por duas vezes sentiu-se escorregando da sela, e em ambas a mo dela estava l para ampar-lo. O riacho 
alimentado por uma nascente prxima corria caudaloso, mas mal conseguia localizar o rudo da gua sobre o barulho da chuva forte. Mas, pior que isso, no via as 
silhuetas escuras dos edifcios que esperava encontrar.
   Estava ficando mais fraco a cada instante, e no tinha escolha seno depender de uma mulher desconhecida.
   - Continue cavalgando at a colina mais distante. Se contorn-la, ver uma caverna oculta pela vegetao da encosta. Vai ter de desmontar e procurar a abertura 
a p.
   Dixie seguiu as instrues, gemendo ao pensar no momento em que as botas encontrariam terra firme. Quando deu o primeiro passo, os msculos confirmaram seus 
temores. O terreno era lamacento e escorregadio. Segurando as rdeas do cavalo com firmeza, tentou ignorar o frio que a fazia tremer.
   Se j era terrvel para ela, o que Kincaid no estaria sentindo depois de ter sangrado por tanto tempo?
   Sentindo o peso da responsabilidade por aquela ferida, obrigou-se a continuar caminhando. Como no conseguia enxergar com clareza, puxou o cavalo para mais perto 
da parede rochosa e usou a mo para encontrar a abertura.
   Tinha de localiz-la, e depressa. Os cavalos estavam exaustos, e Kincaid precisava de repouso e cuidados imediatos.
   De repente a mo encontrou o vazio e ela gritou, lutando para manter o equilbrio sobre o cho escorregadio. Assustado, o cavalo rebelou-se e tentou escapar, 
mas ela agarrou a rdea com as duas mos. Disposto a conquistar a liberdade, o animal debatia-se e a jogava de um lado para o outro. Cansada, Dixie acabou caindo 
e batendo o joelho contra uma rocha. As lgrimas de dor foram to inevitveis quanto a chuva.
   - Solte-o! - Ty gritou. - Consegui segurar a rdea.
   Sentiu a mo sobre a sua, ouviu uma voz firme acalmando o animal e constatou que estava deitada de bruos sobre a terra encharcada. No imaginara que pudesse 
sentir-se mais gelada ou molhada, mas a gua que penetrava a barreira do tecido das roupas provava o contrrio.
   Dixie ouviu a voz de Ty incentivando-a a levantar-se. Queria por-se em p, mas fazer o corpo obedecer era outro problema. Preciso de voc. Pensou t-lo ouvido 
repetir as palavras vrias vezes e perguntou-se quanto tempo havia se passado desde a ltima vez que algum precisara dela. Conseguiu colocar-se de joelhos e encolheu-se 
ao sentir a dor aguda no local onde a rocha a atingira.
   Ty continuava ordenando que se levantasse. Dixie jamais saberia como havia sido difcil admitir que precisava de algum. Jamais pedira ajuda de ningum, mas sabia 
que em breve no conseguiria mais manter-se em p, e tinham de descarregar as montarias e amarr-las em local seguro.
   Assim que a viu em p comeou a dar ordens, empurrando-a com as palavras e praguejando em voz baixa por no poder ajud-la a levar os alforjes para dentro da 
caverna. No era uma abertura profunda, mas serviria para mant-los secos e aquecidos.
   -        Amarre-os bem, ou acabaremos a p - disse.
   -        Est tudo molhado. Meus dedos esto adormecidos por causa do frio, e no tenho mais foras. Estou fazendo o melhor que posso, Kincaid!
   Quando engatinhou para perto dele, Dixie percebeu que a caverna era realmente pequena. Kincaid apoiara as costas na sela e esticara o corpo, e ela foi obrigada 
a passar por cima das pernas dele para encontrar um espao onde pudesse acomodar-se. Queria fechar os olhos e descansar, mas o ferimento exigia cuidados.
   Incapaz de enxergar na escurido, valeu-se do tato para examinar a ferida e descobriu que a faca ainda estava cravada no ombro de Kincaid. O grito aflito o fez 
erguer uma das mos para cobrir seus lbios.
   -        No faa barulho! No havia como descobrir se fomos seguidos, e no sei quem mais pode estar por perto. Dixie assentiu e respirou fundo.
   -        A faca deve ser extrada - sussurrou. - No sei como pde cavalgar com ela cravada em seu ombro. Tambm no sei se serei capaz de tir-la da, mas vou 
tentar.
   Pressentindo o medo que a dominava, Ty lutou contra as sucessivas ondas de tontura que ameaavam roubar seus sentidos. Precisava dela, mesmo que odiasse admitir.
   -        Monte sobre minhas pernas - ordenou.
   Se j considerava a caverna opressora antes, teve a impresso de que desfaleceria ao experimentar a presso do corpo contra o dela. Mas no dispunha de espao 
suficiente para as manobras necessrias, e por isso fez como ele sugeria. Apesar das roupas molhadas, sentiu um calor intenso partindo da rea de contato.
   Corajosa, preparou-se para a misso que a esperava, tentando mover os dedos entorpecidos pelo frio.
   -        No posso mais esperar. Precisa remover a faca.
   -        Minhas mos esto muito geladas, Kincaid!
   Ty ignorou o calor e o peso do corpo sobre suas pernas. Precisava de algo que o distrasse da dor, mas a ereo inoportuna que ela provocava no era a melhor 
resposta.
   -        D-me suas mos.
   Dixie obedeceu e sentiu que ele as levava  boca.
   -        O que est fazendo?
   Tyrel no perdeu tempo com explicaes. Respirando to profundamente quanto podia enquanto lutava contra a dor, aspirou o ar pelo nariz e soltou-o pela boca, 
tentando aquecer os dedos enrijecidos. Dixie tremia de frio, e sabia que, a menos que conseguisse aquec-la rapidamente, ela seria de pouca utilidade. Infelizmente 
no havia um nico galho seco na caverna, ou teriam aceso um fogo. E pensar que as pessoas o consideravam um felizardo...
   Dixie teve de morder o lbio para no emitir um som aflito quando ele colocou seu polegar na boca. O calor que brotava da lngua mida envolvia seu dedo, espalhando-se 
rapidamente por todo o brao  medida em que ele repetia a operao com o resto da mo. Sabia o que ele pretendia com o gesto, mas gostaria de descobrir se Kincaid 
tinha idia das reaes estranhas que provocava em seu corpo.
   O vale entre suas coxas repousava sobre a masculinidade excitada de Kincaid, e os arrepios que a percorriam j no eram de frio. Assustava-se com a direo dos 
prprios pensamentos, especialmente porque, tinha certeza, ele os conhecia.
   -        No vou pedir desculpas - Ty murmurou antes de repetir o procedimento com os dedos da outra mo. - Seria tolice desperdiar uma energia to preciosa 
com as palavras. Ponha a mo dentro da camisa, sob o brao, e assim a manter aquecida.
   Fechando os olhos, desejou poder ignorar o tom de voz neutro e impessoal com que ele respondia aos anseios femininos que julgava ter enterrado.
   Num minuto Ty desmascarara a mentira, e isso a enfurecia. No podia deixar-se enfraquecer.
   -        Kincaid, se acha que vou agradecer por ter...
   - No quero sua gratido. A nica coisa que peo  que remova a faca do ferimento em meu ombro. Preparada?
   Em resposta, Dixie agarrou o cabo da faca com uma das mos e usou a outra para segurar o prprio pulso, garantindo maior firmeza. Quase gritou ao sentir as mos 
que a agarravam pelos quadris.
   -        S quero ajud-la a manter o equilbrio. Vai precisar de muita fora para remover a lmina. Avise-me quando for puxar.
   -        Agora. - Rangendo os dentes, puxou com fora. A lmina alcanara profundidade espantosa, e era como se a carne no quisesse solt-la. Preparou-se para 
uma nova tentativa, mas dessa vez sentiu a mo de Ty sobre as suas.
   - Agora. Por favor, agora! - O suor banhava seu corpo. A dor o empurrava rapidamente rumo ao portal escuro da inconscincia. A presso cresceu at transformar-se 
num latejar agudo e constante. Pensou t-la ouvido dizer que conseguira... E foi o ltimo pensamento consciente que teve.
   O corpo de Kincaid j no era uma fora tensa e geradora de calor sobre o dela, mas uma massa desprovida de vida e energia. Dixie deixou a ferida sangrar porque 
era a nica forma de limp-la. Tateando na escurido, encontrou os alforjes e retirou de um deles sua nica camisa de reserva, lamentando o fato dela no estar 
limpa. O outro alforje pertencia ao homem cujo cavalo Ty roubara e, relutante, ela decidiu examin-lo.
   Uma caneca, um bule muito velho e uma camisa dura de poeira e suor compunham o contedo da sacola. Nenhum alimento. Nem mesmo caf.
   Usando a camisa, fez uma bandagem para o ferimento no ombro de Kincaid e amarrou-a com o leno ensopado que tirou do pescoo. Precisava encontrar uma forma de 
mant-lo aquecido. Valendo-se de fora de vontade e coragem, saiu em busca de folhas cadas com as quais esperava acender um fogo na manh seguinte, desde que estivessem 
secas. Enquanto estava fora aproveitou para verificar os cavalos, que bebiam gua da chuva e mantinham as cabeas abaixadas num sinal claro de exausto.
   O ar frio da montanha ajudou-a a vencer o cansao que a levava sonhar com uma cama quente e macia. Novamente no interior da caverna, cobriu Kincaid com os cobertores 
das selas e estendeu os outros sobre as rochas para que pudessem secar. A nica maneira de garantir que Kincaid no morreria de frio depois de perder tanto sangue 
era aquec-lo com o calor do prprio corpo.
   Sabia que precisava descansar, mas ao deitar-se junto dele no imaginava que pudesse dormir. 0 corpo provou que a mente estava enganada.
   
   Thorne Lasser sabia que no tinha chances de encontrar o rastro de Kincaid. As montanhas atravs das quais guiava o garoto Cobie e Hickman eram ngremes e traioeiras. 
A chuva perdera intensidade, mas continuava caindo gelada, cobrindo rastros e prejudicando a viso. Mesmo assim, obrigou o cavalo a vencer a encosta e descer a 
colina do outro lado, alcanando um vale de onde poderiam chegar ao rio.
   Conhecia bem a regio, e mantinha os olhos abertos em busca de possveis esconderijos para dois cavaleiros exaustos e suas montarias.
   A garota que fugira com Kincaid o intrigara. Ela o fitara como se o conhecesse... como se no gostasse dele. Mas, se a tivesse visto antes, se lembraria dela. 
Afinal, no eram muitas as mulheres que freqentavam saloons usando roupas masculinas. E no costumava esquecer uma mulher. Thorne coou a cicatriz sob a luva. 
Pena ter sido obrigado a abandonar a gata selvagem que rasgara sua mo com um caco de vidro. Estivera bem perto de dom-la, mas o ataque o pegara de surpresa. Depois 
de passar dias espionando a rotina diria que ela e seu velho pai seguiam, decidira que seriam presas fceis. Na verdade, todas as mulheres eram fceis de domesticar. 
Pena ter sido forado a desistir daquela belezinha.
   -        Eu disse que no encontraramos rastro algum nesta chuva - Cobie queixou-se. Mantinha a mo ferida sob a camisa, lamentando no ter permanecido no saloon 
com os mineiros. - Tanto sacrifcio por nada!
   -        Pare de choramingar, garoto. Thorne sabe o que faz. No  mesmo, Thorne?
   -        E verdade, Peel. Vou encontr-los, e quando puser as mos neles farei com que se arrependam por terem roubado nossos cavalos.
   -        E por ter atirado em mim. No se esquea, Thorne. Kincaid  meu. Ele me fez passar por idiota no saloon, falando at me deixar entediado e desatento. 
No permitirei que me engane pela segunda vez.
   -        Pretendo recuperar minha faca. Gosto dela. Tomei-a de um mexicano bbado que jurava t-la roubado de um apache que conseguira fugir do Forte Bowie. No 
sei se a histria do sujeito  verdadeira, mas no importa. O que interessa  que adoro aquela faca. A lmina  to afiada que posso descascar um pssego sem partir 
a casca ou ferir a fruta. J contei a vocs sobre a ocasio em que...
   - Pare de tagarelar, Peel - Thorne ordenou, acelerando o ritmo da cavalgada.
   Seguiam para o norte, onde ficavam as gargantas mais profundas. Em todas elas corriam riachos intermitentes onde fugitivos podiam aplacar a sede.
   Kincaid estava ferido. Se era mesmo o homem que contavam os boatos, saberia sobre a comida que apaches fugitivos e bandidos perseguidos deixavam para trs em 
momentos de desespero. E mesmo que ele no conhecesse os rumores sobre todo o alimento esquecido pelo vale, havia muita caa. Nenhum esconderijo poderia ser melhor 
do que a regio onde se encontravam. Um homem precisaria de tempo e habilidade para rastrear outro nessa imensido.
   Thorne no dispunha de tempo. Queria seus alforjes, e tinha de recuper-los antes que Kincaid ou aquela mulher pudessem examin-los, ou encontrariam a quinquilharia 
que conservava em seu poder. Aquele era o nico lao a uni-lo ao trabalho que perdera e a uma questo pendente.
   Sem sequer certificar-se de que os outros dois o seguiam, acelerou o ritmo mais uma vez. Tinha de encontrar Kincaid antes do final do dia. E a garota. No podia 
esquecer-se dela.
   
   
   CAPTULO III
   
   Dixie encolheu-se junto  fonte de calor. Pela primeira vez desde que comeara a caada, sentia-se aquecida e segura. No queria ser arrancada desse refgio.
   Algum estava resmungando. Minutos se passaram antes que ela percebesse ser a autora do som. No queria acordar, mas imaginava com quem poderia estar falando.
   Ressentida contra o que quer que a estivesse despertando, moveu-se e tentou ignorar os sinais de alerta enviados pelo crebro. O corpo estava mais do que satisfeito 
com a cama quente e seca.
   De repente ela abriu os olhos. Todos os sentidos entraram em alerta, enviando mensagens nas quais recusava-se a crer.
   E ento a cama onde repousava tambm comeou a se mexer.
   Abrindo os olhos, identificou a fonte geradora de to agradvel calor. Agora entendia porque os sentidos estavam to aguados. Seu nariz estava enterrado no peito 
de Kincaid
   -        Oh, meu Deus!
   -        Duvido que Ele esteja disponvel para resolver este tipo de problema.
   Ouvira a tenso na voz dela, mas tambm estava perto do limite. Acordar com um corpo de mulher colado ao dele num completo abandono, sem que tivesse recebido 
qualquer tipo de recompensa por isso, fora suficiente para deix-lo zangado e mal-humorado.
   - Voc estava com frio, Kincaid.
   - Eu estava com frio?
   - Ns dois estvamos. Satisfeito? Peo desculpas, pronto. No tive a inteno de dormir em cima de voc.
   - Esquea. Trate apenas de se mexer, est bem. Por ns dois, saia da imediatamente.
   Dixie afastou-se de um salto. Kincaid gemeu, e no foi de prazer. Ouvindo o eco da voz rouca em seus ouvidos, ela se deitou de costas e ficou olhando para o teto 
da caverna. O sujeito acordara furioso como um urso com um espinho na pata, e com a disposio de um animal selvagem, tambm, apesar do ferimento.
   -        Como est o ombro?
   -        Quente e latejando. Como o resto do corpo.
   - Meu joelho tambm di. Talvez possa promover um encontro entre ele e uma determinada parte de sua anatomia. Assim teria algo realmente doloroso com que preocupar-se.
   -        Respostas rpidas, ? No consegue pensar em nenhuma soluo melhor?
   -        Se preferir, tambm pode usar o riacho l fora. Num momento estar gelado e calmo.
   -No era o que eu tinha em mente. Existem maneiras mais agradveis de passar o que pode ser nosso ltimo dia na terra.
   - Esquea. Se quer o paraso, trate de morrer primeiro.
   - At que valeria a pena...
   A voz era suave, desprovida da raiva que antes a tornara dura e fria. Dixie recusou-se a pensar na transformao. Tinha de convenc-lo de que no faria nada alm 
de curar de seu ferimento.
   E depois... Bem, depois seguiriam caminhos distintos.
   -        Escute, Kincaid - disse, virando-se de lado para encar-lo.
   Ele fez o mesmo movimento.
   - Bom dia - sussurrou, depositando um beijo na ponta do nariz dela. - Acho que podia me acostumar com isto. 
   - Vamos comear novamente, Kincaid.
   -        Ty. De Tyrel.
   -        Prefiro Kincaid. Esta nossa associao ser muito breve, entendeu? Breve!
   -        Costumo me orgulhar de agradar s mulheres. Se quer brevidade... - Beijou-a.
   Ty pretendia fazer do beijo uma espcie de oferta de paz, um cumprimento rpido e inocente, uma sugesto de trgua.
   Mas a mudana no ritmo da respirao de Dixie, o gemido de choque e surpresa que ela deixou escapar e a umidade doce e quente dos lbios carnudos expulsaram a 
idia de amizade da sua mente. Como um garoto cavalgando pela primeira vez, quis experimentar a sensao da grande aventura e levar o beijo at o fim.
   Mas Dixie interrompeu o contato com um movimento brusco de cabea. O silncio estendeu-se por alguns instantes at que, retomando a posio na sua metade da 
cama, ela disparou:
   -        Sabe que est ferido?
   -         difcil esquecer.
   -        Est consciente, ou a febre j comeou a provocar delrios?
   -        Estou to consciente quanto voc. Quanto  febre... talvez seja este o motivo do calor repentino que inundou a caverna.
   - Kincaid. Escute-me. Temos problemas srios a resolver. No posso perder tempo e energia lutando contra avanos indesejados...
   -        Ei, espere a! Voc correspondeu ao beijo! No foi um avano indesejado. Uma mulher como voc ficaria ofendida se eu no tentasse.
   Uma mulher como voc. Passara tanto tempo tentando esconder sua feminilidade, negando anseios e desejos prprios do gnero, que o fato de ele poder enxergar sua 
verdadeira essncia sob as roupas sujas e rasgadas era chocante, quase assustador.
   Sentada, virou-se para encar-lo e negar o que ele acabara de insinuar, quando uma chuva de pedregulhos chamou a ateno de ambos.
   Kincaid empunhou a arma com a rapidez de um raio. Apavorada, Dixie guardou silncio absoluto. Se havia algum do lado de fora, os cavalos seriam um indcio mais 
do que evidente da presena de algum na caverna.
   No havia um lugar onde pudessem se esconder. Estavam encurralados.
   Rpida, tambm empunhou sua arma e esperou. Durante todos os meses que passara sozinha, perseguindo o bandido que matara seu pai, s a disparara uma vez, quando 
uma cobra decidira transformar sua bota em dormitrio. De repente, em menos de vinte e quatro horas, via-se disposta a abrir caminho  bala, se fosse necessrio.
   Assustada, viu Kincaid levantar-se e oscilar como uma folha ao vento. O homem no tinha juzo! Estava ferido, sem nenhuma condio de enfrentar um confronto. 
O que pretendia fazer?
   Pelo menos ele no tentou afast-la quando aproximou-se para ajud-lo, apesar da raiva que estampou-se em seu olhos.
   Silenciosos, aguaram os ouvidos e esperaram, dispostos a localizar a presena estranha atravs de um rudo qualquer. Devagar, Dixie aproximou-se da entrada da 
caverna e viu a neblina sendo varrida do vale pelos primeiros raios de sol. Os cavalos estavam calmos, exatamente como os deixara na noite anterior. Nenhum som os 
alertara para o perigo, sinal de que estavam seguros, pelo menos por enquanto.
   A tenso comeava a deixar seu corpo, mas ao virar-se para Kincaid concluiu que a situao era mais difcil para ele. O rosto estava molhado de suor. A camisa 
exibia manchas escuras de sangue e a pele era plida, os olhos contornados por sombras escuras. Mesmo assim, no estava disposto a entregar-se.
   Kincaid devia ter deduzido a mesma coisa que ela, porque num instante mergulhou para fora da caverna e foi esconder-se atrs de uma muralha de rochas. Sem saber 
o que fazer, Dixie esperou por um sinal qualquer. Odiava a posio de coadjuvante!
   Os segundos transformaram-se em minutos e a tenso cresceu rapidamente. O suor escorria por suas costas, traindo o medo que a invadia. Por que diabos Kincaid 
no se mexia? Talvez estivesse impossibilitado de mover-se. O ferimento podia ter se agravado! Ou ele havia desmaiado, perdido a conscincia em funo do sangramento?
   No ouvira mais nenhum rudo que pudesse indicar a presena de algum, ou de um animal, caminhando sobre a plataforma acima da caverna. Certamente podia deixar' 
o esconderijo sem correr riscos.
   Temendo despertar a fria de Kincaid com uma atitude insensata ou precipitada, recolheu uma pedra do cho da caverna e jogou-a contra as rochas atrs das quais 
ele protegia-se.
   Nada. Nenhum som. Preocupada, saiu devagar e foi se movendo sem se afastar das pedras.
   - Kincaid! - sussurrou.
   Nada. Nenhuma resposta. Certa de que o encontraria desfalecido, abandonou a proteo da entrada da caverna e atirou-se na direo das rochas que o ocultavam. 
Mas Kincaid no estava l!
   Como se uma fora sobrenatural a alertasse, ergueu os olhos e o viu sobre a caverna, apenas uma silhueta escura contra a parede rochosa. No momento em que o identificou 
algo aconteceu, alguma coisa to envolvente e sexual que ela temeu perder os sentidos. Por um momento, foi capaz de jurar que ele sentia a mesma coisa, aquela estranha 
sintonia entre dois parceiros que haviam superado o perigo e queriam celebrar a segurana da maneira mais primitiva possvel.
   Ele desceu a encosta poupando o lado esquerdo do corpo. Aturdida, Dixie limitou-se a observ-lo.
   
   Ty contentou-se com o silncio de seu sistema interno de defesa, aquela espcie de sexto sentido que anos de solido haviam conseguido aperfeioar. De repente 
j no sentia mais necessidade de manter-se longe de Dixie Rawlins.
   No conseguia entender o que o tornava to possessivo e protetor. Afinal, um beijo rpido no transformava dois adultos em amantes, e s isso no poderia despertar 
to intensa onda de desejo.
   O perigo que o impelira a agir fora proveniente de outra fonte. Um pequeno animal devia ter provocado o movimento das pedras no interior da caverna, mas estava 
grato por ter abandonado o esconderijo. A fumaa que vira alguns quilmetros  frente o alertara para a possibilidade de terem companhia em breve. Ty parou antes 
de dar os ltimos passos que o colocariam diante dela.
   O que havia nessa mulher capaz de chamar sua ateno? Curiosidade. Sim, era isso. O sentimento o acompanhava desde a noite em que a vira escovando os cabelos 
no acampamento. O sol despertava o reflexo dourado que a poeira apagara das mechas castanhas. Emaranhados, os cabelos emprestavam um ar selvagem ao rosto. O queixo 
permanecia erguido, orgulhoso, os olhos eram atentos, e podia quase sentir a tenso que emanava de seu corpo tentador.
   O prprio corpo respondia  tenso. No esquecera a delcia de senti-la sobre seu peito num abandono quase infantil, como uma garotinha que finalmente encontrara 
um porto seguro depois de dias e noites de pavor.
   O problema era que no sabia o que fazer com todas as coisas que sentia. Dixie Rawlins era uma complicao de que no precisava, e sabia que no poderia simplesmente 
se deitar com ela e partir.
   Como se pudesse ler a deciso em seu rosto, ela se virou na direo do rio e guardou a arma enquanto afastava-se.
   Compreendendo que perdera o momento de intimidade, Ty lamentou a prpria covardia. Mas o bom senso dizia que era melhor assim. Sem envolvimentos.
   
   Ajoelhada ao lado do riacho, Dixie lavou o rosto enquanto tentava entender o que acontecera entre eles. Por um momento, quando Ty havia parado para observ-la, 
tivera a sensao de estar diante de um predador determinado. O momento se fora, mas o sentimento permanecia.
   Era tolice. Imagens criadas pela imaginao, sensaes provocadas pelo fato de estarem juntos numa aventura perigosa. Em vez de perder tempo tentando decifrar 
sentimentos, devia procurar alguma coisa com que pudesse saciar a fome, ou logo estaria fraca demais para montar. E se, mantivesse o crebro voltado para questes 
prticas, Kincaid seria forado a fazer o mesmo.
   Ao recolher um pouco de gua para beber, sentiu o forte' aroma de menta. Olhando para baixo, notou que esmagara os delicados arbustos que cresciam ao longo da 
margem a recolher algumas folhas.
   -        No vai conseguir us-las para nada, a menos que encha o bule com gua, tambm - Kincaid indicou, mostrando o utenslio que trouxera da caverna.
   -        Por que no fala mais alto? E pare de me tratar com tanta hostilidade. No sou sua inimiga, lembra-se? - Arrancou o bule da mo dele.
   -        Inimiga? No. Mas  ferina. Agora entendo porque vive sozinha.
   Dixie parou, contou at dez, respirou fundo e soltou o ar antes de encher o bule com gua do riacho e levantar-se. Ento encarou-o, tomada por uma assustadora 
onda de raiva.
   -        Kincaid, voc no me conhece. E nem vai conhecer, se depender de mim. - Tentando ignorar o efeito que aqueles olhos azuis exerciam sobre ela, decidiu: 
- Vou acender uma fogueira. Cuidarei de sua ferida assim que tomarmos nosso ch de menta.
   Ty esperou que Dixie se aproximasse para tocar seu rosto com delicadeza. Segurando-a pelo queixo, estudou os traos delicados.
   - No a conheo,  verdade. Mas sei que se torna hostil cada vez que procuro descobrir algo a seu respeito. Por qu? O que a faz vagar de um vilarejo para outro, 
trapaceando com homens que sentiriam tanto prazer cortando sua garganta quanto se deitando com voc?
   - Isso o coloca um passo  frente deles, no , Kincaid? No tentou cortar minha garganta.
   -        Agresso no vai nos levar a lugar algum. Quando quiser falar, estarei pronto para ouvir - dizendo isso, tomou o bule das mos dela e afastou-se, deixando-a 
sozinha junto ao riacho.
   Dixie pensou nos momentos que antecederam o confronto com os mineiros no saloon. Desejara ter um homem como Kincaid a seu lado para ajud-la a encontrar o assassino 
de seu pai. No instante seguinte ele se envolvera na confuso e tomara sua defesa. No podia continuar ignorando o fato de ter estado diante do homem que matara 
seu pai, em vez de destru-lo, como planejara ao longo de todos os meses que passara vagando pelo territrio, preocupara-se apenas em salvar a vida de Tyrel.
   Virando-se, viu que ele tentava providenciar uma fogueira, apesar do ombro ferido. Questes prticas exigiam sua ateno imediata. Depois tomaria a deciso sobre 
a convenincia de revelar seu segredo a Kincaid.
   
   Dixie terminou de beber o ch de menta e foi verificar se a gua j estava quente o bastante para lavar o ferimento. Ao segur-lo, notou o sorriso plido no rosto 
de Kincaid.
   -        Ah, no! No me diga que vou ter problemas para limpar essa ferida!
   - Admito que no estou ansioso. Esta bandagem improvisada no  a soluo ideal, mas funciona. A pele em torno do ferimento est quente, mas at onde posso ver 
no h razo para alarme.
   -        Por acaso  mdico?
   - Um homem sozinho tem de aprender um pouco de tudo, se quiser sobreviver.
   -        Uma mulher sozinha, tambm. s vezes anseio por um pouco de paz, como a que podemos sentir neste lugar. Compreendo porque algum pensou em construir 
seu lar aqui. A grama  verde e o riacho deve correr abundante durante todo o ano.
   -        McKee deve ter pensado a mesma coisa. Ele lutou muito, antes de desistir da prpria casa. Mas nem todos os homens pensam em possuir terra e acomodar-se.
   -        Fala como se j houvesse tentado.
   -        Talvez.
   Dixie compreendeu a mensagem oculta na resposta evasiva e no insistiu no assunto.
   -        Bem, vamos ver como est o ferimento. Deite-se. 
   - Indefeso e disponvel. No posso dizer que seja minha posio favorita.
   -Muitas mulheres pensam como voc. Na verdade, a maioria daria dez anos de vida para trocar de lugar com os homens.
   -        Que homem tentou coloc-la nessa incmoda posio, Dixie? - ele perguntou enquanto se acomodava sobre a sela do cavalo.
   -        Voc. Esta manh, lembra-se? - Abriu sua camisa para comear a trabalhar.
   -        Se no estou enganado, voc estava a caminho da disponibilidade. Mas torn-la indefesa exigiria muito trabalho de minha parte.
   -        O que prova a diferena entre os pontos de vista de um homem e de uma mulher a respeito do mesmo evento. Eu no estava disponvel. E nem estaria. No 
tenho inteno de me oferecer a homem algum, nem agora, nem nunca.
   - Ei, devagar! - ele gritou, sentindo que Dixie usava um pano embebido em gua quente para remover o tecido que aderira  ferida. - J percebi que tem dio do 
gnero masculino, mas no me faa pagar por todos os pecados do mundo!
   -        Fique tranqilo, Kincaid. Jamais cometerei tal engano.
   Ty descobriu que precisava mant-la falando, porque assim no pensava na sensao de dor e prazer provocado pelos dedos em seu ombro.
   -        Por que no me conta onde aprendeu a jogar cartas. Estive observando numa das vezes em que nos enfrentamos e notei que  capaz de manusear um baralho 
como ningum.
   -        Meu pai era jogador profissional. Ele me ensinou. 
   - Uma lio bastante estranha para um homem ensinar  prpria filha. Normalmente os pais querem proteger suas...
   -        Meu pai no era um homem qualquer. Depois da morte de minha me, amos juntos a todos os lugares. Quando completei dez anos, ele decidiu criar razes. 
- Tinha de tomar cuidado com as palavras. Guardara segredo sobre o passado ao longo de muitos anos, e de repente surpreendia-se falando sobre o pai e a prpria infncia 
como se no tivesse razes para guardar segredo. - Pronto - anunciou ao concluir a limpeza. - Agora trate de ficar quieto enquanto vou lavar minha camisa. Ela servir 
como bandagem.
   No podemos permanecer aqui por muito tempo, Dixie.
   -        Por que no? Temos abrigo, gua, e aposto que encontraremos caa, se procurarmos.
   -        Est pensando em atirar num animal? Esqueceu-se de que estamos sendo seguidos? No podemos fazer barulho.
   - Talvez eles tenham desistido. A chuva j apagou nosso rastro. De qualquer maneira, ainda me lembro como construir uma armadilha. A menos que tenha bons motivos 
para partir, prefiro ficar aqui por mais um dia.
   Dixie abriu um dos alforjes que haviam ficado presos aos cavalos atados e apanhou uma camisa imunda.
   - Vou lav-la tambm - decidiu. - Assim ter o que vestir enquanto cuido das suas roupas. - Jogou as bolsas de couro no cho. - No encontrei nada de til nelas 
ontem  noite, mas estava escuro. Talvez tenha mais sorte.
   -        Voc disse que eu devia ficar quieto.
   -        Eu sei, mas aposto que  o tipo de homem que tem de estar sempre fazendo alguma coisa. Talvez seja uma boa soluo para mant-lo ocupado e deitado.
   
   Dixie jogou as camisas na gua corrente do riacho e prendeu-as a uma pedra. Kincaid a chamou e ela abandonou a tarefa para virar-se para a caverna. Mesmo distante, 
reconheceu o objeto que ele segurava acima da cabea. Um dos objetos que o assassino de seu pai havia roubado. Exatamente o que mais a preocupara desde que enterrara 
o pai e perdera o rancho. Quando havia sentido falta do objeto, conclura que o sujeito poderia voltar para procur-la.
   Devagar, depositou as camisas molhadas na margem antes de levantar-se e voltar  caverna. Culpar-se por no ter revistado os alforjes com mais cuidado na noite 
anterior seria intil, e por isso no perdeu tempo. Ajeitando o cinturo com a cartucheira em torno dos quadris, reuniu coragem para fazer o que julgava necessrio.
   -        O que houve? - perguntou.
   -        No quer me explicar isto aqui, Rawlins?
   -        Vejamos. Voc me d outra opo?
   -        No. Que diabos este retrato seu estava fazendo naquele alforje?  voc, no? Mais limpa e bem arrumada, com os cabelos penteados e roupas femininas, 
mas os traos so os mesmos. Uma mulher linda e elegante, diferente da Dixie que estou vendo agora.
   
   
   CAPTULO IV
   
   Est pensando que sou cmplice daqueles homens?
   -        Quero a verdade, Dixie.
   Ela se aproximou com passos lentos, porm firmes. Sabia quais eram suas opes. Falar ou partir. Contar toda a histria a Kincaid seria o mesmo que arrast-lo 
para dentro dela, e no tinha o direito de por em risco a vida de outro ser humano.
   -        O que o faz pensar que esta no  a verdade?
   -        Tente outra vez, Dixie. A verdade.
   Ela tropeou e quase caiu, mas conseguiu manter-se em p e, veloz, apontou a arma para Kincaid.
   -        Caminhe at onde esto os cavalos - disse, certa de que ele no a obedeceria.
   Ty olhou para a foto por alguns segundos antes de jog-la no cho e, resignado, fazer como ela ordenava.
   -        Solte o cavalo castanho.
   -  difcil desamarrar a rdea com uma nica mo. Por que no vem me ajudar? Prometo que no vou...
   -        Est achando que sou idiota, Kincaid? Vamos, faa o que estou mandando!
   -        Est bem - ele suspirou, manuseando o couro endurecido pela gua da chuva. - No pense que estou tentando ganhar tempo. O n est muito apertado.
   - Pare de falar. No sou o garoto que enfrentou ontem  noite, e no quero ser obrigada a atirar em voc. Mas no querer no significa no poder.
   - Voc tem a arma. Portanto, voc manda. Por enquanto...        Ele sorriu, conseguindo desatar o n.  - E agora?,
   - Agora solte o cinturo com a arma e leve o animal para passear do outro lado do vale.
   Dixie recusava-se a desviar os olhos dos dele. Aprender com o pai que devia sempre olhar nos olhos de um homem para saber quais seriam seus prximos movimentos. 
Mas a expresso de Kincaid era indecifrvel.
   - Poupe-nos de mais sofrimento no abusando da minha pacincia, est bem? Quando voltar do passeio, estarei bem longe daqui.
   -        Talvez eu no queria que v embora.
   - A escolha no  sua.
   Ty respirou fundo e decidiu no pression-la. No agora. Segurando a rdea do animal, comeou a afastar-se. A mulher possua segredos nos quais no queria ser 
envolvida. Na verdade, no sabia nem por que a interpelara.
   Ao v-lo aproximar-se da nascente com o cavalo sedento sofreu um ataque de culpa. No cuidara dos animais naquela manh, o que significava que havia quebrado 
uma das mais importantes regras de sobrevivncia para quem vive sozinho pelas trilhas: cuidar da montaria antes de preocupar-se com o prprio conforto.
   -        Atravesse o riacho e continue andando, Kincaid! gritou, usando a faca que levava presa  cintura para desatar o n na rdea do segundo cavalo. Enquanto 
ele atravessava o curso de gua, correu at o interior da caverna e apanhou seus pertences e urna sela. Poucos minutos mais tarde, depois de preparar a montaria 
com habilidade e rapidez espantosas, Dixie montou e partiu na direo oposta  que Kincaid seguira.
   Ty virou-se e a viu afastar-se. Com a mesma calma com que havia caminhado at a nascente, voltou sobre os prprios passos e foi acomodar-se na caverna. Dixie 
Rawlins voltaria. Estava certo disso.
   
   Dixie cavalgou sob os pinheiros que guardavam a entrada do vale. Antes de deixar a proteo formada pelo corredor verde, parou para ajeitar os alforjes. Possua 
ouro suficiente para manter-se por algumas semanas, e o mais urgente era providenciar suprimentos. Estava com fome, mas j suportara a mesma privao antes. No 
podia cometer mais enganos como o da noite anterior. Os mineiros espalhariam as novidades em todos os acampamentos da regio, e o melhor que tinha a fazer era 
sair de circulao por algum tempo, ou dirigir-se ao sul.
   Mas afastar-se de Ty Kincaid foi suficiente para que voltasse a pensar na chance que desperdiara. Se deixasse a rea, levaria meses para encontrar novamente 
o rastro do homem que caava.
   Deixando o cavalo seguir num trote preguioso, Dixie decidiu banir Kincaid do pensamento. Disposta a seguir para o sul, havia cavalgado menos de quatro quilmetros 
quando pensou ter visto um cavaleiro sobre um patamar rochoso muitos metros acima de onde estava.
   Protegendo os olhos com uma das mos e lamentando o chapu perdido, Dixie examinou a rea. Nenhum sinal de homem ou cavalo. Devia ter sido apenas uma sombra, 
ou um animal.
   Obrigando o animal a seguir em frente, notou que a trilha que percorria desaparecia alm de um banco formado por rvores espessas. Um forte pressentimento a invadiu, 
dizendo para retornar, mas ela preferiu ignor-lo.
   O terreno era acidentado e irregular, e havia uma centena de lugares onde algum poderia esconder-se. Mantendo distncia das rochas, obrigou a montaria a seguir 
pelo meio da trilha.
   A direita, viu uma serpente rastejando para baixo de uma pedra e conteve um arrepio. Odiava cobras. O cavalo empinou e ela se inclinou para acalm-lo com um afago 
e palavras doces.
   Um disparo provocou uma chuva de pedregulhos alguns metros acima de sua cabea. Um segundo tiro acertou o cho, bem perto de onde estava, e o cavalo levantou 
as patas dianteiras. Dixie conseguiu manter-se sobre a sela por sorte, graas ao instinto que a fez agarrar-se  crina do animal. Dominando a montaria, puxou as 
rdeas e usou os calcanhares para obrig-la a correr na direo contrria.  que seguiram at ento. Mais dois tiros atingiram a pedras na lateral da trilha.
   Apavorada, sem poder prever qual seria a reao do cavalo, tentou pensar no que fazer. Abandonara Kincaid no vale e seria capaz de escapar da emboscada, se quisesse 
mas sabia que o atacante acabaria por encontr-lo. E ele estava ferido.
   Se continuasse cavalgando, o atirador a perseguiria? O vale podia ser uma armadilha, j que possua apenas uma sada. Mas, se no podiam sair, ningum mais poderia 
entrar.
   O vento empurrava seus cabelos para trs numa massa emaranhada. O medo fazia seu corao bater com velocidade assustadora, e um arrepio percorreu sua espinha 
quando mais alguns tiros indicaram que o atacante aproximara-se rapidamente.
   H quanto tempo havia deixado o vale? Vinte minutos. Meia hora? No tinha certeza. Decida-se, Rawlins! Volte, ou continue cavalgando e tente escapar.
   Abaixada na sela para no se transformar em alvo fcil sentiu as lgrimas correrem pelo rosto."A coragem e a fora" estavam chegando ao fim.
   No desista, Dixie. As palavras de seu pai ecoavam na memria.
   Tinha de sobreviver. Precisava escapar ilesa do ataque e cumprir a misso que impusera a si mesma. Era a tini capaz de vingar o assassinato do pai.
   O corredor de pinheiros que marcava a entrada do vale surgiu diante de seus olhos como uma miragem. Sabia que as rvores ofereceriam alguns minutos de segurana. 
Protegida pelas rvores frondosas, pensou mais uma vez nas opes: voltar ao vale e prevenir Kincaid, ou continuar fugindo na esperana de levar para longe dali 
seu perseguidor
   O estrondo de cascos a encheu de pnico. Havia mais de um cavaleiro a persegui-la, e aproximavam-se depressa.
   Tiros quebraram diversos galhos dos pinheiros, anunciando a chegada dos atacantes. Dixie guiou o cavalo em zigue-zague pelo corredor escuro formado pelos pinheiros, 
esperando que os galhos mais baixos e espessos abafassem o rudo dos cascos no cho.
   Mas, da mesma forma que a relva espessa e a parede de vegetao a ajudavam a escapar sem atrair a ateno dos atiradores, tambm a impediam de ouvi-los se aproximando.
   Mais alguns instantes e estaria entrando no vale. E Kincaid estaria l.
   No sabia por que o simples fato de pensar nele amenizava seus temores. Apenas aceitava os fatos.
   Um tiro acertou o galho mais baixo da rvore sob a qual passava e ela abafou um grito. Comeou a rezar, mas parou ao ouvir um disparo partindo da direo oposta. 
No alto de uma rocha, com o sol arrancando reflexos prateados do cano de sua arma, estava Kincaid.
   - Continue! - ele gritou. - Acompanhe o riacho atravs do vale! H uma fenda nas rochas alguns metros  frente. Leve o cavalo at l e irei encontr-la em seguida.
   - Kincaid...
   - V de uma vez! Eu os manterei ocupados.
   Ele tinha razo. Esse no era o melhor momento para discutirem a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres.
   Dixie galopou pelo vale ouvindo os tiros. Kincaid era mais forte do que imaginara, porque conseguira selar o cavalo mesmo com um ombro ferido. O fato de estar 
atirando e dando ordens indicava que sues temores no tinham fundamento.
   Dixie j estava com os ps no cho, subindo pela abertura na rocha e tentando convencer o cavalo a segui-la, quando ouviu outra montaria aproximando-se a galope.
   Kincaid! E atrs dele vinham trs cavaleiros!
   Dixie parou no alto da encosta. Sabia que era um alvo perfeito, mas recusava-se a deix-lo sacrificar-se sozinho.
   Enrolando a rdea em torno do pulso para impedir que cavalo fugisse, sacou a arma. Atirar para proteg-lo enquanto ela tentava escapar era o mnimo que podia 
fazer para retribuir a ajuda que recebera.
   - Continue! - Ty gritou ao perceber o que ela fazia. idiota era incapaz de cumprir ordens! Seriam mortos feitos prisioneiros. Tentava ignorar a dor no ombro sabia 
que no podia cavalgar e atirar ao mesmo tempo. Se Dixie no continuasse subindo a encosta para abrir caminho no chegaria a lugar algum antes de ser atingido por 
uma bala. - Abra caminho, Dixie! Preciso subir!
   Ela esvaziou o revlver na direo dos perseguidores correu para o outro lado da encosta. O cavalo agitou-se tentou voltar, temendo a trilha estreita cortada 
entre rochas, e Dixie teve a impresso de que o brao estava sendo arrancado do corpo. No podia recarregar a arma ao mesmo tempo. Kincaid apareceu na garganta estreita 
e decidiu por ela.        
   - Monte, Rawlins. Vamos cavalgar.
   Ele indicou o caminho e Dixie o seguiu. No havia uma trilha. Estavam se movendo por um labirinto de esculturas em granito cujo formato e tamanho pareciam ter 
sido copiados dos piores pesadelos. J ouvira falar no vale Skull, e acreditava que Kincaid se dirigisse para l.
   Dixie no sabia dizer quando os sons da perseguio haviam cessado. No foi uma constatao sbita, mas uma impresso gradual que aos poucos transformou-se em 
certeza.
   Mesmo assim, Kincaid no diminuiu o ritm. O que a deixava sem opo alm de continuar cavalgando no territrio acidentado. A vegetao rasteira era espessa e 
traioeira sobre o solo mido das margens de inmeros riachos e o sol ardia inclemente como um deus vingador.
   Exausta, tentou umedecer os lbios ressequidos e dizer a Kincaid que no podia mais continuar, mas no conseguiu falar. E tambm no sabia se ele teria sido capaz 
de ouvi-la.
   O homem tinha de ser feito de pedra para cavalgar daquela maneira, sem nunca olhar para trs para ter certeza de que o seguia, sem nunca oferecer uma chance de 
descanso.
   E era evidente que sabia que j no eram mais perseguidos. Mas, cada vez que tentava alcan-lo, Kincaid aumentava a velocidade.
   Ele subiu o riacho, atravessou-o e voltou pela margem oposta.        Subiram uma encosta e cruzaram o banco de areia formado no leito seco de um afluente. Kincaid 
no parava. Dixie j no sabia onde estavam. Seguiam dando voltas e subindo e descendo a corrente, atravessando afluentes rasos ou secos, e de repente ela percebeu 
que Ty estava usando todos os truques que conhecia para apagar as pistas que deixaram. 
   Gostaria de poder ver alm da exausto para aprender com ele, mas sabia que estava prestes a perder os sentidos.
   Sabendo que podia parar, Ty continuou em marcha acelerada. Cavalgava por pura obstinao, como fazia desde o incio da terrvel caada. Dixie j alcanara o ponto 
mximo da exausto, e tinha de admirar sua tenacidade por continuar acompanhando o ritmo que ele impunha. S queria ter certeza de que no eram seguidos, porque 
precisariam de dois ou trs dias para descansar e cuidar dos cavalos.
   
   Seguindo um dos afluentes do rio Santa Maria, Ty pensou no rancho Rutland, que ficava bem perto dali. Greg Rutland no negaria abrigo e comida, mas tinha de certificar-se 
de que no causaria problemas para o amigo e sua famlia.
   Greg tinha uma irm, Jessie, que devia usar o mesmo manequim de Dixie. Roupas limpas seriam um grande passo na direo da recuperao depois de um dia to cheio 
de eventos, e sabia que as mulheres valorizavam ainda mais detalhes como esse. Comida quente e uma cama limpa e tinham o mesmo poder de apelo que encontrar os miserveis 
que haviam atacado Dixie. A cabea pesava e o ombro ferido o torturava.
   Quando pensou estar a quatro quilmetros do rancho, Ty encontrou um ponto mais raso para atravessar o rio. O sol se punha e o vento gelado soprava forte, mas 
no acreditava na possibilidade de chuva. Diante dele, a terra onde nascera e fora criado o recebia em todo seu esplendor.
   Dixie o alcanou e, notando que seus lbios estavam ressecados e feridos, ele parou para oferecer seu cantil. Depois bebeu um pouco de gua e devolveu o reservatrio 
ao alforje pendurado na sela.
   -        Sabe onde estamos, Kincaid?
   -        Eu sempre sei onde estou. Vamos para o rancho de Greg Rutland. Comida quente, cama limpa e companhia feminina para voc. Podemos descansar por dois ou 
trs dias antes de decidirmos qual ser nosso prximo passo.
   Nosso. No queria gostar do som da palavra. Estava cansada demais para argumentar, mas tinha de fazer algumas perguntas.
   -        Esperava por mim na entrada do vale, no ? Co se soubesse que eu voltaria. Como se soubesse que eu se perseguida. No acha que me deve uma explicao?
   Os cavalos seguiam num trote lento e confortvel. J podiam ver a casa e os galpes do rancho no vale que se abria as ps da montanha, e a luz amarela que brotava 
das janelas sugeriam um aconchego que h muito no experimentavam.
   -         melhor conversarmos aqui, longe da famlia de Greg. No quero preocup-los.
   -        O que tem a me dizer  to terrvel assim?
   -        Esta manh, quando subi naquele patamar rochas, sobre a caverna, vi a fumaa de uma fogueira de acampamento cerca de seis quilmetros alm da entrada 
do vale. Logo compreendi que as pessoas acampadas estavam atrs de ns por causa dos cavalos roubados.
   Em silncio, Dixie refletiu sobre o que acabara de ouvir Depois brandiu as rdeas e acelerou o ritmo da montaria.
   - Dixie! No tem nada a dizer? - ele perguntou espantado, tratando de alcan-la.
   -        No.
   -        No vai tentar discutir? No vai me acusar de nada. Pensei que fosse uma dessas mulheres que querem sempre dar a ltima palavra.
   - Odeio desapont-lo, mas sei reconhecer quando algum tem razo. E neste caso, voc agiu como devia.
   - O qu?  inacreditvel! Uma mulher de bom senso!
   Dixie aproveitou a penumbra do anoitecer e sorriu, sabendo que ele no poderia v-la. Deixaria Kincaid desfrutar desse momento. Mais tarde mostraria a ele que, 
apesar de doce, o sabor da vitria no  eterno.
   
   
   CAPTULO V
   
   Greg Rutland era mais alto que Ty, grande e robusto, mas no tinha nada de bonito O nariz era longo e torto, metade da orelha direita havia desaparecido, e as 
sobrancelhas cresciam juntas sobre olhos escuros, dando a impresso de uma eterna carranca Mas o sorriso era amistoso e caloroso como o abrao de boas-vindas que 
ele deu no amigo.
   Dixie temia desmontar. No sabia se as pernas poderiam sustent-la, e de repente lembrava-se de que no havia cuidado da aparncia desde que acordara. No que 
dedicasse muito tempo  vaidade nos ltimos meses, mas quando Greg chamou a esposa e ela aproximou-se com uma lamparina na mo, teve de fazer um grande esforo para 
no tentar fugir da luminosidade.
   Lvia Rutland era loura, pequena e delicada como uma boneca de loua. O avental branco estava muito limpo, os cabelos eram mantidos num coque elegante no alto 
da cabea, e o vestido azul exibia rendas brancas em torno dos punhos e do pescoo. Ela abraou Ty e Dixie sentiu o perfume suave de lavanda. No foi inveja que 
a fez refugiar-se nas sombras enquanto ouvia a voz doce de Lvia e as palavras preocupadas provocadas pela viso do ferimento, mas a lembrana de um dia ter se 
orgulhado dos mesmos atributos femininos que acendiam um brilho admirado nos olhos de Ty Kincaid e plantavam um sorriso em seus lbios que adoraria ter merecido.
   - Elwin, Gilby, venham cuidar dos cavalos! - Greg gritou, levantando a lamparina acima da cabea. - Quem est com voc, Ty?
   _ Oh, esta  Dixie Rawlins. Ela me ajudou a escapar de uma emboscada.
   -        Uma mulher? Ty, por que guardou segredo? - Lvia brincou, passando um brao em torno da cintura dele. - Se os cavalos esto neste estado de exausto, 
aposto que vocs se sentem prestes a desfalecer!
   Dixie no podia mais esconder-se. Respirando fundo e dizendo a si mesma que sua aparncia no tinha a menor importncia, desde que conseguisse um prato de comida, 
um banho e uma cama limpa, adiantou-se para cumprimentar os Rutland.
   Os meninos levaram os animais para trs da casa. Uma garota vestida como a me agarrava-se s pernas de Ty, enquanto outro corria na direo dele com os braos 
abertos. Era estranho deparar-se com esta imagem to diferente de Kincaid. Apesar da dor que devia sentir, ele conseguiu levantar o pequeno com o brao sadio, evitando 
que ele casse sobre a garotinha que permanecia abraada em suas pernas.
   Ele viu a expresso em seu rosto quando Lvia ordenou que todos voltassem para dentro de casa.
   - O que posso dizer? - riu. - Algumas pessoas gostam de mim.
   -Parece que sim - aproximou-se, baixando o tom de voz. - No acha que devia dizer a eles que somos ladres de cavalos?
   - Jlia - ele chamou a pequena -, est  Dixie Rawlins. Ela roubou um cavalo.
   -        Ty! - Incapaz de resistir s gargalhadas infantis, Dixie tambm sorriu. - Est bem, j entendi a mensagem. Seus amigos no se importariam.
   -         claro que no! - Greg respondeu atrs dela. - Tenho uma dvida com Ty maior do que jamais poderei pagar. O que quer que tenha feito, ele sempre encontrar 
abrigo sob meu teto. E isso vale para quem vier com ele, tambm. Entre e deixe minha Lvia cuidar de voc, Dixie. O jantar ser servido dentro de alguns minutos.
   Calor. Foi a primeira palavra em que Dixie pensou ao entrar na casa dos Rutland. No era s o calor proveniente da lareira, ou do fogo  lenha quase escondido 
sob as panelas fumegantes que perfumavam o ambiente, mas o calor da recepo. Flores coloridas num vaso transparente enfeitavam um balco de madeira. Cortinas 
artesanais cobriam as janelas, e tapetes tricotados com restos de l colorida1 haviam sido espalhados sobre as tbuas do piso. O material que caa de uma cesta de 
vime ao lado da cadeira de balano sugeria que Lvia acabara de abandonar o trabalho.
   Um cobertor estendido sobre uma corda escondia um recanto especial ocupado por uma cama feita de trapos e uma caixa de papelo onde uma gata lambia a cria. A 
escada que levava ao segundo andar partia do extremo oposto da cozinha, de uma espcie de alcova minscula protegida por cortinas que, nesse momento, permaneciam 
abertas.
   A cermica sobre as prateleiras, os biscoitos dourados que Lvia ps na mesa e o sorriso das crianas ocupando seus lugares nos dois longos bancos de madeira 
eram a mais pura traduo da palavra lar.
   Uma nostalgia que Dixie julgava ter banido da memria despertou de repente em seu peito, e por um momento ela teve de virar o rosto para esconder as lgrimas. 
No sabia o que estava acontecendo. Em dois dias chegara  beira das lgrimas diversas vezes, uma fraqueza feminina a que no podia se permitir. No enquanto no 
conclusse sua. vingana.
   -        Dixie?
   Levantando a cabea, viu que Ty a observava. Os olhos sugeriam preocupao, e podia quase ver a pergunta se formando em seus lbios. Balanando a cabea, olhou 
para a gata na caixa de papelo.
   - Gosta de animais? - Jlia perguntou, levantando-se do banco com alguma dificuldade, j que os ps no alcanavam o cho. Sorrindo, foi segurar a mo dela. 
   - Witchy no vai se importar se for visitar os filhotes. Ela gosta de exibi-los.
   -Jlia, querida, acho que Dixie prefere se lavar primeiro. Depois do jantar voc poder lev-la para conhecer os bebs de Witchy.
   -        Sim, mame.
   - Leve Dixie ao lavatrio, por favor, e providencie uma toalha limpa.
   Sem soltar a mo dela, Jlia a levou para a alcova no fundo da cozinha. Ao lado da escada havia uma pequena mesa sobre a qual repousavam uma bacia de porcelana 
branca e uma jarra. Lvia aproximou-se com uma lamparina e uma chaleira de gua fervente.
   - Pronto, agora pode enxergar melhor - disse, deixando a lmpada sobre a mesa. - Vou cuidar do ferimento de Ty. Pode lavar-se sem pressa. Manterei os homens longe 
daqui enquanto se livra da poeira da estrada.
   Jlia voltou com a toalha limpa e ficou parada perto da escada, as mos cruzadas s costas e o corpo balanando de um lado para o outro.
   Dixie sorriu para ela e olhou para o espelho pendurado na parede. Seria necessrio mais que um pouco de gua para tornar-se apresentvel.
   Muito mais...
   -        Voc  a namorada de Ty? Ele nunca a trouxe aqui. Vo se casar e ter muitos filhos?
   Dixie misturou a gua fria da jarra  gua fervente da bacia e apanhou o sabo, inclinando-se para esfregar o rosto antes de oferecer uma resposta. Ouviu o baque 
surdo dos alforjes sendo jogados no cho e no deu ateno ao riso de Jlia. Tinha a impresso de que a pele absorvia cada gota de gua que jogava no rosto.
   Momentaneamente cega, agarrou a toalha e agradeceu sem abrir os olhos. Daria dez anos de vida por um bom banho com muita gua quente e um sabo que no cheirasse 
a cinzas e sebo.
   Ao abrir os olhos, notou que Jlia desaparecera. O rosto de Ty brilhava atrs dela no espelho, os olhos azuis cheios de promessas silenciosas que pareciam parar 
o tempo e a impediam de se mover.
   -        Estava pensando... se sente tanta fome quanto eu.
   Notou a pausa, compreendeu que ele a produzira deliberadamente e lembrou daquela manh, quando havia despertado nos braos dele. O estmago contraiu-se numa reao 
que no pde controlar ou impedir, e o sorriso nos lbios de Ty indicou que ele conhecia seus sentimentos.
   Dixie afastou os olhos do espelho e do reflexo que a inquietava. Abaixou-se para procurar a escova de cabelos no alforje, mas uma busca rpida revelou que o objeto 
havia desaparecido.
   Ty adiantou-se alguns passos e parou diante dela.
   -  isto que est procurando? - perguntou, exibindo a escova.
   Uma mistura de excitao e medo a invadiu. Tensa, estendeu a mo para o objeto, mas ele a surpreendeu mais uma vez apoderando-se de uma mecha de seus cabelos.
   -        Certa noite tive a oportunidade de v-la escovando os cabelos no acampamento - ele confessou. - Naquela noite senti vontade de me aproximar e...
   - Mas no invadiu meu acampamento, e foi melhor assim, porque teria sido recebido pelas balas do meu revlver. - Irritada, arrancou a escova da mo dele e virou-se, 
evitando encar-lo.
   Com o brao so, Ty fez um movimento rpido e agarrou seu pulso.
   - No me faa esperar muito - disse. - Descobri que no sou um homem paciente.
   - Por que est fazendo isto comigo, Kincaid?
   - Agora sou Kincaid? Ajuda a manter a distncia, no ?
   -        Por que...?
   -        No sei! A ltima coisa que queria era uma mulher para complicar ainda mais minha vida.
   -        Ento estamos de acordo em alguma coisa. Tambm no quero voc - Virou-se para encar-lo. - Partirei ao amanhecer. Pode dizer o que quiser aos seus amigos.
   - Vo ficar a namorando enquanto o jantar esfria? - Greg perguntou da cozinha.
   Dixie no sabia se estava grata pela interrupo ou ressentida por no poder levar a discusso at o fim. Ty afastou-se e ela desembaraou os cabelos como pde, 
resignando-se com a necessidade de cortar alguns ns mais difceis. No sabia se Ty Kincaid a levava a srio, e nem podia deixar que a questo assumisse maior importncia. 
Se ele no queria complicaes, ela preferia no se envolver com o sexo oposto. Assunto encerrado.
   Dixie demorou quanto pde. O fato de retardar sua chegada  mesa tinha tudo a ver com fome, mas no de alimentos. Ansiava pelas coisas que abandonara ao abraar 
o projeto de vingana, e que agora encontrava nessa casa repleta de calor humano e amor.
   Dixie sentou-se ao lado de Jlia. Ty ocupava o mesmo banco, mas com todas as crianas entre eles, no tinha de preocupar-se com a possibilidade de ter de toc-lo 
ao receber ou passar um prato de alimento.
   No prestou muita ateno ao que Greg estava dizendo, at perceber que o tom do anfitrio se tornava furioso.
   -        Jessie no me escuta! O casamento com Harry Winslow foi a maior tolice que ela cometeu em toda sua vida. Agora ele a levou para longe e no sabemos o 
que est acontecendo. Eu a preveni quanto ao carter daquele sujeito, mas foi intil. Rancheiro? Ah! O homem no sabe diferenciar o rabo de uma vaca do chifre de 
um touro! Aposto que ele se meteu num desses acampamentos de mineiros e est cavando o cho, tentando encontrar ouro, enquanto minha irm  obrigada a conviver com 
todo o tipo de gente.
   - Greg, no se exalte - Lvia pediu. - Jessie  uma mulher adulta e perfeitamente capaz de cuidar da prpria vida.
   -        Lvia, normalmente respeito sua opinio, mas sei que nunca gostou de Harry. Vamos, conte a Ty sobre aquele sonho que teve na noite anterior ao casamento 
de minha irm!
   -        No se incomode Ty interferiu. - Assim que for possvel, tentarei encontrar Jessie e o marido e mandarei notcias dos dois.
   -        Mame sempre pensou que voc e Jessie pudessem...
   -        Elwin, cale-se.
   -        Mas voc disse, me! Tentou at expulsar Harry naquela vez em que...
   -        Sua me mandou voc ficar quieto, mocinho!
   -        Sim, papai.
   Constrangida com a situao, Dixie tentou pensar numa boa desculpa para partir. Mas ainda estava com fome e cansada, e por isso convenceu-se de que no devia 
dar importncia ao que as pessoas pensavam sobre a vida afetiva de Kincaid, desde que no a inclussem nela.
   -        Esteve em casa no ltimo ano, Ty? - Greg perguntou.
   -        No fui chamado. Meus irmos no precisaram de mim.
   -        Mas sua me deve estar saudosa - Lvia opinou. - Quando Elwin e Gilby foram ajudar os Dancan com a colheita na ltima primavera, passei o ms todo andando 
pela casa como se houvesse perdido alguma coisa. No conseguia deixar de me preocupar, sem saber se estavam se alimentando bem, dormindo na hora certa e cuidando 
um do outro, como haviam prometido fazer. Sua me...
   -        Lvia, ningum faz um ensopado como voc - Ty a interrompeu. - Acho que vou querer mais um pouco.
   -        Est bem, no direi mais nada. Mas pense no que eu j disse.
   Dixie ouvia tudo com ateno, arquivando as dvidas sobre Kincaid. Por que ele vagava pelo mundo, se tinha casa e famlia? Bebeu um gole do caf forte e quente, 
mas nem a bebida energtica conseguiu mant-la acordada. Por duas vezes escondeu os bocejos atrs da mo, at que Greg a surpreendeu.
   - Lvia, prepare uma cama para esta jovem, antes que ela acabe dormindo sobre o prato.
   Era intil protestar. Sabia que corria realmente o risco de adormecer sentada, e por isso achou melhor seguir a dona da casa at o segundo andar, onde Lvia a 
acomodou numa cama de solteiro. Mal conseguiu agradecer e dizer boa-noite antes de pegar no sono.
   
   Mais tarde, quando as crianas subiram para dormir e Lvia foi coloc-las na cama, Ty contou a Greg o que havia acontecido. Mas seus pensamentos permaneciam com 
Dixie e em como ela ficara perturbada ao encontrar seus olhos atravs do espelho. Por um momento, vira refletida em seu rosto a mesma fome que atormentava seu corpo 
e o deixava inquieto.
   Havia uma suavidade nela, algo diferente do que as outras pessoas viam, e queria proteger essa qualidade to feminina e doce. Um sentimento estranho para algum 
que afirmava no desejar a presena de uma mulher em sua vida.
   Mas, queria Dixie Rawlins.
   No fazia sentido. No conseguia entender o que se passava em sua mente. Ou em seu corao?
   - Mais um drinque, Ty? - Greg ofereceu. - Parece um touro prestes a pular a cerca do curral, e garanto que Lvia no vai gostar de encontr-lo na cama de Dixie.
   - Eu no... - tentou protestar. - Ah, ela me faz sentir coisas estranhas, como um menino inexperiente que se depara com a primeira mulher capaz de despertar 
seu desejo.
   - No seu caso, acho que seria mais interessante tentar descobrir por que algum carrega um retrato dela.
   - Tenho pensado muito nisso e em tudo que aconteceu no saloon. E no pouco que ela revelou. Dixie tem trapaceado no jogo de cartas para ganhar o ouro com que compra 
determinadas informaes. Deduzi que ela est caando algum. 0 homem com a cicatriz na mo... Dos trs que invadiram o saloon, ele foi o nico que chamou sua 
ateno.
   - Acha que a foto estava no alforje do sujeito?
   - Talvez. Pode se tratar de uma separao amorosa, de um relacionamento rompido... Sei que a foto era dela. Mais jovem, mais arrumada, menos hostil, mas era Dixie 
Rawlins. E aqueles homens so perigosos. No faz sentido, no ?
   - J pensou que o tal relacionamento pode no ter acabado? Os homens costumam carregar fotos de suas esposas.
   - No. Aposto minha vida como no existe nada entre eles, pelo menos neste momento. Dixie no  casada.
   - Tenho uma idia - Greg sugeriu depois de um bocejo. - Vamos descansar. O nascer de um novo dia sempre renova as esperanas e faz tudo parecer mais claro.  
evidente que sua namorada tem segredos, mas no conseguiremos desvend-los esta noite.
   Sua namorada... Sozinho, Ty olhou para a garrafa de usque que o amigo deixara sobre a mesa, mas desistiu e servir-se de uma nova dose. A bebida no aplacava 
suas necessidades. Pelo contrrio, s as tornava mais intensas.
   Apoiando a cabea sobre o brao so, Ty deitou-se no tapete diante da lareira e ficou olhando para o teto. Segredos. Dixie guardava muitos, e no parecia disposta 
a dividi-los com ningum.
   Mas isso no fazia desaparecer o desejo que sentia por ela. No se envolva.
   Mas era tarde demais para ouvir a voz da razo. J estava envolvido, e sentia-se mais e mais emaranhado a cada minuto.
   Queria os segredos de Dixie. Estava to interessado neles quanto naquele corpo tentador.
   O suspiro profundo sugeria frustrao e revolta.
   A dor no ombro e a sensao incmoda abaixo do ventre no o deixariam dormir.
   Quando ouviu o estalo de uma tbua da escada, teve certeza de que no dormiria to cedo.
   
   
   CAPTULO VI
   
   Ty no surpreendeu-se ao ver Dixie esgueirando-se pela cozinha rumo  porta dos fundos. Esperou at que ela tocasse a maaneta antes de sair de seu esconderijo 
nas sombras.
   - Teve um pesadelo? Ou est com sede?
   Ela se virou assustada.
   - Saindo como um ladro no meio da noite, Dixie? No aprendeu boas maneiras? No sabe que no  correto fugir quando algum a convida a hospedar-se em sua casa?
   Dixie no mentiria. Tambm no queria outro confronto com Kincaid, mas parecia que o destino tinha idias diferentes.
   -        Achei que seria melhor sair sem fazer alarde.
   -        Esse seu hbito de viver fugindo est comeando a me deixar perturbado.
   - Mais uma razo... - Ela perdeu o flego ao sentir as costas pressionadas contra a porta e o corpo dele colado ao seu, mas conseguiu virar a cabea antes do 
beijo. - Como estava dizendo, mais uma razo para eu partir. Sem despedidas, sem promessas e sem alimentar esperanas de um novo encontro. Foi s um dia que passamos 
juntos.
   -        Foi mais que isso, qualquer um pode perceber.
   Para sua surpresa, Ty destrancou a porta e empurrou-a para fora. Tremendo ao sentir o ar frio da noite, esperou que ele a seguisse e fechasse a porta. Era intil 
tentar fugir. Tinha a sensao de que, ferido ou no, Kincaid a perseguiria at obter as respostas que buscava.
   -        Est muito frio para ficarmos conversando aqui fora.  melhor irmos at o estbulo.
   Munido da lamparina que ficava na varanda, iluminou o caminho at o galpo atrs da casa. Ignorando os movimentos agitados dos animais, seguiram para uma baia 
vazia.
   -        Aqui h palha limpa. Por que no se acomoda? Ns dois sabemos que no vai a lugar algum esta noite - e pendurou a lamparina acesa num gancho da porta 
da baia. Amontoando a palha junto da parede, acomodou-se e bateu no lugar vazio a seu lado. - Chegue mais perto. J provou que  capaz de resistir s minhas investidas.
   Erguendo o queixo em resposta ao desafio, examinou a camisa e a cala do pijama que ele tomara emprestado de um dos homens da famlia. Quem quer que fosse o legtimo 
proprietrio da roupa, certamente era menor que Kincaid, porque o tecido delineava seus msculos com preciso assustadora.
   Ty riu e apoiou a cabea no brao saudvel.
   Jogando os alforjes no cho, Dixie recusou-se a reconhecer o significado daquele olhar, mas o corpo respondia com um misto de excitao e medo ao fato de ele 
estar excitado e no fazer nada para esconder o desejo.
   Preferiu sentar longe dele, e irritou-se ao v-lo sorrir como se soubesse o motivo da escolha. Tudo que pde fazer foi fit-lo como fizera com tantos outros homens 
em momentos difceis, quando tivera de mant-los afastados.
   Mas Kincaid no era como os outros homens. Como lidaria com ele?
   Ty ficou srio ao notar a palidez que cobria o rosto de Dixie e as manchas escuras em torno de seus olhos. Se a pressionasse nesse momento, teria todas as respostas 
que procurava. Mas tambm conquistaria o dio e o desprezo dessa mulher.
   -        No confia nas pessoas, no ?
   -        No. - Ento era isso que esperava dela? Confiana?
   -        Enfrentamos muitas coisas juntos em pouco tempo.
   - Sei que preferia me dar as costas e desaparecer, mas a vida nem sempre corresponde aos nossos desejos. Estamos presos um ao outro.
   - Por qu? Voc est hospedado na casa de amigos. Podemos nos despedir agora e eu seguirei meu caminho. Irei cuidar dos meus problemas.
   - Roubar cavalos  um problema nosso. Fomos alvos de tiros disparados com a inteno de nos matar, e no costumo perdoar quem me ataca. Na verdade, deve saber 
que normalmente revido o ataque.
   - Se disser o que quer saber, me deixar partir em paz?
   -        Est propondo um acordo?
   - Mais ou menos. - Abaixou a cabea, deixando escapar um suspiro cansado. -  um homem de fibra, Kincaid. Confesso que no sei o que fazer com voc. Salvou minha 
vida duas vezes, e no posso oferecer mais que minha gratido. No entendo por que acha que preciso de sua companhia. No preciso de ningum.
   -        Continue repetindo, e talvez um dia acredite nisso.
   -        O que quer de mim? Por que me ajudou a escapar daquele maldito saloon?
   -        Porque percebi que todas as chances estavam contra voc.
   -        Eu estava trapaceando, Kincaid.
   -        Eu sei. Notei que fez o mesmo comigo uma ou duas vezes. S quero saber por que precisa do ouro.
   - J deve saber que compro informaes com o que ganho nas mesas de jogo. Notcias sobre um homem com uma cicatriz em uma das mos. Tem razo quando diz que no 
confio em ningum. Desde a morte de meu pai, no houve mais ningum em quem pudesse depositar minha confiana. Nenhum dos nossos bons vizinhos quis envolver-se. 
O melhor conselho que me ofereceram foi procurar um homem com quem pudesse me casar e esquecer o que havia acontecido. Mas no consegui esquecer. No queria esquecer. 
E perdi tudo, terra, gado, dinheiro, s porque sou uma mulher que decidiu lutar sozinha.
   -        Uma mulher muito cansada - Ty observou, contendo o mpeto de torn-la nos braos, lutando contra o instinto que o prevenia contra os perigos de envolver-se 
com ela. Cansada e esgotada.
   No tentaria convenc-lo do contrrio. Estava mesmo cansada, e sabia que no teria foras para sustentar uma discusso.
   -        Como conheceu Greg?
   Percebendo que ela precisava distra-lo, Ty decidiu ceder pelo menos dessa vez.
   -        Greg comprou cabeas de gado de nossa propriedade e eu me ofereci para ajud-lo a trazer os animais. Ele retribuiu me convidando para trabalhar no rancho. 
No tinha motivo algum para voltar para casa, e por isso passei o inverno e a primavera com ele e Lvia.
   -        Por isso ele disse que tem uma dvida muito grande com voc? - No era bem isso que queria perguntar. Estava curiosa para saber por que ele trocara a 
segurana e o aconchego do lar pela vida de correria e riscos dos acampamentos e campos abertos. Mas Ty j havia demonstrado que preferia no falar sobre esse assunto.
   -         uma longa histria... que faz parte do passado. No se pode mudar a maneira de pensar de uma pessoa. Greg acredita que est em dvida comigo. Eu penso 
de outra forma. Assunto encerrado.
   -        E Jessie, a irm dele? Tambm morava aqui?
   -        Maldio! Voc  pior que um xerife interrogando um criminoso!
   Dixie permaneceu em silncio, os olhos fixos no rosto dele.
   Resignado, Kincaid respirou fundo antes de contar:
   -        Jessie chegou na primavera, logo depois da morte da tia. E antes que pergunte, nunca tive a menor inteno de envolver-me com ela. Ainda no conheci 
uma mulher com quem quisesse passar mais de uma noite.
   -        Ento, por que no me deixa ir embora?
   -        J disse que no sei. Talvez esteja curioso. Alm disso, voc me incendeia como brasa sobre a palha seca, e quero aplacar esse fogo.
   - Mentiroso.
   - Admito que contei muitas mentiras ao longo dos ltimos anos, mas agora estou dizendo a verdade. J respondi a todas as suas perguntas. Agora  sua vez. E antes 
que se recuse a falar, deixe-me dizer que posso unir as peas do quebra-cabea, se quiser. Posso refletir sobre o que sei        e descobrir o que no sei. Quem 
queria expulsar seu pai da terra? Que tipo de problema ele criou para no merecer a ajuda dos vizinhos? A verdade, Dixie,  que posso descobrir de onde veio e desvendar 
todo o mistrio sobre seu passado.
   Com um suspiro cansado que ela nem tentou esconder, Dixie uniu as mos sobre as pernas e encarou-o. Mais uma vez ele pedia sua confiana.
   -        Eu o deixei escapar - disse.
   -        Quem?
   -        O homem que matou meu pai. Ele era um dos trs que invadiram o saloon. Tive a cabea dele na mira da minha pistola, mas... mas... - Ela parou e encolheu 
os ombros. - Perdi a chance e agora no posso voltar trs:
   De repente parecia derrotada, e Ty no suportou ver a expresso desolada em seu rosto. Levantando-se de um salto, abaixou-se ao lado dela e segurou seu queixo.
   -        Dixie?
   Gostaria de matar o responsvel por aquele olhar perdido e triste.
   Ouvir seu nome nos lbios dele, sentir o calor da mo em seu rosto e experimentar a poderosa sensao de intimidade proporcionada pelo espao reduzido que ocupavam 
foi como fugir da realidade, abandonar um mundo de amarguras por outro, cheio de venturas e fantasias. O toque era gentil, e depois de alguns segundos percebeu 
que precisava dessa gentileza.
   A perna mscula roou a dela. Ty sentiu uma onda de desejo to intensa que teve medo de perder o controle. Quando a encarou, teve certeza de que havia mais que 
uma simples necessidade de sexo entre eles. O que sentia era to poderoso, to sbito e envolvente, que estava confuso. E no tentaria esconder as emoes de Dixie, 
porque sabia que seria intil. Elas deviam estar estampadas em seus olhos.
   Tomado por uma urgncia crescente, inclinou-se para beij-la e parou milmetros antes dos lbios encontrarem-se.
   - Sei que vai dizer que devo parar. Depois dir que no devia t-la beijado, que no queria o beijo, mas vou beij-la assim mesmo, porque no consegui pensar 
em outra coisa durante todo o dia.
   Sacudida por um tremor, Dixie descobriu-se inclinando o corpo na direo dele, ansiando pelo contato dos lbios to prximos dos dela. Fechando os olhos, tentou 
convencer-se de que podia controlar e at esconder a paixo que a queimava.
   Nenhum homem jamais a desejara com tanto ardor. Podia sentir o tremor que sacudia o corpo de Kincaid e se transferia para o seu. Sabia que havia sido seduzida 
pela voz rouca e profunda, mas fechar os olhos no a ajudou a negar o tormento de querer aquele beijo.
   Era doloroso estar to perto do corpo dele sem poder toc-lo, e o corao acelerado a alertava contra os perigos de to terrvel privao. Ty Kincaid era perigoso. 
Se podia enlouquec-la apenas com a ameaa de um beijo, o que faria com seu bom senso quando finalmente a beijasse?
   Um movimento, uma palavra... Era tudo de que precisavam para vencer esse momento de antecipao e superar o umbral do perigo.
   Mas Dixie no tinha flego para falar. Os dedos de Kincaid acariciavam seus cabelos, e quando tocaram sua nuca ela no pde conter um novo tremor.
   - Doce - ele murmurou, tocando seu lbio inferior co a ponta da lngua. 
   - Doce Dixie.
   - Oh... Por favor... - murmurou, sem saber o que pedi com tanta angstia.
   -        Tem idia de como a desejo?
   -        Sim...
   A resposta foi suficiente para que as bocas finalmente se unissem num beijo ardente. Como palha seca tocada por um fsforo aceso, explodiram consumidos por um 
desejo to intenso que chegava a ser assustador.
   O aroma do feno sobre seus corpos era como o da grama num dia quente e ensolarado de vero. Dixie sentiu que Ty encaixava uma das pernas entre as suas e no tentou 
det-lo. Pelo contrrio, passou um brao em torno do pescoo musculoso e puxou-o para mais perto numa oferta silenciosa.
   Tremia nos braos de Kincaid, recusando-se a ouvir a voz da razo mandando-a parar enquanto era tempo. No queria pensar no que estava fazendo. Estava farta de 
pensar e estar sozinha. Queria os sentimentos que ele despertava e o sabor das novas emoes.
   Havia uma estranha alegria em estar com Ty, uma alegria que julgara perdida. Ou roubada. Era o entusiasmo de ser mulher e capaz de desejar um homem. Cada momento 
que passava com ele tornava mais difusa a lembrana da respirao ofegante e das mos calejadas do sujeito que havia tentado roubar o que s ela poderia oferecer.
   Abraados, mudaram de posio e de repente ela se descobriu cavalgando a perna dele. Excitado, Ty interrompeu o beijo para deslizar os lbios por seu rosto, 
deixando uma trilha de fogo e prazer que ela jamais imaginara poder conhecer.
   Segredos. Dixie tinha muito mais do que revelara, mais do que ele havia descoberto. Segredos quentes. midos e excitantes. E no a soltaria enquanto no desvendasse 
cada um deles.
   Ela moveu-se sobre sua perna, intensificando o desejo e a urgncia. Queria conhecer essa natureza selvagem que imaginava escondida sob a aparncia fria e contida 
de Dixie Rawlins. Apoiando as costas contra a parede, Ty elevou a perna e pressionou-a de maneira ntima, sorrindo satisfeito ao ouvir o gemido de prazer que ela 
deixou escapar. Ousado, agarrou-a pelos quadris e ajeitou-a sobre o prprio corpo, incentivando-a a acompanhar seus movimentos provocantes e sugestivos.
   Ela jogou a cabea para trs e deixou-se dominar pela paixo, oferecendo o pescoo e o colo s carcias ansiosas dos lbios de Ty. De repente o desejo que ela 
tentava manter sob controle assumiu o comando sobre a razo, impelindo-a a seguir em frente. Mas o medo foi mais forte e ela gritou;
   -        No!
   Era como acordar no meio de um sonho maravilhoso e doce. Ofegante, Kincaid a encarava com olhos arregalados e brilhantes, o corpo todo tomado pela paixo que 
os guiara at segundos antes. Queria entregar-se! Queria acarici-lo como ele a acariciara e faz-lo sentir um prazer que jamais conhecera, mas era incapaz de prosseguir. 
O medo era seu amo, e nesse momento nenhuma outra sensao poderia super-lo.
   -        Por que no? - Kincaid sussurrou, tentando conter a mistura de desejo e frustrao que resultavam numa ira surda e ameaadora.
   O tom de voz foi como uma bofetada. Perturbada, fitou nos olhos e compreendeu imediatamente que acabara cometer um grande engano. No percebeu que estava chorando 
at ouvi-lo falar:
   -        Lgrimas? Agora? O que foi que eu fiz? Fale de uma vez! - ele exigiu, sacudindo-a como se estivesse prestes a perder o controle.
   -        Eu nunca a enganei. Sempre deixei bem claro quanto a queria...
   -        Solte-me, Ty. Por favor, solte-me.
   Suave. A voz dela era to mansa que o pegou de surpresa Mas, em vez de convenc-lo a atender o pedido, o tom doce s confirmou sua resoluo.
   -        No vou solt-la enquanto no disser o que aconteceu Estava mais quente que...
   -        Pare com isso! Parei agora porque... no pude det-lo antes. No pude deter-me. Na verdade... nem quis tentar. Est satisfeito?
   As palavras eram meros sussurros, e Ty teve de inclinar-se para ouvi-las. Ao contrrio de estar satisfeito, sentia uma imperiosa necessidade de puni-la por t-lo 
deixado excitado e frustrado.
   - Por que diabos no me empurrou logo que a beijei? Vamos, Dixie, fale! Qual  o nome do jogo?
   - Pare de me torturar, por favor. Estou exausta. Dormi pouco mais de uma hora antes de ser despertada por um terrvel pesadelo. S queria ir embora daqui, partir 
para bem longe de voc, mas no consegui escapar. Voc no permitiu. Insistiu em obter suas malditas respostas, e por isso chegamos a este ponto. Mas agora chega! 
Ouviu bem? Chega! - Tentou empurr-lo.
   - Dixie, no sou seu inimigo! - Ao desejo misturava-se a necessidade de confort-la e proteg-la, at de si mesmo. Os sentimentos confusos o fizeram solt-la, 
e foi terrvel v-la rastejando para se afastar mais depressa, como se o temesse.
   Os cabelos longos e espessos escondiam parte do rosto delicado, mas podia ver o brilho das lgrimas e notou que ela nem tentava ret-las. Ergueu a mo, mas ela 
se encolheu como um animal acuado e Ty desistiu de toc-la.
   De cabea baixa, os olhos perdidos na palha sobre a qual estavam sentados, notou que mantinha os punhos cerrados numa tentativa desesperada de controlar-se. Era 
intil.
   - Eu no menti sobre o desejo que sinto por voc, Dixie! - explodiu. - Mas decidi segui-la porque achei que estava precisando de conforto. No  natural uma mulher 
viver sozinha, perseguindo homens perigosos e enfrentando mineiros em mesas de jogo.
   -  verdade - ela respondeu, surpreendendo-o com sua honestidade. - Admito que precisava de conforto, e por isso deixei as coisas irem to longe. Estou sozinha 
h muito tempo, Ty, e voc acertou quando afirmou que eu estava esgotada. No tive a inteno de us-lo.
   - Usar-me?  assim que descreve o que acabou de acontecer entre ns? - A raiva voltava a ferver em seu peito. - Conheo palavras bem mais adequadas para me referir 
ao que sentimos quando...
   - No! - ela o interrompeu. - Por favor, no diga mais nada. - Encolheu-se num canto da baia, abraando os joelhos para resistir a dor que a tomava de assalto.
   Vivera sozinha durante muito tempo num mundo dominado pelos homens. Mas, alm da dor, tambm sentia raiva e medo quando olhava para Ty Kincaid. Ele era capaz 
faz-la sentir, de lev-la a lembrar que um dia fora uma mulher com a cabea cheia de sonhos.
   Perdera muitos deles ao longo dos ltimos meses. O sonho de um dia encontrar o amor, por exemplo. Queria um marido, uma famlia e a segurana de poder apoiar 
a cabea no travesseiro sabendo onde acordaria na manh seguinte. Queria nutrir os filhos e a terra, e precisava de um home a quem pudesse amar, um homem forte o 
bastante para permanecer a seu lado em quaisquer circunstncias.
   Sonhos. Sonhos vazios, inteis e impossveis...
   Coisas sobre as quais no podia e nem devia falar com Ty.
   Revelar uma fraqueza a quem quer que fosse podia representar seu fracasso. A nica maneira de sobreviver e fazer o que considerava necessrio era negar tudo 
que ui dia fora importante, pelo menos at realizar sua vingana.
   -        No sei mais o que fazer com voc - Kincaid resmungou -, mas de uma coisa tenho certeza: no vou deix-la sair cavalgando sozinha por a com aqueles 
homens atrs de ns.
   -        Essa luta no  sua. Lembra-se? Sem complicaes. Sua insistncia est me causando grandes problemas. Na posso e nem quero lidar com voc.
   Se no houvesse escutado o ligeiro tremor na voz dela, Ty teria acreditado nas palavras duras. Teria ido embora e deixado Dixie Rawlins seguir seu caminho de 
amarguras e rancor. Mas nesse momento ela o encarou e foi como se o mundo parasse. De repente entendia que ela o empurrava cada vez que conseguia aproximar-se. No 
fisicamente, mas no campo minado de suas emoes. Em vez de desencoraj-lo, a resistncia s o intrigava ainda mais.
   E como se no bastasse tinha a sensao ridcula de que ela tentava proteg-lo.
   Era hilrio! Ser protegido por uma mulher exausta e fraca como um bezerro recm-nascido!
   Mas s precisava fit-la nos olhos para ver aquela luz profunda e intensa de um temperamento forte, resoluto, e saber que havia mais fora em seu corao do que 
nos braos de muitos homens que conhecia. Agora ela estava vulnervel, mas ao amanhecer seria difcil enfrent-la.
   - E seu eu no for capaz de desistir de voc, Dixie? O que faremos?
   
   
   CAPTULO VII
   
   Cansao e desespero a levaram a fechar os olhos. No via o rosto de Ty, mas a pergunta ecoava em sua mente. Adoraria aceitar a ajuda desse homem destemido e forte, 
mas algo a impedia de dar o primeiro passo.
   -        No precisa responder - ele suspirou. - Aqueles homens so assassinos, e no pode sair por a procurando por eles sozinha. Fim da discusso. Nem mais 
uma palavra sobre o assunto. No poderia ser chamado de homem se deixasse partir.
   - Eu nunca pedi...
   -        Sei que no pediu nada. Mas podia ter pedido.
   -        Nunca!
   Kincaid levantou-se devagar e encolheu-se ao fazer um movimento um pouco mais brusco com o brao ferido.
   - V dormir, Dixie. E intil incomodarmos meus amigos por causa de algumas poucas horas.  o que resta da noite. Por enquanto estamos de acordo.
   - No fizemos nenhum acordo. Isso j foi longe demais. No existe nenhum ns! No sei como enfiar na sua cabea que no quero me associar a voc, Kincaid! Droga!
   -        Que vocabulrio horrvel! Uma dama no devia usar certas palavras.
   -        Aonde vai? - ela perguntou, vendo-o retirar a lamparina do gancho.
   -        J est com saudade?
   -        V para o inferno!
   -        No. Vou ao galpo de ferramentas apanhar alguns cobertores. Dormiremos aqui no estbulo.
   -        No vou dormir com voc.
   -        J dormiu, e muito mais perto do que eu esperava.
   As sombras esconderam o rosto vermelho. Dixie nem se deu ao trabalho de responder. A baia era grande o bastante para esticarem os corpos sem se tocarem, e ao 
amanhecer lidaria com o arrogante e teimoso Ty Kincaid.
   Logo depois ele voltou, jogando dois espessos cobertores de l na direo dela e estendendo um terceiro no cho.
   Quando viu que Kincaid preparava-se para apagar a lamparina, Dixie protestou.
   -        No posso deix-la acesa.  perigoso. Quer provocar um incndio?
   Resignada, apoiou a cabea nas mos e tentou ignorar o efeito provocado pelo corpo prximo ao seu. Amaldioou a sorte que a levou a encontr-lo, e no instante 
seguinte riu de si mesma. No teria sobrevivido quela noite sem a ajuda desse homem. Mas isso no significava que ele fosse seu dono. Inquieta, pensou em como resolver 
o problema com Kincaid at que, exausta, a mente entregou-se ao sono sem encontrar uma soluo.
   Ty soube o minuto exato em que a agitao foi vencida pelo cansao. Por alguns momentos invejou-a, temendo a armadilha que o destino colocara em seu caminho. 
No poderia deix-la sozinha e continuar merecendo o ttulo de homem. Ela teria de aceitar os fatos, porque no tinha escolha. Mas no atrevia-se a fazer apostas 
quanto ao desfecho da situao. No era nenhum tolo.
   
   Dixie sonhava. S podia estar sonhando com aquela voz macia e suave que sussurrava em seu ouvido anunciando o caf. Que sonho adorvel... Algum servindo seu 
caf na cama! Suspirando, encolheu-se sob o cobertor. Queria continuar dormindo, e o corpo dolorido merecia mais algumas horas de descanso, por isso recusou-se 
a abrir os olhos.
   
   Vendo o sorriso satisfeito que distendia seus lbios, Ty teve de conter-se para no despert-la como gostaria. Se tentasse roubar aquele sorriso com um beijo, 
ela certamente acordaria pronta para agredi-lo, e no queria brigar com Dixie.
   
   Sara muito cedo para uma cavalgada de reconhecimento e voltara certo de ter coberto todas as pistas, e no havia nem sinal de seus perseguidores. Precisava de 
tempo para desvendar todos os segredos de Dixie, e o ombro ainda suplicava por um ou dois dias de repouso e boa alimentao. Lvia oferecera-se para lavar suas 
roupas, e sabia que Dixie adoraria usar peas limpas depois de tomar um banho de verdade. No foi por generosidade ou companheirismo que decidiu incluir as roupas 
dela na trouxa. Sabia que os bens materiais tinham grande valor para essa mulher, e ela no fugiria sem levar o pouco que tinha para vestir.
   Chamou-a novamente sem nenhum resultado, e ento decidiu usar uma ttica infalvel. Preparou o caf e aproximou a xcara fumegante de seu rosto.
   Dixie suspirou ao sentir o aroma marcante do caf fresco. Um cheiro to pungente que s podia ser proveniente de gros modos na hora. H semanas no tomava caf. 
O estmago reagiu com um rudo inconveniente e o crebro enviou mensagens para despertar o corpo. Logo as mensagens se transformaram numa exigncia para que provasse 
a to sonhada delcia.
   Dixie precisou de mais alguns segundos para compreender que no havia sonhado com o aroma de caf.
   Ainda atordoada depois de uma noite conturbada e de poucas horas de sono, mal conseguia abrir os olhos. As plpebras pesavam uma tonelada cada. Como estava deitada 
de lado e encolhida sob o cobertor, a primeira coisa que viu quando finalmente superou o desafio foi um par de joelhos.
   As pernas cruzadas  maneira indgena estavam to pr ximas que quase tocavam seu nariz. Aqueles joelhos tambm haviam feito parte de um ou dois sonhos, cujo 
contedo era ntido demais para sentir-se confortvel.
   Mas a maior tentao no eram as pernas de Kincaid, e sim a xcara que ele segurava entre as mos fortes e bem-feitas.
   -        Kincaid... - Devagar, fitou-o e no pde conter um gemido ao ver o sorriso sedutor que distendia seus lbios. Mais um gemido escapou de sua garganta 
quando tentou mudar de posio e sentiu o corpo dolorido. Deitada de costas, descobriu que fechar os olhos no era suficiente para livrar-se da imagem do rosto sorridente, 
e ento ela usou um brao como uma espcie de escudo sobre os olhos. 
   - V embora, Kincaid.
   - Isso  jeito de cumprimentar um homem que enfrentou todos os perigos para servir seu caf? Hora de acordar, Bela Adormecida. J passa das dez. Tenho aqui uma 
deliciosa xcara de caf forte e quente. Eu mesmo o preparei.
   -        Sua arrogncia me espanta!
   - Ah, sofre de mau humor matinal! Vou me lembrar disso.
   -        No se incomode. No vai estar por perto quando eu acordar novamente. E - complementou, tentando resistir ao aroma que fazia seu estmago roncar - no 
sou mal-humorada.        
   -        Como quiser.
   Por que estava sendo to cordato? Dixie no confiava nele. Erguendo o brao, espiou-o com um olho. Ty tinha os cabelos molhados e havia feito a barba. Um detalhe 
tolo para se notar... Os plos do rosto desapareceram, mas ele ainda parecia to perigoso quando naquela noite em que o vira no saloon. A mo que era mantida sob 
o cobertor moveu-se at tocar todas as regies de seu rosto, como se precisasse certificar-se de que os beijos da noite anterior no haviam deixado marcas.
   -        Levante-se, Dixie.
   Sentiu a presso de um biscoito macio e morno contra os lbios. Agora que os olhos haviam se habituado  luz brilhante que penetrava no estbulo, removeu o brao 
com que se protegia e mordeu o alimento oferecido.
   -        Usei ovos frescos na massa - ele revelou sorridente.
   Dixie ainda demorou alguns instantes para sentar-se.'
   -        Daqui a pouco vai dizer que foi ao galinheiro pa recolher os ovos pessoalmente.
   -        O que h de to espantoso nisso? Posso ser prestativ generoso, delicado, companheiro...
   -        Poupe-me! - Ela pegou a xcara de caf e bebeu vrios goles. Quando estendeu a mo para o biscoito, Ty recusou-se a entreg-lo.
   -        Quero aliment-la.
   -        No, obrigada.
   -        Por que no pode aceitar ajuda? - ele se irritou. -Admitir que precisa de auxlio no quer dizer que ter de depender de algum.
   -        J disse que no!
   - Est bem, pegue o biscoito! - Entregou-o. - Coma. Vai precisar de muita energia para enfrentar as prximas horas.
   Ignorando-o, ela devorou o biscoito e lambeu os dedos antes de esvaziar a xcara de caf.
   -        Estava delicioso. Obrigada, Ty. - Afastou o cobertor e levantou-se antes dele. - Tinha razo sobre ser muito tarde. Vou selar meu cavalo e despedir-me...
   Kincaid a seguiu e segurou-a pelo brao. Assustada, ela deixou cair a xcara sobre a palha seca e encostou-se na parede na baia.
   -        No ouviu o que eu disse ontem  noite? No vai a lugar nenhum. Acha que pode caar um homem que no deseja ser encontrado? Pensa ter coragem suficiente 
para sacar quando estiver diante dele e atirar  queima-roupa? Pense bem, Dixie. Voc  uma mulher...
   -        Pare de gritar comigo! No h mais ningum para fazer o que deve ser feito. Devo essa reparao  memria' de meu pai e a mim mesma. O sujeito no pode 
continuar impune. A lei no existe nesta parte do mundo, e no ficarei em paz enquanto ele no tiver pago pelo que fez. - Respirando fundo, levou a mo ao coldre 
mas no encontrou o que procurava. - Afaste-se, Kincaid!
   - Dixie...
   - Seu verme sujo, desonesto e traidor. Voc rasteja! Sentiu-se mais confiante ao ver que ele retrocedia alguns passos. - Devolva minha arma! - Ty s podia ter 
tirado o revlver enquanto ela dormia. - Seu ladro descarado, sujo e mentiroso! Quem pensa que  para me dar ordens?
   - Sou o homem que vai ficar bem longe desse cinturo na sua mo.
   No havia nem notado que tirara o cinturo de couro onde costumava prender a cartucheira, mas o comentrio a fez pensar em us-lo.
   - Roubou minha arma enquanto eu dormia! Vou ensin-lo a jogar limpo, seu... seu...
   - No abuse da minha pacincia, Dixie!
   - Volte aqui! - Ela o seguiu, mas Ty conseguiu esquivar-se de todos os golpes da tira de couro. - Seu bastardo! Planejou tudo isso para manter-me presa aqui. 
S Deus sabe por qu! - Brandiu o cinturo mais uma vez, furiosa por no conseguir atingi-lo. - Fique quieto, maldio! Pare de andar de um lado para o outro!
   Estava parada no meio do estbulo, ofegante e descontrolada. Kincaid ria.
   Dixie conteve-se enquanto foi possvel. Ele parecia ridculo fingindo-se apavorado, encolhendo-se contra a parede como se temesse a ameaa que ela representava, 
e de repente descobriu-se rindo, ecoando as gargalhadas de Ty. Quanto mais ele se encolhia, mais ela gargalhava. Os soluos foram inevitveis. Kincaid j estava 
se movendo quando o terceiro escapou.
   - Veja s... hic... o que voc... hic... fez... hic...
   - Conheo a cura. S precisa prender o flego. Vou ajud-la. E antes que pudesse sequer perceber sua inteno ele a estava beijando.
   Podia t-lo empurrado. Chegou a pensar em faz-lo. Mas o beijo foi breve demais para curar o ataque de soluos e Prolongado demais para o bem de sua sanidade 
mental.
   Queria repetir a experincia sensual da noite anterior, m no instante seguinte Ty j estava longe, levando a xcara que ela usara para tomar caf.
   -        Lvia est lavando nossa roupa. Ela deixou a banhei pronta, caso queira tomar um banho.
   -        Ty? - Ele continuava andando. Um soluo dolorido escapou de seu peito mas Dixie seguiu em frente, e feliz. mente conseguiu alcan-lo antes de entrarem 
na casa d rancho. Agarrando-o pelo brao, obrigou-o a parar.
   -        Estava falando srio no estbulo. Tenho de ir atra dele, e voc precisa entender e aceitar minha deciso. Fiz um juramento no momento para mim mesma, 
no dia e que enterrei meu pai, e no posso deixar de cumpri-lo.
   Havia uma splica nos olhos dela que Kincaid gostaria de ignorar, mas no podia. Dixie no estava pedindo sua ajuda. Devia sentir-se satisfeito com isso. Mas 
ainda havia outra ameaa, uma armadilha na qual preferia nem pensar. Aquela em que havia jurado jamais cair. Sua habilidade com as armas vinha da necessidade de 
sobreviver. Nunca a emprestara ou vendera para matar inimigos alheios. No podia deixar de cumprir as regras que impusera a si mesmo. E enquanto pensava nisso, Dixie 
afastou-se.
   E dessa vez no tentou ret-la.
   Lvia desviou os olhos das roupas quando a viu aproximar-se.
   -        Terminou a discusso com Ty?
   -        O homem ...
   -        Mais do que muitas mulheres podem suportar - ela concluiu, abandonando uma camisa na tina com gua e enxugando as mos no avental. - Ele a deixou comer, 
pelo menos?
   -        Sim, e peo desculpas por meu comportamento grosseiro. Devia estar agradecendo pela hospitalidade. Muito obrigada, Lvia.
   - Ainda restaram alguns biscoitos, se estiver com fome. E muito caf, tambm. No sei se Ty avisou-a, mas preparei a banheira ao lado da minha cama para que possa 
ter alguma privacidade. A gua j est quente sobre o fogo.
   Dixie estava  beira das lgrimas. O que estava acontecendo com ela? Por que no conseguia deparar-se com gestos de bondade e generosidade sem chorar? Dixie 
desviou os olhos por um momento, sentindo o sol como um cobertor sobre a quietude da manh. Havia paz nesse lugar, e podia senti-la penetrando em seu corao. Um 
dia, prometeu a si mesma, tambm terei um lugar para chamar de meu.
   - Lvia... - Um movimento perto do curral chamou sua ateno. Ty havia montado e cavalgava sem olhar para trs. 0 primeiro sentimento que a invadiu foi de perda, 
mas, sem ele por perto, poderia realizar seu plano de fuga. -Sinto muito, Lvia. Foi muito boa e generosa, e no sei como expressar minha gratido pela hospitalidade 
de sua famlia. No tenho desfrutado da companhia de outras mulheres h muito tempo e... - Parou, sem saber como perguntar por sua arma. - Bem, o fato  que...
   -        Por que no fala de uma vez, em vez de ficar dando voltas inteis?
   -        Ty roubou meu revlver. Tenho de partir agora, enquanto ele no est por perto. No posso explicar tudo, mas acho que  suficiente dizer que preciso 
ir embora sozinha.
   -        Oh, gostaria de poder ajud-la, mas nem sabia que ele havia pego sua arma. E se fugir... Bem, tenho certeza de que ele ir busc-la.
   Dixie fechou os olhos e balanou a cabea.
   -        Gostaria de poder dizer que est enganada, mas sei que tem razo. Minhas maneiras podem ser rudes, mas posso ajud-la com as tarefas da casa. Afinal... 
- Parou de repente, correndo de volta ao estbulo sem dar importncia s perguntas confusas de Lvia.
   Ao entrar na baia onde havia passado a noite, caiu de joelhos sobre a palha e afastou-a com mos ansiosas, procurando pelos alforjes. Nada! Ajoelhada, cerrou 
os punhos e respirou fundo. Podia comprar outra arma.
   Seria difcil, mas no impossvel. Mas com os alforjes, o ouro tambm se fora.
   A fria crescia como uma bola de neve em seu peito e Dixie tentava cont-la. Era intil deixar a emoo interferir no raciocnio, to necessrio nesse momento. 
Sabia que Ty fora movido pela inteno de proteg-la, embora no hou_ vesse pedido sua proteo.
   Quando Lvia a chamou da porta, ela se levantou e limpou a palha da roupa.
   -        O que aconteceu? Saiu correndo como...
   -        Ty Kincaid roubou minha arma e todo o ouro que eu possua. - Caminhando de cabea baixa, Dixie saiu do estbulo chutando as pedras que encontrava pelo 
caminho. - Desculpe se a assustei. Deve julgar minhas maneiras horrveis, no ?
   - Pare de depreciar-se - Livia a censurou. - J olhou em volta. Estamos num rancho, no num palcio. E Ty  um velho amigo da famlia. No precisa pedir desculpas 
por tudo que faz.
   - Acha que tambm no devo levar a srio o roubo praticado por Kincaid?
   Lvia comeou a caminhar, mas pensou melhor e virou-se para encar-la.
   -        s vezes ele usa mtodos questionveis, mas duvido que exista melhor amigo no mundo.
   -         este o ponto. Nunca quis ser amiga dele. Sabendo que era intil repreend-la por algo que no fizera, Dixie a seguiu em silncio.
   - De qualquer maneira - Lvia comentou -, no posso dizer que sua presena nesta casa me desagrada. No gozo da companhia de uma mulher desde que Jessie nos deixou, 
h quase dois anos. Amo nosso lar e minha famlia, mas a solido me incomoda. H algo nessa terra que entra no sangue das pessoas e as prende aqui. - Hesitante, 
olhou para Dixie em busca de respostas para suas dvidas. - Pode me mandar calar a boca, se quiser, mas acho que deve perdoar Ty. Ele nunca fez nada que pudesse 
prejudicar outro ser humano. Sei tudo sobre sua reputao, mas a verdade  que ele jamais matou algum sem que houvesse um bom motivo para isso.
   Resistindo a tentao de ceder  curiosidade, Dixie engoliu todas as perguntas que gostaria de fazer sobre Ty Kincaid. Quanto menos soubesse a respeito dele, 
mais fcil seria o momento da separao. Tinha um juramento a cumprir, e Ty j havia se mostrado disposto a colocar-se em seu caminho.
   Sabia que essa era a deciso mais acertada a tomar, e a mais fcil, tambm, e no entendia a sensao de perda que a incomodava, como se estivesse perdendo uma 
tima chance de saber mais sobre Kincaid.
   Dixie olhou para as peas penduradas no varal. A brisa fazia oscilar as calas de tamanhos variados. O cu era de um azul intenso, e nuvens brancas e fofas lembravam 
a l macia de um carneiro. Protegendo os olhos com a mo, levantou a cabea e viu o que parecia ser uma guia no formato de uma nuvem que logo modificou-se. Era 
um jogo infantil do qual nunca se cansava.
   Baixando a cabea, olhou novamente para o varal e percebeu que essa era mais uma coisa da qual havia sido privada. Do pequeno vestido de Jlia s camisas masculinas 
de tamanhos variados, via a vida de uma famlia estendida diante de seus olhos. O vazio que doeu em seu peito a fez virar-se.
   -        O trabalho de manter minha famlia limpa  monumental, mas sinto prazer por poder cuidar deles. 
   - No imagina como a invejo.
   Havia tanta dor nas palavras que Lvia no pde conter-se e segurou as mos dela.
   -        Sei que tem suas razes para estar sozinha. No vou fazer perguntas. Mas quero que saiba que encontrou amigos nesta casa. Se houver alguma coisa que 
eu possa fazer para ajud-la, no hesite em pedir.
   - Voc  uma boa mulher, Lvia.
   Dixie retribuiu o afago amistoso e desviou os olhos dos dela. As emoes cresciam rapidamente, ameaando trans bordar em forma de lgrimas.
   - Entre. Ningum a incomodar enquanto estiver no banho. Greg levou as crianas menores com ele, e os garotos esto conduzindo os cavalos para o vale, onde o 
pasto  mais abundante. Meu marido  capaz de compreender que as mulheres precisam de um dia de solido de vez em quando.
   A generosidade e a oferta de amizade s intensificaram o sentimento de perda que a torturava. No podia negar o forte apelo de um banho quente e prolongado. Na 
verdade a oportunidade de lavar-se sem correr o risco de ser surpreendida era quase um presente dos cus. No momento no havia nada que pudesse fazer quanto  atitude 
condenvel de Ty.
   Havia dado alguns passos na direo da porta da cozinha quando pensou numa alternativa.
   -        Se houver um rifle ou um revlver extra na casa, Ty pagaria por ele.
   Inclinada sobre a tina de roupas, Lvia balanou a cabea.
   -        No vou interferir nesse estranho relacionamento entre vocs. Ty no agiu corretamente,  verdade. Tome seu banho, e prometo que falarei com ele. Alm 
do mais, no h nenhuma arma extra em casa. Nunca aprendi a atirar, e por isso Greg sempre leva o revlver quando sai.        
   Verdade ou mentira, Dixie no tinha outra escolha seno aceitar o que Lvia dizia.
   
   -        Est observando aquela casa por mais de uma hora, Thorne - Pell Hickman reclamou. - J viu que as mulheres esto sozinhas. O que estamos esperando? 
H trs semanas que no ponho as mos numa belezinha daquelas.
   - Cale a boca, Peel. Agiremos quando eu julgar conveniente.
   Virando-se para Cobie, repetiu a histria sobre no ter estado com uma mulher nas ltimas trs semanas. Quando o garoto encolheu os ombros e continuou limpando 
a pistola, Peel tentou usar outra ttica.
   - Aposto que h comida para um batalho naquela cozinha. Estou cansado de comer frutas e razes. Podia ter esperado at comprarmos suprimentos antes de comear 
essa caada a Kincaid.
   - Eu nunca disse que voc tinha de vir comigo, Peel - Cobie levantou o revlver e apontou-o para o rosto do companheiro. - Bang! Voc est morto.
   - Garoto, um dia vai se arrepender dessas brincadeiras estpidas - Peel ameaou. Em seguida, virou-se para Thorne outra vez. - Disse que os nossos cavalos esto 
no curral. No faz sentido ficarmos aqui esperando quando tudo que temos de fazer  descer a encosta e recuper-los.
   Depois de mais alguns minutos de silncio, Thorne guardou o pequeno telescpio de metal no alforje e, sem pressa, alisou as iniciais gravadas no couro. A pea 
era uma recompensa extra que tomara pelo ltimo trabalho e felizmente levara com ele ao entrar no saloon. No fora pago pela misso, j que havia deixado uma testemunha 
viva, mas Dixie Rawlins seria encontrada e silenciada. Tinha de certificar-se disso. Sua reputao dependia da concluso satisfatria de todos os trabalhos que realizava. 
No podia deixar rastros ou testemunhas que um dia apontariam o dedo para ele ou para o homem que o contratara.
   Peel continuava reclamando, interrompendo seus pensamentos, e Thorne o fitou com expresso aborrecida.
   -        Continue resmungando, e vou pensar na hiptese de enfeitar um algodoeiro com esse seu corpo intil.
   - Quer me enforcar? Por qu? S estava perguntando...
   - Este  seu maior problema. S faz perguntas estpidas. Tinha de me certificar de que no havia mais ningum no rancho, entendeu? - Explicou com cuidado exagerado. 
- Precisava ter certeza de que Kincaid no estava nas imediaes da propriedade. Agora...
   -        Nunca teve medo de Kincaid, Thorne. Por que tanta preocupao com o sujeito de uma hora para outra?
   -        Devia aprender com Cobie, Peel. Ele no faz mais do que quatro ou cinco perguntas por semana, porque  capaz de deduzir as coisas por conta prpria. 
Esperei Kincaid sair porque no queria um tiroteio. No quero que ningum saiba onde estamos. Entendeu? - E conduziu o cavalo at o incio da descida da colina. 
- Quem vem comigo? Estou pronto para fazer uma agradvel visita social.
   Aplaudindo, Peel correu para o cavalo. Mas Cobie permaneceu onde estava, sentado sobre a rocha.
   - Thorne, nunca violentei mulheres, e no vou comear agora. S estou participando desta caada porque queria outra chance com Kincaid, e voc acabou de dizer 
que ele no est l.
   -        Mas voltar, e estaremos esperando por ele. Peel e eu estaremos ocupados, e voc corre o risco de perder sua chance, se ficar aqui.  hora de decidir, 
Cobie. Ou vem comigo, ou segue sozinho.
   -        Vamos l, garoto - Peel incentivou-o, incapaz de conter a excitao diante da aventura. - Voc tem sorte. Kincaid pode voltar logo, e se o pegar desprevenido 
a vitria ser sua. Aposto que gostou da mocinha que estava com ele.
   Cobie flexionou a mo ferida. No seria capaz de enfrentar nem uma criana com uma arma de brinquedo nas condies em que estava, mas tambm no queria ficar 
sozinho esperando por Thorne e Peel.
   -        Est bem, vou com vocs. Mas no tocarei nas mulheres. Assim que vencer Kincaid, todas as mulheres do territrio viro atrs de mim - riu, montando sem 
pressa. - Ainda acho que seria melhor recuperarmos nossas montarias e irmos embora. Teremos tempo para encontrar Kincaid mais tarde.
   -        Agora est falando como Peel, garoto - Thorne comentou sorrindo, tomando a dianteira do grupo. - Fugindo do confronto? Algum pode pensar que est com 
medo de Kincaid.
   - Conheo o sujeito, Thorne. E bem - Cobie acrescentou. - Estou observando suas atitudes h muito tempo. Tenho, certeza de que ele vir atrs de ns.
   - Pois que venha. Pena no saber que estava tentando encontr-lo quando o contratei para me ajudar com um servio inacabado. No teramos perdido tanto tempo. 
Mas no vou deix-lo escapar com o que me pertence - Thorne decidiu, cravando os calcanhares nos flancos do animal. Vamos!
   
   
   CAPTULO VIII
   
   Dixie havia se demorado muito no banho. Usando apenas a camisa e ceroula emprestadas, enxugou os cabelos com a toalha de linho sentindo-se renovada. O banho 
havia sido to maravilhoso que servira at para amenizar o ressentimento por Kincaid t-la mantido ali.
   Lvia providenciara roupas ntimas, um saiote e um vestido. Depois de tranar os cabelos, terminou de vestir-se. Sentir o algodo macio nos tornozelos a fez 
lembrar dias de um vero passado, quando descobrira o prazer de ficar descala. Sem se preocupar com as botas, recolheu as roupas sujas. O som de cavalos se aproximando 
a galope no a preocupou. Pelo menos, no a principio. Foi o grito de Lvia que a alertou para a existncia de problemas.
   Os sons se tornaram mais altos e uma voz masculina se imps aos gritos desesperados.
   Dixie jogou as roupas sujas no cho e correu pela casa, olhando em todos os cmodos na esperana de encontrar um rifle ou uma pistola. No havia uma nica arma 
disponvel.
   Os sons excitados a assustavam. Ouvira os mesmos rudos nos acampamentos onde estivera, e sabia que eram produzidos sempre por homens embriagados em busca de 
confuso.
   De repente o grito de Lvia foi interrompido. Dixie levantou a saia e o saiote e, lamentando estar descala, apanhou uma faca ao passar pela cozinha. Parou 
apenas para espiar pela janela, mas a nica coisa que viu foi a tina de roupas virada e a poa de gua ensaboada que o solo absorvia rapidamente.
   No havia ningum perto da porta da cozinha, mas um arrepio de medo percorreu sua espinha quando se dirigiu cautelosa  porta dos fundos.
   Quando deu o primeiro passo para fora da casa, ouviu os palavres pronunciados por uma voz masculina e furiosa. Se no estivesse to apavorada pela segurana 
de Lvia, teria rido da imagem que surgiu diante de seus olhos.
   Um homem tentava colocar a dona do rancho sobre a sela de um cavalo, mas ela mantinha os dentes cravados em sua perna. Uma das mos movia-se enlouquecida agarrando 
e agredindo tudo o que encontrava pela frente, e os grunhidos de dor do atacante podiam ser ouvidos de longe. De repente ele a soltou e Lvia caiu como uma boneca 
de pano. Dixie correu a ajud-la.
   Tarde demais, percebeu que o atacante no estava sozinho. Um segundo cavaleiro apareceu do nada e, depois de ajudar a dona da casa a levantar-se, ela ergueu a 
faca, pronta para defender-se de qualquer perigo. Tinha a impresso de que o segundo homem montava sua gua, mas devia estar imaginando coisas. Atenta, praguejou 
contra Kincaid por t-la deixado indefesa sem sua arma.
   De repente as peas do quebra-cabea se juntaram. Esses eram os homens do saloon!
   Conseguiu esquivar-se quando o sujeito tentou agarr-la. O cavaleiro parou e, habilidoso, fez o animal se virar para atacar novamente. Lvia jogou a tbua de 
esfregar roupa na direo dele, mas no conseguiu acert-lo. As gargalhadas do outro sujeito, o que tentara coloc-la sobre a sela, chamaram a ateno de Dixie.
   Gelada, viu que ele massageava a perna onde fora mordido por Lvia, e sua mo exibia uma horrvel e enorme cicatriz que imitava um raio. Mais uma vez estava diante 
do assassino de seu pai. E mais uma vez podia perder a chance de vingar-se.
   - Lvia? Onde esto as armas?
   Por um momento pensou que a outra no houvesse escutado, porque ela olhou em volta como se estivesse perdida, confusa, e atordoada. Dixie repetiu a questo, mas 
a voz foi abafada pelo som estrondoso dos cascos dos cavalos que giravam em torno delas.        
   A poeira era sufocante. Dixie viu que a gua que lhe pertencia estava com a boca ferida, resultado da crueldade do homem que a cavalgava. Uma onda de revolta 
e compaixo a invadiu. O animal sentia dores, mas no desistia de lutar contra o cavaleiro com tenacidade impressionante.
   Investindo com a faca pronta para o ataque, Dixie conseguia mant-lo afastado. Por causa do crculo de p formado pelos dois animais em constante movimento, no 
conseguia ver o terceiro homem, o moleque que desafiara Ty no saloon. Gostaria de poder localiz-lo, mas era mais importante continuar defendendo-se e fugindo das 
mos que tentavam agarr-la.
   - Entre na casa - Lvia gritou, tentando aproximar-se dela para pux-la pelo brao. Mas um dos cavaleiros colocou-se em seu caminho. - Se conseguir entrar, tranque 
a porta!
   - Ns duas conseguiremos escapar - Dixie tossiu, desejando sentir a segurana que tentava demonstrar. Viu que o varal havia sido arrebentado e as roupas caram 
sobre uma poa lamacenta. Era tolice enfurecer-se por causa de meia dzia de peas sujas, mas era revoltante descobrir que o mundo abrigava homens cujo nico talento 
era destruir.
   Aproveitando um momento de distrao por parte dos atacantes, conseguiu puxar Lvia para mais perto, mas a esperana durou pouco. No poderiam buscar refgio 
no interior da casa, porque o terceiro invasor estava parado na porta. Seus olhos eram frios e duros como o biscoito que ele mastigava.
   Ento o homem da cicatriz desmontou e Dixie foi dominada pelo pnico. Sabia do que ele era capaz. Enquanto jurava mat-lo antes de permitir que a tocasse novamente, 
rezou pedindo foras para enfrentar o pavor que ameaava lhe roubar a conscincia. Ele tambm colocou-se entre as mulheres e a porta.
   Dixie agarrou o brao de Lvia.
   -        Corra para o estbulo! - Pretendia alcanar os cavalos. Caso no conseguisse, teria de contentar-se com o depsito de palha. S o fogo e a fumaa os 
obrigaria a sair e deix-las em paz.
   A trana se desfizera com os movimentos bruscos, e Peel agarrou-a pelos cabelos sem desmontar.
   -        Agora vai aprender a no ameaar um homem com uma faca! - gritou.
   -        Corra, Lvia! - Dixie gritou antes de se virar numa fria cega. Havia jurado que nenhum homem a tornaria impotente outra vez. Sabia que dio a deixava 
cega e desajeitada, mas o gemido agudo do sujeito a fez compreender que acertara o alvo.
   Rezando para que Lvia conseguisse escapar e pedir ajuda, decidiu ignorar a dor provocada pela mo que puxava seus cabelos. Lgrimas de dio a cegavam enquanto 
o sujeito a obrigava a inclinar a cabea contra sua perna.
   O corao batia acelerado, e todos os sons desapareceram como se s o pulsar do sangue em suas veias existisse. 0 ar entrava e saa dos pulmes com dificuldade, 
e no compreendia como ainda conseguia manter-se consciente, apesar da dor angustiante. Fez uma nova tentativa de feri-lo, mas a gargalhada rouca indicou que fracassara. 
As mechas que caam sobre seu rosto a cegavam, e no sabia se Lvia conseguira fugir.
   Estava sendo arrastada pelo animal. Tentando conter o pnico, disse a si mesma que tinha de manter a calma e esperar o melhor momento para escapar.
   - Que diabos est fazendo, Thorne? Deixou a outra fugir!
   - Mas voc tem a que eu queria pegar, Peel. E isso  tudo que importa. Essa mulher tem contas a acertar comigo. No a reconheci naquela noite do confronto no 
saloon, mas agora que est usando um vestido tudo ficou mais claro.
   0 som rouco e selvagem da voz masculina despertou lembranas amargas. O pesadelo que havia vivido naquela noite voltou com fora renovada de onde tentava mant-lo 
enterrado.
   
   Pontos negros danavam em torno de seus olhos. J no ouvia mais as ameaas gritadas pelos invasores. Dentro dela, a tentao de ceder  inconscincia que a pouparia 
da humilhao era quase maior do que podia suportar.
   Mas precisava do dio, e o sentimento era alimentado por aquela voz que parecia ser produzida pela garganta do inferno. Uma voz que agora tinha um nome: Thorne. 
O dio lhe deu foras. As lembranas se tornaram mais ntidas.
   Estava parada na cozinha, dobrando os guardanapos e tirando a mesa do jantar. A cesta de costura esperava ao lado da cadeira de balano, mas primeiro acompanharia 
o pai na caminhada noturna at o celeiro. Tinham duas guas prontas para parir, gado novo adquirido numa mesa de jogo. Os filhotes renderiam um bom dinheiro com 
o qual aumentariam o rebanho que j possuam.
   O primeiro tiro ecoou na noite justamente quando ela apagou a lamparina. Gritando pelo pai, correra at a janela no instante em que uma tocha penetrara pela janela 
do salo. Cacos de vidro espalharam-se pelo cho de madeira polida e ela saiu antes das cortinas serem incendiadas. Seu pai no atendia aos gritos de socorro. O 
cheiro do pavio da tocha havia permanecido com ela.
   Gargalhadas. Como poderia esquec-las? Selvagens e assustadoras enchendo a noite.
   E os tiros. Eram tantos que no podia cont-los. O ar queimava como se respirasse apenas plvora.
   Sabia que o assalto havia sido provocado pela recusa do pai em vender seus direitos sobre a gua. Ele se mostrara preocupado, mas nunca temeroso. E jamais a prevenira 
ou esperara um ataque violento.
   Apesar de envergonhar-se da prpria covardia, permanecera encolhida dentro de casa, sem foras para sair e descobrir o que havia acontecido. Corria de um cmodo 
para o outro, ou abaixava-se num canto com medo de ser descoberta, e s o cheiro da fumaa no curral a fez mudar de atitude.
   A lembrana trazia imagens ntidas e, com ela, uma dor intensa que procurava alvio. Dixie no pde conter o grito agudo que escapou de seus lbios. Apesar da 
dor adicional que o gesto provocava, balanou a cabea de um lado para o outro. Queria livrar-se do que via. Precisava retornar ao presente.
   Mas a memria era mais forte que a vontade, e o pesadelo que vivera meses antes continuou desfilando diante de seus olhos como num filme.
   A caminho da porta, agarrou a panela com gua que usaria para lavar a loua do jantar. Correndo, derramando o contedo da vasilha a cada passo trpego, dirigiu-se 
ao celeiro. A fumaa era densa. Os olhos ardiam e lacrimejavam, mas via perfeitamente as chamas que lambiam as paredes. O medo no a impediu de entrar no edifcio 
com a panela vazia.
   Seu nico pensamento era salvar as guas. Um grito ecoou no ar. Tonta, registrou o som agudo, mas tambm havia gritado diversas vezes ao longo da noite. Havia 
sangue espalhado pela porta do celeiro. E nas baias, no cho, na palha... Era tarde demais. No conseguira salvar seus preciosos cavalos. Quando correu gritando 
e chorando pela noite escura, levava as mos sujas de sangue e fuligem.
   Os dois animais estavam mortos. Assassinados em suas baias. No haveria nenhum filhote. Nenhum dinheiro. No haveria mais rebanho. Nem sonhos.
   E por mais que gritasse, o pai no respondia.
   Mas ele respondeu.
   Foi horrvel ouvir a gargalhada debochada enquanto corria para casa. Jamais esqueceria a voz rouca e libidinosa recitando todas as coisas horrveis que ele faria 
quando a pegasse.
   O pnico deu foras aos msculos das pernas. O terror a fez correr. No podia respirar. No conseguia conter as batidas aceleradas do corao, nem o pavor que 
parecia esfriar seu sangue.
   Correr! Esse era seu nico pensamento. A nica ao de que era capaz.
   Sozinha. Caada. Ele a perseguia montado em seu cavalo, tentando la-la como se fosse uma novilha.
   Caa de joelhos e levantava-se apressada. Como uma criatura selvagem, lutava para manter-se em p, cambaleando, correndo, movido pelo medo de ser pega. E o riso 
sempre a persegui-la, renovando o pnico que a mantinha em movimento.
   Rastejando pelos degraus da varanda, tocou um objeto de couro. Apesar do medo que a cegava para a realidade, soube imediatamente que se tratava de uma bota. Ouvia 
o som infantil do choro que escapava de sua garganta e teve certeza, antes mesmo de tocar o rosto frio, que aquele era o corpo de seu pai estendido num sono mortal.
   Os soluos se transformaram em gritos. Uma corda envolveu seu corpo e imobilizou-a. No instante seguinte estava deitada, tentando agarrar-se ao corpo sem vida 
do pai enquanto era arrastada como uma boneca de pano pelo cho da varanda.
   A poeira penetrava pelo nariz e pela boca, roubando a umidade natural e dificultando o simples ato de respirar. O corpo doa. Lgrimas corriam por seu rosto imundo.
   A corda feria sua pele. Ele dera dezenas de voltas pelo ptio, arrastando-a na esteira do cavalo. Ferida e sangrando, quase no percebeu quando o lao que a mantinha 
cativa tornou-se mais frouxo.
   Ento ele desmontou. Quanto mais implorava por misericrdia, mais ele gargalhava. O riso estridente e selvagem era tudo que ouvia. No sabia de onde tirava foras 
para continuar lutando, mesmo sabendo que era intil. Ele a arrastou para dentro da casa.
   Desejava morrer. Mas ele queria lev-la ao inferno ainda em vida.
   Os cacos de vidro eram esmagados pelas botas do homem que a atirou ao cho do salo. A boca contorcida emitia sons que mais pareciam grunhidos de um animal. E 
de repente ele parou de rir ao sentir o primeiro caco de vidro atirado em sua direo.
   Mesmo assim, ainda insistiu em toc-la.
   Tinha de silenciar aquele riso. A vida adquiria subitamente um valor inestimvel. Ele havia destrudo tudo o que mais amava. No podia permitir que a destrusse, 
tambm. No podia!
   Roupas sendo rasgadas. Hlito ftido. Uma sensao de estar sendo esmagada sob um peso muito maior que o dela. 0 caco de vidro na mo. O grito. A necessidade 
de sobrevivncia impelindo-a a agir e lutar. A liberdade sbita que a encheu de esperana e vigor.
   O estrondo de madeira se partindo. A estante de candelabros que fora de sua me arruinada. A corrida para o corpo do pai. A luz do fogo que ardia no celeiro, 
soube que era tarde demais para tentar salv-lo. A imagem dela mesma retrocedendo, sacudida por tremores nuseas, banhada pelo suor gelado que parecia brotar de 
todos os poros do corpo. A viso daquela mo rasgada e ensanguentada surgindo atravs da porta da cozinha...
   Isso era tudo que lembrava do animal que destrura sua vida. E jamais se perdoara por ter fugido.
   Agora acontecia outra vez. Estava presa, indefesa, impotente para det-lo.
   Mas no estava sozinha. Tinha de lutar contra a escurido que tentava envolv-la. Um zumbido ecoava em seus ouvidos.
   Voltou ao presente pelas mos da dor de ser puxada pelos cabelos. Alguns momentos se passaram antes que Dixie entendesse que o zumbido era real. Lvia conseguira 
chegar ao celeiro, e devia estar emitindo sinais de socorro.
   O tempo havia perdido o significado. Um corpo aproximou-se e ela se debateu, desferindo pontaps violentos em todas as direes, apesar do vestido e do saiote 
que restringiam seus movimentos. Largando a faca, estendeu os braos para tentar agarrar a mo do homem que a segurava. Os gritos a ajudavam a se manter consciente. 
Segurando o brao como uma alavanca, jogou o corpo para a frente com toda a energia de que ainda dispunha.
   O movimento inesperado surtiu efeito. De repente estava livre, levantando-se como podia, usando as mos para no bater o rosto no cho ao tropear e cair. No 
havia tempo para recompor-se. Ouviu o baque de um corpo caindo atrs dela e, sem esperar para saber qual seria a reao do atacante, ps-se em p e correu para 
o celeiro.
   O sino havia parado de badalar. Ouvia algum gritando ordens furiosas, mas no conseguia compreend-las. No meio do terreiro, levantou a cabea e viu Lvia saindo 
do celeiro montada num animal sem sela. Experiente e astuta, ela abriu as duas portas do galpo e libertou todos os cavalos, vacas e bezerros. A confuso imperava 
absoluta. Filhotes berravam procurando pelas mes, que andavam em crculos enfurecidas pela sensao de perigo.
   E acima de tudo, Lvia girava um longo chicote com uma fora e uma habilidade que a fizeram parar, surpresa e aliviada. Mas ainda no esquecera o pesadelo que 
acabara de protagonizar, e por isso tratou de colocar-se a salvo at que Lvia e seu chicote estivessem entre ela e os homens.
   No havia um momento a perder. Lvia s poderia det-los enquanto nenhum deles atirasse. Dixie ainda estava correndo para o celeiro em busca de uma foice ou 
um garfo de feno que servisse como arma, quando se deu conta de que nenhum dos invasores usara seus revlveres. A resposta veio clara no mesmo instante em que achou 
o garfo de feno.
   Tiros alertariam Greg e Ty sobre a existncia de problemas no rancho, e por alguma razo os homens no os queriam ali. Munida do garfo pontiagudo e pesado, 
virou-se para sair e ir ajudar a dona da casa quando se lembrou do sino. Talvez Greg no houvesse escutado as badaladas. E se ele e Ty no estivessem retornando? 
Quanto tempo ainda poderiam lutar sem o apoio de armas de fogo?
   Nesse momento o tiroteio explodiu.
   
   
   CAPTULO IX
   
   Dixie correu para fora do celeiro levando o garfo de feno. Ty, Greg e os meninos maiores entravam na propriedade num galope alucinado. Como quatro anjos vingadores, 
desciam a colina na direo da casa do rancho.
   Os tiros haviam espantado os animais que Lvia soltara pouco antes, e ela no podia ser vista em parte alguma. Outra saraivada a fez compreender que Ty e Greg 
atiravam para o alto, ainda afastados demais para poderem mirar o alvo desejado.
   Thorne a encarou. Ele preparava a montaria. Dixie no sabia onde estavam os outros dois homens, e nem se importava com eles. No permitiria que o assassino de 
seu pai escapasse novamente.
   O garfo de feno era pesado, mas encontrou foras para investir contra o bandido mantendo a arma improvisada em punho.
   Algum gritou seu nome. Dixie ignorou o chamado. Um bezerro corria a seu lado. Estava no meio do terreiro quando um tiro derrubou Thorne da sela.
   - No! - ela gritou. A vingana era sua! Ningum roubaria esse prazer. A morte de Thorne lavaria de sua alma a ndoa da covardia, de no ter feito nada para impedir 
a morte do pai e a destruio de tudo que haviam construdo juntos.
   O bezerro aproximou-se e a fez tropear. O garfo a impediu de cair, mas perdeu segundos preciosos antes de reconquistar o equilbrio e empunhar novamente a arma.
   Um tiro levantou poeira do cho bem perto de seus po Thorne estava novamente sobre o cavalo! Ele se preparou para disparar novamente, mas o bezerro a derrubou 
e a bala passou zunindo por sobre sua cabea. Ouvia gritos mas nada mais importava. Thorne fugia levando o garoto na garupa, e mais uma vez o perdia na poeira.
   No sabia quanto tempo havia ficado deitada no cho m sacudida pelos soluos de dio e impotncia, antes de sentir as mos de Ty sobre seus ombros.
   - Dixie? Est ferida? - A culpa o atormentava. Sara da propriedade e deixara as mulheres sozinhas! Preocupado, sentiu a raiva domin-lo ao ver o garfo de feno 
cado ao lado dela. 
   - Usou essa coisa? De onde tirou a idia dele tentar defender-se com um garfo de feno? Qual  o problema com voc? No tem um mnimo de bom senso? Vamos, deixe-me 
ajud-la a levantar-se. Quero ver se est ferida.
   Gostaria que ela fosse mais dependente. Preferia que se e mostrasse grata por ter espantado aqueles malfeitores antes o que eles pudessem realmente atac-la.
   No que no admirasse sua coragem, mas havia hora e local para tudo, e atacar um bandido perigoso com um instrumento agrcola era ridculo. Desde o incio pressentira 
a que ela criaria problemas, e era o nico culpado por estar - metido numa confuso interminvel com Dixie Rawlins.
   - Dixie, querida - sussurrou, inclinando-se para que s ela pudesse ouvir suas palavras. - No tente bancar a teimosa agora. Este no  o melhor momento para 
exibir sua famosa independncia. Deixe-me ajud-la. Preciso ter certeza de que est bem.
   - Ento veja com seus prprios olhos! - ela respondeu, rolando para longe dele como se fosse impulsionada por uma mola. - Bastardo! Podia ter matado o desgraado, 
Ty! Se tivesse minha arma.  a segunda vez, Kincaid. Perdi o sujeito por duas vezes. Armada, no teria precisado de voc nem de nenhum outro homem para me defender. 
E podia ter ajudado Lvia, tambm. Droga!
   Ty tentou aproximar-se, mas ela arregalou os olhos e encolheu-se.
   - No toque em mim! Jamais o perdoarei pelo que fez, ouviu bem? Nunca, Kincaid! Deixe-me em paz. E trate de devolver meu ouro e minha arma. - Enxugando as lgrimas 
que corriam por seu rosto, ela se levantou sobre as pernas trmulas. Ty a encarava com um brilho indecifrvel nos olhos azuis. 
   - No tente me impedir de partir. Assim que tiver novamente o que  meu, irei atrs dele.
   Ele permaneceu onde estava, vendo Dixie se afastar mancando.
   - Ty? Que diabos significa tudo isso?
   - Eram os homens do saloon - ele respondeu sem fitar o amigo. - Um deles matou o pai de Dixie. - Ento virou-se e viu que Lvia estava parada ao lado do marido. 
   - No imaginam como lamento ter atrado tantos problemas para vocs. Desta vez as palavras no so suficientes para expressar o que sinto. Espero que possam entender... 
e perdoar-me.
   - No deve deix-la ir atrs daqueles homens sozinha. Dixie  uma mulher muito forte e corajosa, mas um homem de bem no...
   - No sei se sou um homem de bem, Lvia. Greg, ser que pode me fazer mais um favor? Ajude-a a escolher um bom cavalo e d a ela tudo que for necessrio. Dixie 
vai tentar recusar sua oferta, mas certifique-se de que ela s deixe o rancho devidamente equipada. - Coando a nuca, virou-se e deu alguns passos antes de encar-los 
novamente.
   - Fico lhe devendo mais uma, amigo.
   0 olhar sombrio de Kincaid fez o rancheiro balanar a cabea.
   - Voc prometeu que encontraria Jessie e mandaria notcias para ns. Acho que estamos empatados, no? Lvia e eu no queremos ouvir mais nada sobre dvidas e 
pedidos de desculpas.
   Um movimento afirmativo com a cabea foi tudo que Ty conseguiu produzir. Como dissera antes, em alguns momentos as palavras so inteis.
   
   A raiva levara Dixie at o segundo andar da casa dos Rutland, onde ela puxou o cobertor pendurado numa corda para garantir um pouco de privacidade.
   A angstia era insuportvel. Com os ombros cados e a cabea baixa, cedeu aos tremores que at ento conseguira conter. Gritara com Ty porque no pudera suportar 
o sentimento de fracasso, o gosto amargo de ter sido superada pela misso que ela mesma estabelecera.
   S agora, sem ningum alm de Witchy e seus filhotes por testemunha, podia admitir o terror de enfrentar um assassino novamente. No! Agora o bandido tinha um 
nome: Thorne.
   Deprimida pelo sentimento de que jamais seria capaz de cumprir o juramento, comeou a recolher as roupas que deixara jogadas no cho. Estava exausta, como se 
houvesse sado do banho h dias. A gua permanecia na banheira. Era irracional ficar aborrecida por ter esquecido de esvazi-la. O que estava acontecendo com ela?
   No queria uma resposta para a prpria pergunta. Tinha medo de enfrentar a realidade. Deixando as roupas de lado, mergulhou os dois baldes na banheira e, segurando-os 
pelas alas de corda, tentou levantar-se. Uma forte tontura a fez permanecer onde estava. A pele arrepiou-se ao lembrar as mos sobre seu corpo. Nem toda a gua 
fervente do mundo apagaria a lembrana.
   Ao sair de trs do cobertor e descer a escada, Dixie parou. Greg estava ao lado da fogueira, os braos em torno do corpo da esposa e os olhos fechados.
   Sem querer interromper um momento to ntimo, voltou para trs da cortina improvisada e, silenciosa, deixou os baldes no cho. Uma onda de tristeza a invadiu 
e ela teve de levar o punho cerrado  boca para conter um soluo. Se antes sentia-se sozinha, a intensidade do sentimento que agora a invadia era insuportvel.
   Ela, que estivera to certa de sua misso, era forada a olhar para dentro de si mesma. Lutava contra a verdade ao mesmo tempo em que a reconhecia. Se cedesse 
s dvidas que a perturbavam, seria forada a encarar o vazio de sua vida.
   E havia o juramento. No podia permitir que a fraqueza a fizesse esquecer a promessa que fizera ao pai.
   Dixie livrou-se da tristeza da mesma maneira que conseguira libertar-se do medo, quando comeara a perseguir os assassinos do pai. A mente possua uma grande 
capacidade de arquivar pensamentos indesejados.
   Ty Kincaid pertencia  mesma gaveta desse arquivo mental.
   Como se pudesse sentir sua necessidade de companhia, a gata abandonou os filhotes na caixa e aproximou-se. Incapaz de resistir aos encantos do animal peludo 
e bem tratado, Dixie sentou-se no cho e afagou-a.
   -        Sinto inveja de voc, gatinha.
   - No  necessrio - Lvia sussurrou preocupada. - Ty nos contou o que pretende fazer. Uma mulher no deve...
   - Por favor, no - ela cortou, levantando-se apressada. - Ia esvaziar os baldes e mudar de roupa. - Olhou para o vestido sujo e rasgado. - Acho que o arruinei. 
Sinto muito. No imagina como lamento por termos trazido tantos problemas conosco.
   -  dura demais com voc mesma, Dixie. Ningum a est expulsando daqui. Pode ficar conosco quanto tempo quiser. Ty vai...
   -        No. A luta no  dele.
   As duas ouviram as crianas menores chamando pela me. Depois de lanar um ltimo olhar preocupado na direo de Dixie, Lvia saiu para ir atender Jlia e James.
   Preferia no ouvir as vozes excitadas fazendo perguntas sobre o que havia acontecido. Rpida, trocou de roupa, dividida entre um corpo que insistia em partir 
e uma mente que preferia adiar um novo confronto com Ty.
   Jlia resolveu a questo.
   - Srta. Dixie, papai est chamando por voc.
   Levando a cartucheira vazia, ela se aproximou do cobertor e parou ao ver a menina abaixar-se para acariciar a gata. - Estava preocupada com Withcy e os gatinhos.
   - Eles esto bem, Jlia. Os bandidos no tiveram chance de fazer-lhes mal algum. O chicote de sua me os manteve longe da casa.
   
   -James e eu tivemos de nos esconder nas rochas, porque Elwin disse que somos pequenos demais para ajudar. - Enquanto levava a gata para perto dos filhotes, a 
menina lembrou que o pai esperava por ela.
   No havia ningum em casa, Mas Dixie encontrou Greg, a esposa e os filhos do lado de fora. Os dois meninos maiores, estavam montados, e James mantinha-se agarrado 
ao vestido da me.
   Greg segurava as rdeas de uma gua castanha.
   -         toda sua - disse ao v-la.
   -        No posso levar seu cavalo. O que usei para chegar aqui...
   -        Por favor, Dixie - Lvia cortou com firmeza -, no queremos ouvir mais nada. Pegue a montaria.  um presente nosso, e ficaremos ofendidos se recus-lo. 
Os meninos empacotaram bacon e caf, farinha e alguns remdios. Ainda acho que devia mudar de idia e ficar conosco, mas no costumo alimentar esperanas vs. Lembre-se 
apenas de que ser sempre bem-vinda em nossa casa.
   - No entendo por que no posso levar o cavalo que me trouxe at aqui.
   -        Porque Ty j partiu com os dois animais - Greg revelou, fitando-a como se a desafiasse a reagir.
   Ty partira sem dizer nada. Conseguira aquilo que queria.
   -        No posso manifestar minha gratido por tudo que fizeram, mas tenho ouro suficiente para recompens-los por...
   -        Nem pense nisso! - Greg cortou. - Seu ouro est nos alforjes, junto com a arma. Os meninos vo acompanh-la at o outro lado da colina. Eles tm mesmo 
de ir recolher o gado.
   - Vocs so pessoas maravilhosas. Mas antes de partir, Lvia, gostaria de saber onde aprendeu a manejar o chicote com tanta presteza.
   -        O pai dela era laador - Elwin respondeu.
   -        Vov ia nos ensinar a laar e usar o chicote, como fez com mame, mas ele teve pneumonia.
   Dixie murmurou algumas palavras de pesar, mas no conseguia deixar de pensar no paradeiro de Ty. No podia perguntar nada a Greg, especialmente depois de ter 
sido to hostil com Kincaid diante dos Rutland.
   Para disfarar o constrangimento, aproximou a mo do focinho da gua para que ela sentisse seu cheiro. Conhecia bem os animais, e sabia que acabara de ser presenteada 
com um excelente exemplar.
   - Ela  linda, Greg - disse, sorrindo pela primeira vez naquele dia, ao sentir o focinho gelado na palma da mo.
   - Gilby est trabalhando com ela h quase um ano - Greg comentou orgulhoso. -  dcil, obediente e forte, capaz de percorrer grandes distncias antes de se cansar. 
Tem certeza de que no prefere passar a noite conosco e partir amanh?
   - No posso - ela respondeu, segurando as rdeas com uma das mos enquanto montava. - No quero perd-los de vista mais uma vez.
   Acenando, Dixie partiu seguida de perto pelos rapazes.
   
   Do alto da colina que marcava o limite da propriedade dos Rutland, Ty a viu partindo. Havia descoberto pouco sobre os trs homens e o local onde haviam permanecido 
escondidos para observar o movimento no rancho. Um deles fumava e tinha o hbito de rasgar a ponta do cigarro e esvazi-lo, antes de apag-lo. Um dos cavalos tinha 
o casco rachado na pata traseira do lado esquerdo. Havia apenas dois conjuntos de pegadas. Uma certamente fora deixada pelo garoto, porque as botas eram de saltos 
mais altos e revelavam um proprietrio de porte modesto, dada a profundidade reduzida das marcas.. O outro conjunto sugeria algum com mais fora na perna esquerda, 
como se mancasse ligeiramente ao caminhar.
   No era muito, mas no conseguira mais que isso. Informaes difusas e dois cavalos. Fora tomado por uma profunda antipatia pelos sujeitos quando um deles o 
acertara com uma faca. Atacar a casa de seu melhor amigo os transformara em inimigos de morte.
   E por mais que quisesse evitar um envolvimento, havia Dixie. No podia permitir que ela os perseguisse sozinha.
   O sol j comeava a mergulhar no horizonte, deixando uma trilha avermelhada no cu. Sabia que tinha de deix-la afastar-se antes de partir atrs dela.
   Orgulhosa e obstinada, a mulher do sorriso de anjo deixara marcas profundas no eterno solitrio. E enquanto no descobrisse o que sentia por ela, no a deixaria 
escapar.
   
   Dixie lamentou perder a companhia dos rapazes, mas despediu-se sem deixar transparecer a tristeza. Tinha de encontrar um ponto mais alto de onde pudesse localizar 
a trilha dos homens que perseguia. Sabia que no seria fcil encontr-los novamente, mas nunca deixara de acreditar na sorte, e talvez ela resolvesse dar o ar de 
sua graa.
   O sol descia lento para o horizonte, desenhando no cu uma esteira que lembrava amoras esmagadas flutuando num rio de gua muito limpa. Uma incrvel mistura de 
prpura, laranja e lils prometia muito calor para o dia seguinte. O que significava que devia encontrar um bom lugar para acampar, e depressa. Como era a primeira 
vez que cavalgava a gua, no queria correr o risco de esgot-la ou provocar um ferimento.
   Parada, aguou os ouvidos tentando identificar o som de gua corrente. A sua frente havia uma encosta que prometia ser o ponto elevado que procurava. Dixie seguiu 
para l, deixando que a montaria determinasse seu ritmo e percebendo que ela pisava firme no terreno acidentado.
    As sombras j se haviam tornado mais longas quando chegou ao topo da colina. Fechando os olhos, respirou profundamente antes de abri-los e concentrou-se na terra 
que estendia-se a seus ps. Havia gua perto de onde estava e um par de olhos brilhava na escurido. Infelizmente no podia identificar o animal sem o auxlio da 
luz do dia. Nada se movia. Resignada, voltou pelo mesmo caminho disposta a comear bem cedo no dia seguinte.
   A meio caminho da descida ela encontrou o que estava procurando. Havia um patamar rochoso e saliente cavado na montanha, um lugar que serviria de abrigo contra 
as intempries e permitira que acendesse um fogo sem correr o risco de ser vista de longe. Cautelosa, desmontou e segurou as rdeas em uma das mos, a outra sobre 
o cabo da pistola. A gua mantinha as orelhas em p num sinal de alerta. Dixie sempre respeitara o sentido aguado dos animais.
   Alguns minutos se passaram e as orelhas pontudas permaneciam na mesma posio, a pata dianteira batendo contra o cho como se quisesse dizer alguma coisa.
   -  uma pena no conhec-la melhor, minha amiga - Dixie sussurrou. - No sei dizer se est preocupada, assustada ou com fome, como eu.
   Havia levado a gua para o abrigo e preparava-se para comear a esvaziar os alforjes quando sentiu o focinho gelado em seu ombro. Ento virou-se e viu o brilho 
de uma pequena queda de gua que enchia uma depresso na rocha alguns metros  frente. Como o cantil ainda estava cheio, deixou o animal aplacar a sede enquanto 
procurava galhos e folhas secas para a fogueira.
   Uma hora mais tarde havia conseguido recolher muitas folhas, mas nenhuma pedra com a qual pudesse fazer fogo. 
   - Hoje o jantar vai ser frio, mocinha.
   Sentada, mastigando algumas frutas que encontrara e bebendo gua, Dixie no pde deixar de pensar em Ty e no que havia acontecido entre eles.
   Sabia que era ridculo esperar que ele a encontrasse depois de ter deixado claro que no o queria por perto. No o queria, nem precisava de sua interferncia 
arrogante e autoritria.
   Mas, ridculo ou no, a verdade era que esperava v-lo surgir do nada.
   Satisfeita, guardou o cantil e descobriu-se pensando no ombro de Kincaid. E se ele esquecesse de limpar o ferimento? Lvia havia dado a ele uma pomada feita com 
ervas amassadas e razes, um segredo de famlia que sempre dera bons resultados. No tinha por que inquietar-se. Afinal, Kincaid era um homem adulto. No precisava 
de uma bab.
   Pensamentos envolvendo Ty Kincaid continuavam fluindo, imagens de seu sorriso, do olhar firme e muito azul, dos cabelos escuros que insistiam em cair sobre a 
testa, do sabor dos lbios...
   Balanando a cabea, tentou banir a recordao. Devia estar exausta, porque j no conseguia impor a barreira mental com que tantas vezes havia controlado pensamentos 
e imagens indesejveis.
   No queria pensar nos beijos de Kincaid e na sensao dos braos em torno de seu corpo, quentes e firmes. No era capaz de lidar com a fora do desejo que a lembrana 
despertava.
   Alisando o solo e afastando pedras soltas, estendeu o cobertor sob o abrigo rochoso e enrolou-se nele. Dormira pouco nas ltimas noites, mas o crebro permanecia 
numa atividade febril, impedindo-a de relaxar.        
   Onde estaria Ty? Greg dissera que ele levara os dois cavalos roubados. O que pretendia fazer com os animais? Se fosse pego... No queria nem pensar na possibilidade 
de encontr-lo enforcado como ladro de cavalos. Mas isso era exatamente o que aconteceria, se algum o alcanasse. Ningum faria perguntas, nem daria importncia 
ao fato de o legtimo proprietrio dos cavalos ter cometido crimes muito piores.
   Sabia que no existiam leis para punir bandidos como Thorne. Suspeitava de que ele havia sido contratado por um rancheiro rico para assassinar seu pai por causa 
da terra e dos direitos sobre a gua. O problema era que no conseguia descobrir o verdadeiro culpado. S Thorne poderia revelar sua identidade.
   Dixie puxou o cobertor at bem perto da orelha, incomodada com o frio da noite e o gelo que envolvia seu corao. A sela era um travesseiro duro. Usando uma das 
mos como apoio para a cabea, olhou para a escurido.
   Felizmente a mente abandonou as questes sobre o homem que contratara a morte de seu pai. No lugar delas surgiram imagens de Ty. Era difcil acreditar que sentia 
falta dele. H algumas horas, no conseguia pensar em outra coisa alm de livrar-se de sua companhia.
   Com sorte, talvez um dia pudesse reencontr-lo. Existiam muitas dvidas sobre ele que queria esclarecer, perguntas para as quais gostaria de obter respostas...
   S precisava sobreviver.
   Dixie fechou os olhos. Adormeceu vendo a imagem de Ty refletida pelo espelho enquanto ela escovava os cabelos, e um calor agradvel substituiu o frio que antes 
dominara seu corao.
   No meio da noite ela gritou:
   - Ty, onde est voc?
   Ningum ouviu. Ningum respondeu.
   
   
   CAPTULO X
   
   Tem certeza, Cobie?
   - Thorne, j disse mil vezes. Kincaid est acampado a menos de trs quilmetros daqui, e no vi nenhum sinal da mulher. - Encolhido junto ao fogo, Cobie serviu-se 
de uma xcara de caf. Felizmente tivera o bom senso de providenciar suprimentos enquanto Thorne e Pell expunham-se ao ridculo de atacar duas mulheres. Agora tinham 
caf, presunto defumado e farinha.
   Cobie no escondia o desgosto provocado pelas atuais circunstncias. Thorne e Peel no haviam se preocupado em reunir mantimentos, mas comiam o que ele cozinhava 
sem nenhum constrangimento. Flexionando a mo, tentou calcular em quanto tempo poderia us-la novamente. Talvez fosse hora de comear a pensar em separar-se desses 
dois.
   Cobie enrolou um cigarro e serviu-se de um graveto do fogo para acend-lo. Depois foi sentar-se um pouco mais afastado da fogueira, com as costas apoiadas na 
sela. Thorne parecia concentrado nos prprios pensamentos e Peel afiava uma faca.
   A maneira como o ignoravam era mais que satisfatria. Ainda no questionara Thorne, porque preferia refletir mais um pouco antes de dizer qualquer coisa, mas 
tinha certeza de que ele conhecia uma daquelas mulheres. A que Peel tentara agarrar.
   De seu lugar junto  porta, vira perfeitamente quando ela reconhecera Thorne. Se algum dia vira um par de olhos refletindo o brilho da morte, aquela mulher os 
possua.
   Conhecia apenas uma lei. A da sobrevivncia. S os mais fortes venciam a morte. Cobie estava disposto a ser um deles. Construiria uma reputao de pistoleiro 
insupervel, de forma que as pessoas fizessem de tudo para deix-lo calmo e feliz.
   Bebendo o caf, franziu a testa. No era assim que as coisas funcionavam para Kincaid. O homem podia ser rpido com a pistola, mas no sabia como tirar proveito 
da prpria habilidade. Um idiota. E Cobie no era tolo. Depois de dar mais uma tragada no cigarro, pisou na extremidade acesa e deixou a xcara no cho, ao lado 
do corpo. Um dos hbitos que aprendera na misso onde fora criado havia sido nunca deixar rastro de sua passagem.
   Tendo isso em mente, rasgou o papel muito fino e deixou cair o tabaco restante, formando uma pequena pilha sobre a terra. Uma boa chuva lavaria todos os resqucios 
de fumo. Ao levantar a cabea, viu que Thorne o observava do outro lado da fogueira.
   -        Estive pensando - Cobie comentou.
   - Voc nunca foi muito bom nisso, garoto.
   Cobie conteve uma onda de raiva provocada pelo fato de ter sido chamado de garoto. Tinha razo. Estava na hora de separar-se desses dois palermas. E como queria 
partir sem brigas, preferiu ignorar o comentrio.
   -        Quando nos unimos em Prescott, voc me prometeu dinheiro. At agora no vi um nico dlar.
   -        Mas teve uma chance de acabar com Kincaid. Uma oportunidade que voc desperdiou.
   Cobie olhou para Peel. Se estava prestando ateno  conversa, ele no demonstrava. O movimento constante da faca sobre a pedra era quase hipntico, e tinha a 
impresso de que ele acabaria dormindo sobre a arma.
   - No vou pedir desculpas pelo meu erro. Mas voc me meteu numa histria que no cheira nada bem. Aquela mulher que encontramos no rancho tem uma histria em 
comum com voc. Um passado de morte.
   -        Est fazendo perguntas, menino?
   Havia uma suavidade letal na voz de Thorne que Cobie aprendera a respeitar. Ele negou com um movimento de cabea, mas tomou uma deciso. Fugiria do cheiro de 
encrenca que sentia no ar.
   -        Tenho a impresso de que est se acovardando, moleque.
   -        Cale a boca, Peel. Ningum pediu sua opinio. - Thorne mantinha os olhos fixos em Cobie. - No vai perder a coragem. No vai fazer perguntas. Vai cavalgar 
conosco e fazer tudo que eu disser, porque quer ter outra chance com Kincaid. E desta vez no vai desperdi-la. Certo, garoto?
   - Certo, Thorne. Voc manda. - Cobie deitou-se e puxou o chapu sobre os olhos. Todos os msculos do corpo clamavam por um confronto fsico com o sujeito, mas 
tinha de conter-se.
   - Bom menino. E quanto a voc, Peel, trate de ir dormir. Vamos partir bem cedo, antes do amanhecer.
   Thorne deitou-se de lado com a arma na mo. No gostara de ser interrogado por Cobie. O menino era mais esperto do que deixava transparecer, e a primeira providncia 
que tomaria depois de resolver seu problema com Rawlins seria cuidar dele. No questionara a sorte que colocara aquela mulher em seu caminho, mas a amaldioara por 
t-la deixado escapar novamente. A desgraada era uma lutadora!
   Sob o cobertor, tocou a cicatriz que ela desenhara em sua mo. Quase a possura naquela noite. No imaginara que ela ainda tivesse tanto vigor depois de tudo 
que suportara, e esse havia sido seu grande erro. Um engano que no cometeria novamente.
   No gostava muito da idia de ela ter se afastado de Kincaid. Teria sido muito mais fcil e rpido se os encontrasse juntos. Kincaid cruzara seu caminho, e o 
faria pagar pela bala que o atingira de raspo e deixara seu brao dolorido. A menos... Thorne balanou a cabea. Rawlins no podia ter contratado Kincaid para ajud-la. 
Sabia que ela estivera jogando com os mineiros, trapaceando para ganhar ouro com o qual comprava informaes a seu respeito. Kincaid pediria um preo muito alto. 
Afinal, sabia quanto recebia pelos trabalhos que fazia, e no gostava da reputao que ele conquistara.
   Thorne refletiu sobre a nova possibilidade. A nica soluo que conseguia imaginar era deixar Cobie enfrentar Kincaid. Mas teria de fazer tudo com cuidado, de 
forma que o moleque ainda ficasse lhe devendo um favor.
   Essa era uma lio que aprendera com o chefe. No era suficiente pagar algum para fazer o servio sujo. Tinha de encontrar alguma coisa com a qual pudesse mant-lo 
sempre preso, um eterno devedor.
   Tinha de pensar em alguma coisa antes do amanhecer... Um estalido brotou do fogo, onde os gravetos secos queimavam. Cauteloso, Thorne virou-se e observou por 
alguns minutos para certificar-se de que Peel e o garoto dormiam. Ento abandonou a proteo do cobertor e, rastejando, aproximou-se da cama de Cobie.
   Ignorava a dor que parecia rasgar seu brao cada vez que se apoiava nele. Queria os alforjes do moleque. Os tolos costumavam guardar lembranas e objetos pessoais 
que podiam descortinar todo um passado, e Cobie ainda era um menino ingnuo cheirando a fraldas molhadas.
   A respirao profunda e estvel confirmava que ele dormia e, satisfeito, Thorne inclinou-se e pegou um dos alforjes.
   A presso fria do metal contra sua garganta provou que cometera um engano.
   -        Quer alguma coisa, Thorne?
   -        S... conversar - disse, soltando o alforje antes que ele pudesse perceber suas intenes. - Tive uma idia para agarrarmos Kincaid.
   Mantendo a presso da arma, Cobie sentou-se.
   -        Sou todo ouvidos.
   -        Bem, somos trs contra um - Thorne comeou, afastando-se um pouco do garoto. - Temos de mant-lo em constante movimento, sem nunca deix-lo descansar, 
alimentar-se ou aplacar a sede. Organizaremos turnos e tomaremos cuidado para no nos colocarmos ao alcance das balas do sujeito. Assim, logo o teremos em nossas 
mos.
   Cobie conteve um sorriso. Melhor no demonstrar o que pensava da ridcula mentira de Thorne.
   - Acha que  assim que quero pegar o homem? Exausto, sem foras para me enfrentar?
   -        Que diferena faz? O que importa  que o destrua, seja como for.
   Sem soltar a arma, Cobie deitou-se.
   -        Vou pensar no que disse, Thorne. E se ainda quer partir antes do amanhecer,  melhor ir dormir.
   Thorne rastejou de volta  cama. No gostava muito da sensao de ter sido vencido por um moleque. Na verdade, no sabia nem por que se sentia vencido. Assim 
que apresentara a perseguio como uma ttica para pegarem Kincaid, comeara a gostar da idia. Depois iria atrs de Rawlins para encerrar definitivamente uma velha 
misso.
   Ao amanhecer...
   Quando o primeiro sinal do novo dia iluminou o horizonte distante, o grito de Peel fez Cobie e Thorne saltarem das camas improvisadas.
   A princpio Thorne no viu nada de errado. Nenhum som suspeito, ningum  vista, nada de fumaa...
   - Que diabos est tentando fazer? - perguntou furioso, aproximando-se de Peel disposto a cham-lo  razo.
   -        Conte-os - Peel respondeu, apontando para o local onde haviam amarrado os cavalos.
   -        Cont-los? - Thorne devolveu sonolento, esfregando os olhos.
   - So quatro - Cobie anunciou. - A gua desapareceu, mas agora temos novamente os dois animais que foram roubados naquela noite diante do saloon. - E olhou para 
Thorne. - Ainda acha que devemos adotar aquela sua idia sobre perseguir Kincaid? - Afastou-se antes que o outro pudesse responder.
   -        Como isto aconteceu, Peel?
   -        No sei. Estava dormindo. Voc no disse que eu devia montar guarda. Ele esteve aqui e nos enganou. Sim, aquele Kincaid  um osso duro de roer!
   -        V fazer caf, Peel, antes que eu decida ro-lo no lugar dele.
   Peel cuspiu no cho e afastou-se. No culpava Thorne por seu mau humor, porque tambm no ficara feliz ao descobrir que Kincaid os enganara com tanta facilidade. 
Um arrepio de medo percorreu sua espinha e Peel olhou em volta, no uma ou duas vezes, mas continuamente enquanto enchia a chaleira com gua do cantil e acendia 
o fogo.
   -        O que pensa sobre o que aconteceu, garoto? 
   - Eu? Vou lhe dizer o que penso, Peel. Kincaid encontrou uma forma de nos fazer entender que est nos perseguindo.
   -        Talvez. Mas somos trs, enquanto ele est sozinho.
   -        E mesmo assim conseguiu penetrar no nosso acampamento enquanto dormamos. No se trata de uma questo numrica, Peel, mas de inteligncia e astcia.
   -        Thorne  o homem mais astuto que conheo. Ele vai encontrar uma soluo. Espere s para ver.
   
   Ty encontrou uma sombra onde poderia esticar-se e descansar por algumas horas. Gostaria de ter estado l para testemunhar o momento em que os cavalos haviam sido 
encontrados, mas tinha uma grande distncia a percorrer.
   Com sorte, conseguiria dormir um pouco antes de Dixie encontr-lo. Sabia que teria de estar em tima forma quando a encarasse.
   
   A promessa do nascer do sol fora mantida, e ao meio-dia Dixie suava. Gostaria de ter um chapu, mas no abandonaria o rastro que encontrara para ir comprar outro 
no acampamento de mineiros mais prximo. Trs conjuntos de pegadas de cavalos seguiam para o sul e, pelo que podia ver, os cavaleiros dispunham de cerca de quatro 
horas de vantagem sobre ela.
   O instinto era a nica garantia que tinha de estar na trilha certa. s vezes imaginava onde Ty poderia estar, mas logo afastava a questo da mente. No podia 
dar-se ao luxo de distrair-se.
   A grama abundante e alta indicava a presena de gua nas redondezas. Qualquer pessoa de bom senso pensaria em descansar e fugir do calor escaldante que castigava 
os campos  essa hora do dia, deixando para seguir viagem mais tarde. Adoraria parar e banhar-se em gua fria e limpa. Sabia que estava indo contra uma das principais 
regras dos cavaleiros da regio. Pensar em gua s aumentava sua sede e tornava ainda mais intensa a sensao de calor.
   Dixie no sabia dizer que ficou mais assustada, ela ou a gua, quando quatro carneiros atravessaram a trilha. Sabia que os ndios criavam os animais, e chegara 
a ver as roupas confeccionadas com a l tosquiada de forma artesanal. O que a surpreendia era que, no final das guerras Navajo, o exrcito invadira o territrio 
indgena, matara os animais e queimara muitos acres de plantao de milho. Recentemente ouvira dizer que o rebanho caprino havia sido levado de volta s reservas.
   Observando a l espessa que cobria o corpo dos animais, notou que estavam midos e respirou aliviada, certa de estar perto do curso de gua. Assim que eles desapareceram 
no alto das rochas que ladeavam a trilha, conduziu a gua para uma parte mais elevada da estrada, de onde podia observar todo o territrio em volta. Levava a mo 
no cabo da pistola, pois havia uma infinidade de esconderijos entre as pedras e rvores, e mantinha os olhos bem abertos.
   Quando Dixie posicionou-se sobre uma rocha mais alta e viu o rio correndo muitos metros abaixo de onde estava, pensou na distncia de quatro horas que a separava 
do homem que caava e tomou uma deciso: se parasse para refrescar-se e descansar, o animal tambm recuperaria as energias para seguir viagem. Ento poderiam recuperar 
o tempo perdido.
   Devagar, desceu a encosta ngreme e tortuosa at alcanar a margem do rio, e seguiu cavalgando at localizar uma parte mais protegida pelas rvores. A grama 
alta indicava que nenhum animal estivera pastando ali nos ltimos dias. Livrando a gua da sela, deixou-a beber toda a gua que quis e depois prendeu-a ao tronco 
de uma rvore, deixando-a descansar e alimentar-se sem pressa.
   Galhos secos podiam ser vistos cobrindo o cho, e ela recolheu um punhado deles para fazer uma fogueira e secar as roupas. Mantendo-se atenta ao animal, que certamente 
a alertaria caso algum se aproximasse, despiu-se e entrou na piscina natural formada por um conjunto de rochas. A areia do fundo servia como sabo para ela e as 
roupas. A necessidade de mergulhar a cabea na gua a preocupava, pois seria um momento de vulnerabilidade, mas Dixie preparou-se para enfrent-lo.
   Levantou-se com gua escorrendo pelo rosto e prejudicando a viso, e teve de esforar-se para manter o equilbrio sobre o piso arenoso que envolvia seus ps.
   A fumaa subia espessa do fogo que acendera dentro de um crculo de pedras, ocultando parte do corpo de um segundo cavalo atado ao lado de sua gua. Apavorada, 
levando as roupas molhadas apertadas junto ao peito, Dixie tentou vencer o pnico.
   Podia ver a arma sobre a sela, e calculava quais seriam as chances de alcan-la. Mais uma vez, examinou a pequena clareira. O nico sinal de que havia algum 
ali era o cavalo, mas no conseguia superar o medo. Movendo as pernas trmulas, comeou a caminhar para a margem.
   -        J estava comeando a me perguntar se ia passar o resto de seus dias naquela gua gelada.
   -        Ty?
   - Em carne e osso.
   Dixie seguiu o som da voz suave e debochada e encontrou-o numa fenda entre as rochas, alguns metros acima de onde estava. Sentia-se feliz por descobrir que ele 
estava bem, e no tentaria esconder o sentimento. S quando o viu mover-se com aquele jeito preguioso e sedutor ela lembrou-se do prprio estado.
   -        V embora.
   -        Agora no, Dixie. J pensou no que poderia ter acontecido se no fosse eu a encontr-la?
   Sentindo-se ridcula parada ali no rio, Dixie no teve escolha seno dirigir-se  margem. Tentando fingir que o ignorava, enrolou-se no cobertor pensando na incoerncia 
do que vivia. Jamais conhecera uma mulher capaz de ver no mesmo homem qualidades de heri e vilo, mas era exatamente assim que via Ty Kincaid.
   Forando uma calma que era to falsa quanto seu sorriso, mediu-o dos ps  cabea antes de encar-lo.
   - Parece estar muito bem - mentiu, notando as linhas de cansao em seu rosto e as sombras escuras em torno dos olhos azuis.
   - E voc parece muito melhor do que na ltima vez em que a vi.
   -        O que aconteceu h pouco tempo. Por que me seguiu?
   -        Meu anjo, se pudesse estar no meu lugar e ver com meus olhos, no estaria fazendo perguntas de colegial ingnua.
   -        Mas no estou no seu lugar - ela devolveu nervosa. - E nunca fui uma colegial. No tive tempo para estudar, e meu pai jamais permaneceu mais que alguns 
meses num mesmo lugar: Que escola me aceitaria?
   Ty notou o pulsar da veia no pescoo delicado, sinal evidente que estava nervosa, e experimentou uma sbita onda de ternura. Ela o enfrentava com coragem superior 
a de muitos homens que conhecera. Ainda no estava habituado ao desejo que sentia por ela, mas sabia que o excitava ainda mais quando o encarava com aquela expresso 
de orgulho e indignao.
   -        No sou nenhuma criana, Ty. No vou admitir que me trate como se eu fosse algum que precisasse de...
   -         evidente que no  uma criana - ele cortou, os olhos fixos na pequena abertura do cobertor acima dos seios rgidos.
   Um calor intenso espalhou-se por seu corpo. Dixie teve de baixar os olhos. As lembranas das mos em seu corpo e dos lbios sobre os seus obrigou-a a fech-los.
   -        Dixie? O que aconteceu?
   Sabia que ele estava muito perto. Antes mesmo de abrir os olhos e encontr-lo parado  sua frente, soube que teria de recusar o convite estampado em seu rosto.
   - Minhas roupas precisam secar - disse. - Acendi uma fogueira...
   - Eu sei. - Ele estendeu a mo para afastar os cabelos molhados de seus ombros, e sentiu a tenso em cada msculo do corpo tentador. Tambm podia sentir o calor 
que a pele suave e plida emanava. - H um assunto inacabado entre ns, Dixie, Pode fugir, se quiser, mas saiba que a seguirei at um de ns se cansar, mas no fim...
   Ela se afastou com um movimento brusco.
   -        Jamais me cansarei. Nada do que faa ou diga vai me impedir de fazer o que considero justo e necessrio.
   -        S quero que entenda como ser entre ns. Quanto a persegui-los, no ir mais sozinha.
   
   
   CAPTULO XI
   
   Dixie recusava-se a comear outra discusso com ele.
   -        Faa como quiser, Kincaid.
   -         o que tenho em mente.
   Quando Ty pegou suas roupas, ela ameaou resistir, mas permaneceu onde estava. O melhor a fazer era manter distncia desse homem. Vendo a maneira como erguia 
a camisa e a cala, franziu a testa:
   -        Qual  o problema? No esto limpas?
   Com um brilho diablico nos olhos, Ty respondeu:
   -        S estava imaginando onde est o restante.
   -        Restante? Isso  tudo que eu uso e... - E parou, sentindo o rosto quente. Furiosa, aproximou-se e arrancou as peas da mo dele. - Eu cuido delas, Kincaid.
   -        Se prefere assim... Mas lembre-se de que no vai conseguir me manter afastado me chamando de Kincaid. S faz isso quando estou perto demais.
   -        E no funciona, no ? - ela disparou, tentando descobrir um jeito de estender as roupas sem derrubar o cobertor. - Alis, dizer para me deixar em 
paz tambm no  suficiente para convenc-lo de que no quero intimidades. Tem a couraa dura como a de uma tartaruga!
   -        Pelo menos est pensando no meu corpo.
   - Kincaid! Voc  capaz de acabar com a pacincia de um santo, e Deus sabe que no sou nenhuma santa. - Gostaria de poder ver o rosto dele, mas Ty fora esconder-se 
entre os galhos mais baixos de uma rvore. A risada abafada a irritou ainda mais.
   - Agradeo aos cus por no ser santa. No conheo um nico homem normal capaz de interessar-se por uma. - Abandonou o esconderijo. - Quer me dar essas roupas, 
antes que eu enlouquea pensando na possibilidade de o cobertor cair?
   Dixie jogou as roupas molhadas contra o peito dele e voltou para perto da fogueira. Era uma idiota por ainda discutir com um homem cuja cabea tinha a densidade 
de uma rocha.
   - Por que no diz o que veio fazer aqui, Kincaid? 
   - Trouxe um presente para voc.
   - Um presente? - Ela olhou em volta com curiosidade evidente.
   - Anjo, est procurando por algo pequeno, e o presente a que me refiro  grande, embora tenha conseguido escond-lo muito bem. Olhe para trs,  esquerda.
   Dixie virou-se e viu a gua. Ao lado dela havia outro animal e, tomando cuidado para no tropear na ponta do cobertor, aproximou-se deles.
   No conseguia acreditar no que via! Sofrera muito pensando na gua que deixara no saloon ao fugir apressada, e de repente descobria que Kincaid a escondera! 
Afagando o focinho gelado do animal, aproximou-se lentamente at encostar o rosto no pescoo peludo.
   Sabia que Ty estava parado atrs dela e, sem se virar, disse: 
   - Pensei que nunca mais voltaria a v-la. O nome dela  Apache por causa da flecha desenhada em sua testa. Meu Pai... - A voz tremeu e ela fechou os olhos. As 
mos de Ty eram quentes e reconfortantes em seus ombros. A voz e as palavras tambm ofereciam conforto e proteo.
   - Se quiser chorar, juro que no vou cham-la de fraca. J disse que admiro sua coragem. Gostaria de poder... Um soluo sacudiu seu corpo e ela se virou para 
abra-lo.
   -        No quero chorar. No quero sofrer sempre que me lembrar dele.  capaz de entender por que  to importante punir o assassino de meu pai? Ele era um 
bom homem, Ty. No devia ter morrido s porque algum queria sua terra. No devia ter morrido quando eu precisava tanto dele.
   A voz triste rasgava o corao de Kincaid. Ele a mantinha entre os braos, desejando poder reconstruir o mundo que ela perdera e jurando para si mesmo que o recuperaria.
   -        Meu bem, escute - sussurrou, afagando os cabelos espessos e molhados. - J vi homens maiores e mais forte que voc ultrapassarem os prprios limites 
de tolerncia. Voc alcanou essa fronteira h muito tempo.
   Ela levantou a cabea e exibiu os olhos brilhantes, cheios de lgrimas que ela se recusava a derramar. Ty a queria tanto que tremia de desejo, mas tambm descobria 
que era capaz de abrir mo da prpria necessidade de proteg-la.
   -Quero que me prometa que vai passar a noite aqui. No, Dixie, escute - pediu, notando que ela pretendia argumentar. - Eles esto acampados cerca de seis quilmetros 
rio abaixo, tentando descobrir como troquei os cavalos sem que acordassem. Ouvi o suficiente para deduzir que garoto est pensando em separar-se deles. E mesmo que 
ele se afaste do grupo, quero pegar os trs. E se saber a localizao dos bandidos no  suficiente, ouvi troves distantes. Caso haja uma tempestade como a que 
prevejo, eles no podero cavalgar to cedo. Promete que vai ficar aqui?
   No sabia que tipo de reao esperava, mas com certeza, no era aquela. Depois de um rpido e silencioso movimenta; afirmativo com a cabea, ela afastou-se devagar.
   - Dixie? - Esperou que ela o encarasse para prosseguir. - Vai dar tudo certo. - E, com voz mais fria, decidiu: -Eu mesmo cuidarei para que tudo acabe bem.
   - Tem razo sobre eu ter ultrapassado os limites, Ty. No posso mais lutar contra voc.
   Dixie foi sentar-se no sol, enquanto Ty estendia as roupas molhadas sobre os galhos mais baixos das rvores. Encolhia-se cada vez que levantava o brao, porque 
a ferida no ombro ainda estava aberta. O tom derrotado de Dixie o incomodava. Preferia ser alvo de seus comentrios ferinos a v-la deprimida e abatida.
   Os olhos estavam fechados, a cabea inclinada para trs e o rosto voltado para o sol. Sabia que no podia pression-la agora, mas tambm no conseguia ficar longe 
dela.
   
   Dixie ouvia os passos dele, mas achou mais seguro manter os olhos fechados. A tentao de v-lo podia ser grande demais. No podia confessar a Ty o medo que experimentava 
cada vez que se aproximava dele. No tinha certeza de poder faz-lo entender como sentia-se vulnervel, como ele a levava a acreditar na possibilidade de ser novamente 
uma mulher capaz de sonhar, e como isso a assustava. A nica coisa de que tinha certeza era que no podia correr o risco de revelar o que sentia, porque isso exigiria 
um nvel de confiana muito profundo de sua parte.
   Confiana, como controle, eram coisas de que no dispunha no momento.
   - Dixie? - Ty sussurrou, ajoelhando-se ao lado dela. Ela murmurou uma resposta qualquer. O calor do sol e a presena forte a seu lado baniam a tenso de seu corpo, 
deixando-a sonolenta. Mas abriu os olhos rapidamente ao sentir a mo dele em sua cabea enquanto deslizava a escova por seus cabelos molhados.
   - No, por favor! No se mova. H muito tempo sonho com isto. Por favor, deixe-me pente-la. Deixe-me cuidar de voc.
   Pensou em como ele havia falado sobre a noite em que a vira escovando os cabelos no acampamento e, fechando os olhos, espantou-se com as imagens provocantes sugeridas 
pela idia. Ty tinha as mos leves, e o movimento da escova era agradvel, relaxante.
   No conseguia lembrar a ltima vez em que algum... No! No deixaria o passado interferir nesse momento. Queria a paz que a cercava, e precisava tanto de um 
pouco de carinho que permaneceu imvel, temendo mover-se e quebrar o encanto.
   Ao v-la inclinar a cabea, Ty no resistiu e depositou um beijo delicado na curva de seu pescoo, afastando-se antes que ela pudesse rejeit-lo.
   A pele suave brilhava pela exposio ao sol. Sob o cobertor, os seios eram como segredos tentadores esperando pelas mos que os revelariam ao mundo. Pequenas 
gotas de gua desciam pelo vale formado por eles, e os mamilos rgidos podiam ser vistos nitidamente atravs do tecido fino que os cobria. Gostaria de ter produzido 
aquele mesmo efeito com as mos e os lbios. Um tremor o sacudiu.
   -        Ty? Qual  o problema? Sei que meu cabelo deve estar embaraado, especialmente depois de ter sido lavado, mas...
   -        No  nada. - E voltou a escovar os cabelos longos e escuros, tentando contentar-se com os gemidos sonolentos de satisfao.
   Dixie estava aliviada por ter falado com voz firme, sem trair o que sentia. Era cada vez mais difcil conter os sons de prazer que tentava abafar. As mos dele 
eram suaves, e Ty tocava-a como se fosse um objeto frgil e precioso, uma jia a ser preservada e admirada, no destruda.
   Como ele no fez nenhum movimento para tentar aprofundar a intimidade entre eles, alm do beijo rpido e suave em seu pescoo, Dixie sentiu que o restante da 
tenso abandonava seu corpo. Sabia que Kincaid a queria. No havia como disfarar a excitao que se tornava evidente atravs do tecido grosso da cala. Mas tambm 
tinha conscincia de que ele no a pressionaria, nem exigiria algo que ela no estava preparada para oferecer.
   Ty massageou sua cabea, absorvendo o calor com a ponta dos dedos. Pensou em sentir as longas mechas sedosas sobre seu corpo e experimentou uma estranha opresso 
no ventre, como se algo estivesse prestes a explodir. As mos pararam de repente.
   Ela abriu os olhos, piscou contra a luz clara do sol e fechou-os novamente.
   - No precisa terminar, Ty. Sei que  uma tarefa difcil e demorada, mas  a nica vaidade que ainda me permito.
   - Jamais corte os cabelos, Dixie. E quero que saiba que no me sinto realizando uma tarefa. Acho que sinto tanto prazer com isto quanto voc. - Vendo que ela 
sorria, inclinou-se e beijou sua cabea. Os clios longos e escuros lanavam sombras delicadas sobre o rosto, e queria beijar aqueles pontos, tambm, mas continuou 
escovando os cabelos molhados at que eles cassem como um manto brilhante sobre os ombros e as costas femininas. - Retiro o que disse. O meu prazer deve ser muito 
maior que o seu. - Abandonando a escova, afagou os cabelos sedosos. - Toc-la  mais que um prazer.  uma glria - murmurou, sentindo as mechas macias nos dedos.
   De repente Dixie fez um movimento brusco e segurou uma das mos dele. Puxando-a, levou-a aos lbios e beijou-a.
   -        Obrigada, Ty.
   -        Como disse, o prazer foi todo meu.
   De repente a luz do sol desapareceu. Abrindo os olhos, ela viu o rosto de Ty sobre o dela, perigoso e dominado pelas sombras. Era como estar diante de um anjo 
vingador, de um demnio tentador e irresistvel. Uma nsia poderosa a invadiu.
   Soltando a mo dela, Ty tocou-a no rosto.
   - Sabe que est segura comigo, Dixie. To segura quanto quiser estar.
   As palavras, como o toque, representavam outro tipo de carcia para ela. E mais um golpe contra a muralha de defesa que erguera em torno de si mesma. Teve de 
fechar os olhos contra a intensidade do desejo provocado pela sensao dos lbios sobre os dela.
   Fome. A sensao era a mesma. A idia de vingana deixou de ocupar o centro de sua mente, e isso a apavorava. O desejo que experimentava por Ty era forte o bastante 
para destruir o controle com que protegera-se durante os ltimos meses.
   O corpo todo tremia, antecipando o prazer de sentir o fogo ardendo novamente. Ty s tinha de beij-la para provocar a fasca.
   Sentiu a presso dos dentes na ponta da orelha e foi sacudida por uma exploso de sensaes. Em seguida foi a vez da lngua traar o contorno de cada curva, dificultando 
a respirao. Estava descobrindo que os beijos existiam em muitas formas, mas, vindos de Ty, todos eram capazes de faz-la arder.
   - Pare de fugir de mim, Dixie. Todos ns temos um pouco de caa e caador. Quanto mais voc tentar escapar, mais avidamente eu a perseguirei. Um de ns acabar 
se cansando, mas no arriscaria meu dinheiro apostando no vencedor.
   A idia de possu-la fazia o sangue ferver em suas veias. A respirao ofegante, o leve tremor do corpo e os lbios distendidos o incentivavam a prosseguir, e 
ento ele a beijou na boca com um misto de esperana e medo.
   O sol voltou a aquecer seu rosto e Dixie soube que ele havia se movido antes mesmo de abrir os olhos. Ty?
   A gua do rio parece convidativa. Ele despiu a camisa, fechando os olhos por um momento ao pux-la por cima da cabea. Quando voltou a abri-los, Dixie havia desaparecido. 
E as roupas dela no estavam mais onde as deixara.
   - Fugindo outra vez? J disse que...
   - No, Kincaid. No estou fugindo. Apenas sinto-me melhor vestida.
   Que direito tinha de censur-la por tentar escapar, se estacava fazendo o mesmo? No pensara realmente em afastar-se. Apenas quisera provar que era capaz de 
parar a qualquer momento. Mas o corpo recusava-se a obedecer as ordens da mente. Queria essa mulher, e a idia de possu-la o enlouquecia.
   - No seja tola, Dixie! No pode vestir roupas molhadas - apontou, virando-se para o rio a fim de proporcionar a ela alguma privacidade entre os galhos da rvore.
   -        No ser a primeira vez. Pare de se preocupar coninigo, Ty.
   -        No posso impedir.
   Dixie ouviu o barulho de gua e espiou por entre as folhas. O sol banhava os msculos firmes das costas de Ty, e s a fixa branca do curativo feito por Lvia 
em seu ombro interrompia o bronzeado uniforme e profundo. A mo massageava a nuca como que para aliviar a tenso provocada pela fadiga. Ou seria desejo? O mesmo 
desejo que a levara a fugir e esconder-se mais uma vez.
   Convencera-se de que no podia confiar nele totalmente, mas aceitara sua palavra a respeito do paradeiro de Thorne. Aceitara a previso sobre a possibilidade 
de uma tempestade que impediria o assassino de seu pai de escapar.
   E continuava espiando enquanto ele usava a areia do fundo do rio para limpar-se, invejando as mos que tocavam o corpo imponente. Mesmo  sombra da rvore, o 
calor era intenso. O suor banhava sua pele e ela ansiava pelo frescor da gua que cintilava sobre os ombros de Ty.
   Ele se inclinou, tentando no molhar o curativo enquanto lavava os cabelos. Depois balanou a cabea e virou-se.
   - No me importaria com um pouco de companhia, Dixie!
   O convite provocou um arrepio que a percorreu dos ps  cabea. Kincaid sabia que o observava e, numa tentativa de mostrar-se aberta e desinibida, ela abandonou 
o esconderijo.
   A brisa era quente e perfumada com a promessa da chuva, mas estava ocupada demais enfrentando a tempestade formada pelas prprias emoes.
   Queria Ty, mas entregar-se a ele significava entregar sua confiana, tambm. Ele dizia no querer complicaes, e ansiava por mais que um simples encontro fortuito 
e breve. Se aprendera alguma coisa durante os meses que passara perseguindo Thorne, havia sido que o que queria e o que poderia ter jamais coincidiriam.
   -        Dixie, estou saindo.
   Aproximando-se da margem, levou o cobertor mido at bem perto da gua.
   -        Ento vai precisar disto - disse.
   Os olhos azuis tornaram-se mais escuros e, seguindo a direo indicada por eles, notou que no acabara de fechar a camisa. Por alguns instantes apreciou a perfeio 
dos msculos poderosos e das linhas harmoniosas do corpo msculo.
   De repente jogou o cobertor no cho e voltou para perto da fogueira.
   Ty no disse nada. Saiu do rio, enxugou-se rapidamente com o cobertor e vestiu a cala. Culpava-se por t-la feito fugir mais uma vez, mas sabia que havia sido 
melhor assim.
   - No quero que pense que estou tentando escapar novamente, Ty - ela comeou, tentando abotoar a camisa.
   - Voc quer partir.
   No era uma pergunta, mas Dixie achou melhor responder assim mesmo.
   - Acho que  o melhor que tenho a fazer. Voc mesmo disse que no queria complicaes. Tambm no estou ansiosa por mais problemas. Talvez tenhamos tempo quando 
tudo isso acabar.
   -        S preciso saber uma coisa. Acredita no que eu disse sobre o paradeiro de Thorne e seus companheiros? 
   - Eu...
   -Sim, ou no? Quero saber se confia em mim, se acredita que disse a verdade. Porque, se no  capaz de confiar em mim, ento  melhor montar e desaparecer de 
uma vez por todas.
   Odiava a maneira como ele a forava a fazer escolhas para as quais no estava preparada. Mas no havia como argumentar com o tom firme e determinado de sua voz. 
Sentiu-se tentada a encar-lo, mas resistiu.
   -        Acredito em voc. - As palavras eram um mero sussurro, mas sabia que ele as escutara. Sabia e imaginava que tipo de compromisso acabara de assumir.
   -        Ento, fique comigo - Ty murmurou.
   
   
   CAPTULO XII
   
   De olhos fechados, Dixie jogou a cabea para trs como se buscasse orientao divina.
   -        No faa isso comigo - suplicou. - Estou assustada com a necessidade que sinto de estar com voc.
   Estava sendo honesta, franca, quando sabia que podia usar todos os truques femininos de que dispunha. O comportamento de Dixie o obrigava a retribuir com a mesma 
honestidade. Alm do mais, no havia nada de vergonhoso em admitir os sentimentos.
   -        Acha que tambm no estou apavorado? Nunca quis uma mulher da forma que a desejo. No me pea respostas, porque no as tenho.
   Um trovo distante cortou o silncio da tarde. Kincaid olhou para o alto das montanhas.
   -A tempestade se aproxima, como eu previ. Mas h outro temporal se formando bem aqui, onde estamos. A deciso  sua.
   Primeiro a forava a escolher, e agora a desafiava.
   -        O que quer de mim, afinal?
   O toque da mo sobre seu ombro no a surpreendeu. Sabia que ele podia mover-se no mais absoluto silncio. Sentiu o calor e a fora dos dedos sobre a pele e, de 
um instante para o outro, o toque transformou-se na carcia de um amante.
   -        Fale de uma vez, Ty. O que quer de mim?
   -        Apenas que no tenha medo. Que saiba que no vou feri-la. Precisa acreditar que no pretendo apenas tirar prazer de voc, mas dividir o prazer que dois 
adultos podem encontrar juntos.
   Ela abaixou a cabea e apoiou-se nele.
   -        S isso?
   -         um comeo, no? - Abraou-a. - Sei que est enfrentando momentos difceis. No pedi para me dizer tudo que aconteceu, e nem vou invadir sua intimidade. 
Tem todo o direito de guardar segredo sobre o seu passado, especialmente porque respeita o meu direito de fazer o mesmo. Desejo voc, e quero ouvi-la admitir que 
me deseja sem medo. Sem recriminaes e sem acusaes. No quero que mais tarde me acuse de ter tirado proveito de sua...
   -        H algo que precisa saber, Ty. Nunca estive com um homem.
   -        Nunca...?
   -        Est chocado?
   -        No... No!        
   -Que tal um pouco de honestidade, Ty? Est mentindo! Posso ver o espanto em seus olhos. No esperava por isso, no ?
   Sabia que a revelao mudava tudo, e gostaria de poder esconder a dor que fazia tremer sua voz. Nunca imaginou que pudesse dar tanta importncia ao que ele pensava 
a seu respeito.
   - Voc me deixa to confuso, que no sei se devo uivar para a lua ou cair de joelhos a seus ps pedindo perdo.
   -        Voc no  homem de cair de joelhos nem de uivar para a lua - Dixie gracejou
   L estava aquela desconcertante honestidade outra vez. No tinha armas para combat-la.
   -Tem razo. Sendo assim,  voc quem deve decidir. S precisa dizer, Dixie, e a deixarei em paz para sempre. Diga no.
   -        Gostaria de poder dizer no. Gostaria de querer rejeit-lo. Mas no posso mentir para voc.
   -        No estou fazendo promessas.
   Arrependeu-se das palavras assim que elas saram de sua boca. Dixie abaixou a cabea para esconder as lgrimas que enchiam seus olhos, controlou-se rapidamente 
e, em segundos, encarou-o novamente. Havia paixo naquele olhar, um sentimento to forte que o fazia doer de desejo e medo. Uma estranha mistura de emoes que 
jamais experimentara.
   Trmula, Dixie ergueu as mos para segurar o rosto de Kincaid.
   - No estou pedindo para fazer promessas, Ty. Na verdade, tambm no posso faz-las. - Beijou-o.
   Foi um beijo apaixonado e provocante, determinado quase que exclusivamente pelos movimentos de Dixie. Ela protestava inocncia... Ty queria acreditar. Nenhum 
homem... No! No podia pensar nisso agora.
   A mulher do sorriso angelical e do toque de fogo caa sobre ele como uma tempestade sobre a terra rida. Sem disfarces. Sem receios. Apenas com uma generosidade 
e uma autenticidade que o enlouqueciam.
   Queria ser gentil com ela.
   Mas ela no permitia gentilezas.
   Havia um incndio naquele corpo sinuoso. Exatamente o que procurava numa mulher. O sabor da pele macia explodia em seus sentidos, intensificando a fome que o 
dominava. Ela era delicada e esguia, mas havia fora em seus movimentos. Os braos o enlaavam, os dedos afagavam seus cabelos e exploravam sem timidez.
   Ela se abria como uma flor para os primeiros raios de sol. Ele aceitava o que  lhe era oferecido e exigia mais. Muito mais.
   O som rouco de aprovao e prazer vibrou em sua garganta. Dixie o captou e respondeu com um gemido sensual. Podia deter a loucura. Devia det-la! Mas havia tanto 
poder num nico beijo, tanta fora nos braos que a seguravam, que s pensava em ir adiante, em conhecer todos os segredos que at ento nunca tentara descobrir. 
Mais tarde pensaria nas consequncias. Mais tarde...
   Havia um vazio em seu peito, uma nsia que s poderia ser saciada pelo verdadeiro amor. O corpo e o corao clamavam por algo que no conhecia, mas que podia 
imaginar. Conhecia os riscos. Ty era um homem com quem poderia partilhar mais que uma paixo. No. Melhor sufocar a esperana. A dor da frustrao seria insuportvel. 
Era mais fcil deixar-se levar pela paixo que a afogava como um mar revolto.
   Murmurando seu nome, Ty deslizava as mos por seu corpo na nsia de tocar, explorar, conhecer e possuir. Precisava t-la agora! Como precisava de comida e repouso 
depois de um dia de trabalho duro. Como precisava de gua depois de uma caminhada no deserto.
   Dixie estava prestes a perder o controle. Precisava dele para preencher o vazio que ameaava devor-la, mas no sabia como pedir. E a urgncia da necessidade 
era assustadora, porque parecia rasg-la como uma lmina afiada. De repente ele parou e fitou-a. Os olhos azuis estavam mais escuros, dominados pelas pupilas dilatadas, 
e a respirao ofegante lembrava a de um animal em busca da presa.
   -        Ty?
   - Est tudo bem, anjo. Voc acendeu uma fogueira que est me fazendo arder, s isso.
   -        E acha que  bom ou ruim? Quero dizer, tambm me sinto ardendo por dentro e...
   O beijo a impediu de prosseguir. As palavras ingnuas o empurraram para o centro do braseiro e, incapaz de conter-se, Ty tomou a iniciativa de coloc-la sobre 
o colo, balanando-a delicadamente sobre a evidncia do desejo que o sufocava. Surpreso, percebeu que ela correspondia sem hesitar, acompanhando o ritmo lento e 
sensual com o prprio corpo. Encorajado pela resposta, massageou os seios rgidos desejando poder toc-los sem a barreira das roupas, sentir o sabor da pele delicada 
e faz-la enlouquecer com carcias mais ntimas.
   - Ty, por favor...
   Mais um passo na direo do abismo. Devagar, abriu os botes da camisa de algodo e puxou-a de encontro ao peito.
   Dixie sentia-se vulnervel e exposta, mas no tentou conter o movimento que os colocou deitados lado a lado sobre a relva. Ty a examinava com um sorriso de satisfao 
nos olhos, como se a viso de seu corpo seminu fosse o portal do paraso. No havia mentiras entre eles, e por isso sentia-se livre para toc-lo, tambm. Devagar, 
ergueu a mo e pousou os dedos sobre o peito musculoso e bronzeado.
   - Isso mesmo - ele sussurrou. - Toque-me como quiser, onde quiser. Da mesma maneira que pretendo toc-la, anjo.
   Antes que pudesse perguntar o que ele queria dizer, as mos acariciaram seus seios nus e os lbios desenharam uma trilha de beijos sobre a pele sensvel. 0 calor 
da boca uniu-se ao calor do sol, fazendo-a suar. Dominada pelo prazer selvagem que ele proporcionava, segurou a cabea contra o peito e gritou ao sentir a lngua 
mida e quente em seu seio.
   Ty afogava-se no cheiro da pele banhada pelas guas do rio. Podia sentir nos lbios o pulsar daquele corao, um ritmo to alucinado quanto o que ecoava em seu 
corpo.
   No havia splicas, nem lgrimas. Dixie compreendia que esse no era o momento para suavidade. Podia ser inocente, sim, mas reconhecia a paixo primitiva e elementar 
que os unia. De olhos fechados como se estivesse em transe, ela gemia e contorcia-se enquanto Ty usava lbios, dentes e lngua para despertar o mais feroz desejo, 
provando o sabor de cada centmetro de pele nua e quente. Os quadris moviam-se num ritmo mais antigo que o mundo, impulsionados por uma fora da natureza que nenhum 
homem ou mulher conseguira sobrepujar. Ondas de prazer a sacudiam, as costas inclinadas num abandono to completo que Kincaid sentia-se emocionado.
   Os corpos buscaram-se quando as bocas encontraram-se. Ty tambm gemia, consumido por um fogo intenso e rpido que ameaava devorar tudo que encontrasse. s cegas, 
enlouquecidos pela paixo, despiam-se com movimentos trmulos e incertos. Kincaid a fez deitar-se sobre a relva e, nu, acomodou-se sobre ela. Dixie estava excitada 
demais para sentir vergonha, e elevou as pernas numa oferta silenciosa e completa. Mas recusava-se a fechar os olhos. Queria v-lo, pois precisava saber por que 
esse homem a fazia sentir como se a rendio no fosse uma derrota, mas uma vitria. Um risco. Um que jamais decidira assumir. Que nunca havia sido tentada a enfrentar. 
Mas correria todos os riscos por Ty. E com ele. Se estava dominada por emoes que no conhecia e no podia controlar, ele no estava menos envolvido.
   Ty comeou a penetr-la e ela gemeu, incapaz de esconder a dor. O movimento prosseguiu e, para abafar um grito, ela cravou os dentes em seu ombro.
   Ento ele ficou quieto, imvel, a cabea ereta para poder fit-la nos olhos.
   -        No... - Dixie sussurrou.
   - No queria machuc-la.
   -        Eu sei que no. - Tocou a marca deixada pelos dentes na pele bronzeada. - Agora voc tem dois ferimentos. E eu tambm no queria machuc-lo.
   -        Farei com que isto seja muito bom para voc, anjo. Prometo. 
   - No me pea para parar! As palavras no ultrapassaram a barreira da mente. Nada podia ser to bom. Nunca sentira prazer to completo e intenso. Queria voltar 
a mover-se e enterrar o rosto nos cabelos macios e sedosos.
   Os dedos delicados tocaram seus lbios. Mantendo os olhos fixos nos dele, Dixie sussurrou:        
   -        Sem promessas. Lembra-se?
   -        Sim, eu me lembro. - Mas as palavras eram amargas, sem convico. Porque de repente queria promessas. Queria ouvi-la jurar que seria s dele, que nenhum 
outro homem...
   As mos deslizando por suas costas interromperam o fluxo de pensamentos. Prendendo o flego, esperou que ela tocasse o final da coluna, bem perto do quadril, 
e viu o sorriso que bailava em seus lbios.
   -        Dixie?
   - Beije-me, Ty. Quero sentir o prazer que vem antes da dor. - E, para reforar o pedido, acariciou-o e puxou-o de encontro ao corpo num convite irrecusvel. - 
Sim,  isso mesmo... - gemeu. - Quero...
   - Diga meu nome, Dixie. Diga que quer sentir-me dentro do seu corpo. Diga que precisa de mim neste momento. Ela lutava com as palavras, tentando controlar a respirao 
ofegante enquanto ele a penetrava lentamente. Depois de alguns instantes, Ty comeou a retroceder.
   - No!
   - Ento diga - ele exigiu. E descobriu o que era estar no inferno. A resistncia firme que envolvia sua carne parecia acarici-lo cada vez que respirava.
   -        Ty, por favor. Eu... - No conseguiu concluir o raciocnio. Um movimento sutil e circular dos quadris sobre os dela a fizeram perder o flego. No podia 
fechar os olhos. Olhando para o rosto sobre o dela, viu o suor que o cobria enquanto ele esperava, imvel e tenso. Sua aparncia era sombria, quase selvagem, os 
olhos to escuros que o azul transparente quase no podia ser visto.
   -        Quero voc - Dixie sussurrou por entre os dentes. - Quero senti-lo dentro do meu corpo, Ty. Voc. S voc!
   Ento ele comeou a mover-se, pousando a boca entreaberta sobre a dela para beber os gritos de prazer.
   Dixie fechou os olhos e respirou fundo, deixando-se inundar pelo aroma da relva esmagada sob seu corpo. O calor que brotava de seu ventre espalhava por todas 
as clulas, incendiando a pele aquecida pelo sol. Ty acelerou o ritmo dos movimentos, pressionando-a com o prprio peso, e logo ela compreendeu que o controle chegava 
ao fim. Havia desespero em cada gesto, como se nada mais importasse seno possu-la. Ouvia a respirao ofegante, difcil, e os estrondos distantes dos troves. 
Mas nada podia ser comparado ao galope enlouquecido de seu corao.
   E do dele.
   A tenso crescia numa espiral que parecia invadir cada recanto de seu ser, transformando-se numa insuportvel necessidade. Gritava o nome dele num misto de splica 
e exigncia.
   E ouvia a respirao de Ty, cada vez mais rpida.
   E a dela. Pensou na fora, no poder e na resistncia do corpo sobre o dela, e na prpria impotncia diante de tamanho esplendor. O prazer a guiava num ritmo 
que era selvagem, profundo... quente.
   Estava ardendo.
   No podia respirar.
   Rendio completa. Sem restries. Ty oferecia o que estava pedindo.
   - Agora... Tem de ser... - ele ruminou as palavras. A tenso explodiu com fora avassaladora.
   - Abrace-me! - Dixie pediu.
   Ele a tomou nos braos no exato instante em que uma onda brotou de seu ventre e espalhou-se por todo o corpo sacudindo com tremores sucessivos que misturavam-se 
aos sentimentos que a deixavam aturdida, apavorada.
   - Minha - ele murmurou, o corpo tremendo sobre o dela.
   No!, ela negava em silncio enquanto saboreava a mais completa e doce satisfao.
   
   
   CAPTULO XIII
   
   Como se pudesse ter ouvido a negao silenciosa, Ty ergueu a cabea e encarou-a. Dixie mantinha os olhos fechados na tentativa v de fugir  realidade. Ele 
se apoderara dos segredos de seu corpo, mas no tinha direito aos mistrios de seu corao.
   Sem promessas, lembra-se?
   Ty bloqueou as recordaes que devia esquecer. As regras do jogo haviam mudado.
   Devagar, inclinou a cabea para beij-la nos lbios. Afastando os cabelos que emolduravam o rosto corado, afagou-o com a palma da mo.
   -        Olhe para mim, anjo. Quero ter certeza de que est bem.
   Numa atitude lnguida e relaxada, Dixie murmurou sons suaves, resistindo  fora que tentava arranc-la do delicado estado de satisfao em que mergulhara.
   -        Eu a machuquei? - Ty perguntou com voz trmula. Ela no se movera, mas podia apostar que comeava a afastar-se. A raiva sbita o pegou de surpresa. 
Deixando os braos sustentarem o peso do corpo, debruou-se sobre ela. Era uma horrvel agonia separar-se de Dixie, porque ainda podia sentir os leves arrepios que 
a percorriam.
   Ficou deitado ao lado dela, usando um brao para proteger os olhos contra a claridade e tentando descobrir como algo to delicioso, to completamente satisfatrio, 
pudera transformar-se em algo to amargo e doloroso. A culpa era dele. Uma mulher merecia palavras doces, carcias delicadas, e cara sobre ela como um andarilho 
lutando pela sobrevivncia. Sempre tivera jeito com as mulheres. Era uma das poucas caractersticas que dividia com o irmo mais velho, Conner. Logan era diferente, 
duro de agradar, e vivia jurando que jamais se casaria. Ty sempre fora forado a concordar, porque sabia que nenhuma mulher suportaria o gnio carrancudo e o mau 
humor constante.
   Na verdade, tambm jurara que nunca se casaria. Casamento? De onde havia tirado essa idia? Sabia que estava sendo irracional, mas virou-se de lado para fitar 
Dixie. Ela era a culpada pela direo de seus pensamentos.
   Dor e culpa o invadiram no momento em que viu as lgrimas correndo pelo rosto corado. Ela no emitia um nico som, mas tinha certeza de que no chorava de alegria.
   - Dixie? - Tocou sua face, obrigando-a a fit-lo. - Devia ser morto pelo que fiz com voc. Juro que tentarei reparar meu erro, mas no se afaste de mim, por favor. 
No seria capaz de suportar esse castigo.
   O polegar secava as lgrimas abundantes enquanto Ty travava uma batalha ntima e silenciosa. Conhecia os perigos do territrio, sobrevivera ao sopro da morte, 
mas corria o maior de todos os riscos ao lado dessa mulher frgil e judiada pela vida. Corria o risco de perder o corao, de apaixonar-se por essa criatura que 
tanto desejava chamar de sua.
   A terra era inclemente e Ty tambm era duro quando tinha de censurar-se. Sabia que havia cometido um engano. A febre que ela provocara ainda no fora debelada. 
Um encontro no bastara. Dixie precisava saber o que ele sentia, mas as palavras estavam enroscadas em sua garganta. Tudo que pde fazer foi sussurrar seu nome e 
pedir para abrir os olhos, para fit-lo, para dizer que no estava ferida.
   
   Afaste-se dele, Dixie repetia para si mesma, sabendo que era a nica proteo de que ainda dispunha. Ty a levara a enfrentar uma batalha pessoal e dolorosa, uma 
luta que comeara desde o primeiro instante, quando compreendera como ele podia ser perigoso para sua paz de esprito.
   Em seus braos tornara-se mulher. Sim, sentira dor, mas o fogo da paixo havia sido mais forte. Tentara no ouvir os gemidos doces da voz profunda, esforara-se 
para ignor-los, sempre sabendo que fracassaria. Os beijos delicados, o toque, tudo despertara o desejo que ainda aquecia seu corpo.
   Podia admitir para si mesma que ainda o queria. Mas no podia perdo-lo.
   Virando-se de lado, deu as costas para ele.
   - Droga, Dixie! Olhe para mim! Fale comigo!
   As palavras no ultrapassavam a barreira da garganta. E mesmo que conseguissem chegar aos lbios, Dixie sabia que no seria capaz de pronunci-las. Ele a fizera 
sonhar outra vez. A nica coisa que no podia fazer enquanto no realizasse sua vingana. O fato de t-la feito esquecer, de faz-la desejar esquecer, era imperdovel. 
E era mais culpada que ele. Era doloroso saber que a beleza dos momentos que haviam acabado de compartilhar fora maculada. Dizer a verdade seria como expor a prpria 
alma. No teria mais o poder de assumir o controle.
   Mas mesmo enquanto tentava livrar-se da mo que a segurava e levantar-se, reconhecia que nada a faria mais feliz do que sentir os braos fortes em torno de seu 
corpo.
   - No faa isso.
   O poder cortante da voz contida e fria, desprovida de raiva e cheia de desprezo, a fez encolher-se. Tinha de ser forte. Precisaria de uma fora que jamais tivera 
para afastar-se dele. Ty no podia saber como era importante para ela.
   Foi com esforo que recolheu as roupas sem encar-lo. Kincaid no se movera. Apenas a observava, os olhos refletindo a mesma frieza que revestira suas ltimas 
palavras.
   - Onde pensa que vai?
   - Terminar o que comecei - ela respondeu sem emoo. As mos tremiam e ela praguejou em voz alta quando no conseguiu fechar a camisa. Os olhos voltados para 
a gua traam o desejo de arrancar da pele as recordaes doces. Precisava aplacar o fogo que ameaava consumi-la. Se um abrao frio era tudo de que podia dispor 
para conter a fria da paixo que fosse!
   Mas um rpido olhar na direo de Ty a fez mudar de idia. No podia correr o risco de permanecer ali mais do que o necessrio.
   
   Ty seguiu a direo de seus olhos e encontrou o rio. O vento era mais fresco e agitava a superfcie da gua. Devia estar fazendo alguma coisa para det-la, mas 
a raiva o paralisava.
   Depois de tudo que haviam vivido juntos, e sabia que fora maravilhoso, Dixie ainda no podia confiar nele. No! Podia... mas no queria. A teimosia e o orgulho 
ainda eram os sentimentos dominantes.
   A mulher era um problema com o qual no estava certo de saber lidar. Mas, apesar de ter se agarrado  raiva e jurado que a deixaria ir embora, se quisesse, surpreendeu-se 
levantando-se e vestindo as calas.
   -        Espere a, Rawlins! No vai a lugar nenhum sozinha!
   Dixie recusou-se a reconhecer a afirmao com um protesto. Havia decidido ignor-lo, e por isso teria de ignorar tambm trado que ele dissesse.
   - Sua teimosia no tem razo de ser nem qualquer utilidade. Veja o que se aproxima sobre as montanhas, Dixie. Devamos estar procurando abrigo. Thorne no ir 
a parte alguma.
   - Maldio! - ela explodiu furiosa, virando-se com um movimento brusco que o pegou de surpresa e o fez derrubar a bota que tentava calar. - Por que tem sempre 
de incluir-se nos meus planos? Nunca o convidei a participar do meu projeto de vida. Quero que saia de perto de mim, Kincaid! J teve o que queria. Agora suma!
   - Talvez tenha realmente obtido tudo que era possvel. A julgar pela sua reao, no h mais nada a esperar de voc.
   Gostaria de poder ler a mensagem estampada naqueles profundos olhos azuis, mas eram emoes complexas, sombrias e ameaadoras. Raiva. Podia v-la claramente. 
Mas tambm havia sofrimento e a dor de ter sido trado transbordando daqueles olhos. Como ele podia estar experimentando as mesmas emoes que a faziam ferver por 
dentro?
   Como faria para mand-lo embora, de forma que pudesse sofrer em paz e sem platia?
   Dixie respirou fundo e, devagar, soltou o ar pela boca. A postura de Kincaid sugeria hostilidade, e o rosto era uma mscara de arrogncia. O vento agitava seus 
cabelos e brincava com a camisa deixada solta para fora da cala. Por um momento ela fechou os olhos, lutando contra a lembrana de ter tocado o corpo que, apesar 
de tudo, ainda despertava um imenso desejo no seu.
   - Tem razo, Ty. Minha maneira de reagir  a de algum que perdeu algo importante. Eu... - Parou assustada ao v-lo aproximar-se furioso. De repente encontrou 
a resposta. - Sinto-me como se houvesse perdido parte de mim.
   - E perdeu! - Ty percorreu a distncia que os separava. Queria t-la novamente trmula e suplicante em seus braos. Queria murmurar palavras doces e oferecer 
a ternura com que devia t-la cercado desde o incio. Queria qualquer coisa, menos a raiva e o ressentimento, a traio e a dor que cintilavam em seus olhos. - Por 
favor, escute o que vou dizer! - Colocou-se diante dela para impedi-la de escapar, segurando-a pelos braos e puxando-a de encontro ao peito. - Vai ficar aqui e 
me ouvir! Admito que  muito agradvel saber que fui o primeiro...
   - Bastardo! - Tentou libertar-se das mos que a aprisionavam, mas ele a segurou com mais fora.
   Ty respirou fundo, levando aos pulmes o ar carregado e morno que antecede a tempestade, lutando para manter a calma. Era como pedir que o vento o carregasse 
para outra parte do territrio. Como podia acalmar-se, se estavam to prximos que os hlitos se misturavam? No havia calma no temporal que se formava em seus olhos, 
ou no tremor que sacudia seu corpo e fazia ferver o sangue em suas veias.
   Lutou contra o desejo que ameaava vencer a razo. Precisava combat-lo. Dixie era muito importante, e essa falta de controle o assustava.
   - Voc no foi a nica a perder alguma coisa aqui, mocinha. Uma parte de mim tambm se foi e...
   Ela o fez calar com uma violenta bofetada.
   S ento Ty compreendeu que o que acabara de dizer podia ter adquirido outro significado para um ouvinte menos inclinado  compreenso e  boa vontade.
   A fria tingia o rosto dela de vermelho. Um brilho assassino iluminava seus olhos. Mas um soluo escapou de sua garganta e ele se descobriu apertando-a entre 
os braos, ignorando os protestos veementes.
   -        Honestidade, anjo. Nenhum de ns pode voltar atrs agora.
   Se Ty a houvesse agredido, no teria ficado to atnita. Devagar, ergueu a cabea para fit-lo e abriu mo do orgulho.
   -        No, no - suplicou. - Por favor! Se tem alguma compaixo, deixe-me ir.
   Um trovo ecoou sobre a montanha, enfatizando o pedido. Ty olhou para o cu e viu que o sol havia desaparecido. Nuvens negras uniam-se rapidamente numa cortina 
ameaadora, imitando a massa de emoes que ocupava seu peito, prevenindo-os contra a violncia do temporal que se aproximava.
   -        Sele os cavalos. Temos de sair daqui. As nuvens j esto sobre nossas cabeas, e logo a gua comear a cair.
   Precisava solt-la para preparar a partida. Apressado, calou as botas e recolheu os dois cintures com as armas, traindo a desconfiana que ainda residia em 
seu inconsciente. Depois foi buscar os cavalos.
   Dixie no tinha outra alternativa alm de segui-lo. O rio caudaloso no era o melhor companheiro para enfrentar a tempestade iminente.
   Jogando um cobertor sobre as costas da gua, concentrou-se no trabalho que a ajudaria a manter a mente afastada de Ty. E dos motivos para o novo temor que a incomodava.
   Uma parte dele...
   A mo soltou o arreio e pousou sobre seu ventre.
   -        Deus, o que foi que eu fiz?
   Apache relinchou, um som quase de lamento, e Dixie balanou a cabea antes de retomar a tarefa de prender os alforjes na sela. O ar carregado de eletricidade 
e os troves cada vez mais prximos inquietavam os cavalos, e ela precisou de alguns instantes para acalmar a gua que Ty havia recuperado e a que Greg e Lvia 
haviam lhe dado.
   
   Ele trabalhava com eficincia silenciosa. Ouviu a voz doce com que Dixie acalmava os animais e desejou merecer parte daquela doura. Adoraria sentir as mos dela 
novamente em seu corpo, mas ao virar-se para fit-la, viu que se colocava entre as rdeas das duas guas para manter uma certa distncia entre elas.
   Irritado, apagou o fogo com os ps e olhou em volta em busca de possveis objetos esquecidos. Foi quando viu a escova de cabelos. Dixie estava de costas para 
ele, e por isso abaixou-se para apanh-la. Retirando os longos fios de cabelo que ficaram presos nas cerdas, enrolou-os em torno de um dedo e depois guardou-os 
no bolso da camisa.
   Alm das cinzas e da grama amassada pelo peso dos corpos, no havia nenhum outro indcio da presena deles ali.
   Melhor assim. Devagar, aproximou-se de Dixie e entregou a ela o cinturo com a arma e a escova de cabelos. Por um momento encarou-a, mas em seguida desviou os 
olhos dos dela.
   Problema. Aquela mulher no havia sido nada alm de um grande problema desde o momento em que a encontrara naquele maldito saloon, e faria um favor a si mesmo 
se mantivesse isso em mente.
   - Monte. No temos tempo a perder.
   Fria e direta, a ordem era como uma flecha cravada em sua carne. No discutiu com ele. Ty conhecia a regio como a palma da prpria mo, e seria tolice enfrent-lo 
numa situao como a que viviam. Mas, ao apoiar o p no estribo para montar, no pde conter um grito de dor. Rpido, Kincaid aproximou-se e colocou-a sobre a sela 
de Apache, entregando a ela as rdeas da outra gua antes de ir montar no prprio cavalo.
   No momento em que alcanou o alto da colina que guardava aquela parte do rio, Dixie cedeu ao impulso de olhar para trs. No havia nenhum sinal de sua rpida 
passagem por ali. Uma tristeza aguda a invadiu. Talvez fosse melhor assim. O vento jogava seus cabelos de um lado para o outro, cegando-a por um instante, at que 
conseguiu reunir as mechas com uma das mos.
   Assustou-se ao sentir que Ty havia se aproximado e segurava sua mo, inclinando-se sobre a sela.
   -        O que est fazendo? - perguntou irritada, certa de que no poderia suportar nem mesmo o mais inocente dos toques.
   - Estou tentando prender seus cabelos. No vai conseguir cavalgar se no puder enxergar.
   Com a faca, ele cortou uma tira de couro que pendia ao lado da sela e usou-a para amarrar seus cabelos num rabo-de-cavalo. Dixie pensou ter sentido o roar dos 
dedos em sua nuca, mas ele se afastou to depressa que no pde ter certeza de nada.
   -        Agora vamos.
   Ela olhou para os traos duros, para o olhar penetrante e decidido, e desistiu de agradecer antes mesmo das palavras se formarem em sua boca. Sabia que era a 
nica culpada pelo tratamento frio que recebia, e dizer a si mesma que era melhor assim, que agora ele finalmente a deixaria em paz, no ajudava a aliviar a dor 
que a inundava.
   Cavalgaram em silncio por cerca de dois quilmetros, atentos ao cu escuro e ao vento cortante. Dixie seguia imersa nos prprios pensamentos, a mente tomada 
pelo arrependimento e pelas recordaes dos momentos que passara com Ty Kincaid. Tentou ignorar a idia que ele plantara em sua cabea, a possibilidade de carregar 
a semente de um novo ser, e decidiu que, caso a hiptese se concretizasse, a criana seria s dela.
   Teria o filho sozinha. O arrependimento intensificou-se quando ela olhou para Ty. Ele era um homem capaz de despertar facilmente um amor intenso e eterno, algum 
que protegeria seus entes queridos de todas as tempestades da vida.
   Houve um tempo em que teria sido capaz de sonhar ao lado de um homem como ele. Agora caava um assassino, buscando justia numa terra onde ela no existia. E 
tinha uma nova preocupao a ocupar seus pensamentos.
   O que faria se estivesse grvida?
   Estava olhando para Ty, e por isso percebeu assim que ele diminuiu o ritmo. Inclinado sobre a sela, estudava o cho da trilha de terra que percorriam.
   - O que aconteceu? - perguntou em voz alta ao v-lo parar de repente. A gua que ganhara de Greg aproximou-se de Apache, empurrando-a para mais perto da margem 
do rio, cuja profundidade era maior nesta regio. Obediente, a montaria respondeu imediatamente ao comando da rdea e afastou-se da gua, empurrando o segundo animal 
de volta para o meio da trilha.
   Em vez de responder  pergunta de Dixie, Ty desmontou. Atento, examinou as montanhas que se erguiam soberanas  frente, franzindo a testa ao constatar o grande 
nmero de esconderijos que podiam oferecer. Virou-se para estudar o caminho que j haviam percorrido, consciente dos olhos atentos de Dixie e do alarme que crescia 
a cada movimento que fazia.
   Dixie tinha a sensao de estar sendo tocada por dedos gelados. Temerosa, examinou a trilha que estendia-se at onde os olhos podiam alcanar. Depois olhou para 
trs e virou-se novamente a tempo de ver Ty escalar a parede de granito em busca de uma viso melhor.
   Os cavalos reclamavam e batiam as patas contra o cho, assustados com os relmpagos que cortavam o cu escuro. Segundos depois o primeiro trovo mais prximo 
sacudiu o solo. Temendo que os animais disparassem, agarrou as rdeas com fora e adiantou-se para segurar tambm o cavalo de Ty.
   O movimento salvou sua vida. O tiroteio explodiu e ela gritou para prevenir Kincaid. As guas comearam a empinar. Dixie controlou Apache pressionando os joelhos 
contra seus flancos, mas o segundo animal conseguiu escapar. Gritou mais uma vez o nome de Ty, mantendo-se abaixada sobre o corpo do cavalo para diminuir a rea 
da exposio. No podia identificar o local de onde partiam os tiros.
   Ouviu Ty praguejando enquanto escorregava encosta abaixo.
   -        Corra! - ele ordenou, montando com agilidade espantosa.
   Uma bala atingiu de raspo o corpo do animal e ele se ergueu sobre as patas traseiras, jogando o cavaleiro no cho. Ty caiu sobre o ombro ferido, e a dor quase 
o fez perder a conscincia. Mas ainda podia ver que Dixie estava ali, tentando controlar sua montaria, chamando seu nome com um misto de medo e desespero.
   -        Fuja! Saia daqui! - ele gritou, virando-se e atirando para manter os atacantes afastados.
   Sabia que estava desperdiando flego e energia gritando ordens que no seriam seguidas. Alm de ser mais teimosa que qualquer outra mulher que conhecera, Dixie 
no poderia seguir em frente, porque correria o risco de ser surpreendia pelo atirador, e j percebera que era apenas um atacante. Tambm no podia retroceder sobre 
os prprios passos, porque ento seria pega pela tempestade s margens do rio.
   Respirando fundo para tentar diminuir a dor que parecia rasgar seu ombro, Ty sentiu a eletricidade no ar e compreendeu que no tinham muito mais tempo antes 
da chuva comear a cair. Com esforo, buscou uma posio melhor e atirou novamente, tentando dar a Dixie uma chance de fugir e lamentando no ter trazido o rifle 
de repetio.
   A situao piorava a cada instante. Assustado com o tiroteio, seu cavalo saiu em disparada e desapareceu alm da curva o caminho. Um silncio mais prolongado 
levou-o a deduzir que o atacante estava recarregando a arma. Tinha de aproveitar esses momentos para encontrar Dixie. Quando a viu encolhida entre as rochas alguns 
metros abaixo de onde estava, o revlver apontado na direo de onde presumia terem partido os disparos, sentiu vontade de esgan-la com as prprias mos. No havia 
nem sinal de sua montaria.
   - Dixie! - O sussurro furioso chamou sua ateno. Ela levantou a cabea e, ao fit-la nos olhos, Ty experimentou um medo como jamais conhecera em toda a vida. 
- Eu disse que devia fugir! Agora os cavalos se foram e estamos presos aqui,  merc daquele bastardo. Ser que nunca vai ouvir o que digo?
   - No podia deix-lo aqui, Ty.
   A afirmao simples privou-o do escudo protetor da fria. Honestidade e coragem: uma combinao poderosa numa mulher. O pensamento o distraiu. No conseguia compreender 
por que tinha de pensar nisso num momento to tenso, nem sabia o que faria com a constatao. O tiroteio recomeou e ele no teve mais tempo para refletir.
   - Mantenha a cabea baixa - Ty comandou em voz baixa. - Mas trate de subir at aqui, perto de mim. Estava recarregando a arma quando ela conseguiu alcan-lo. 
Dixie foi forada a escutar um discurso confuso e furioso sobre os perigos que corria por ter desafiado suas ordens, por ter insistido em ficar em vez de fugir. 
Os primeiros pingos de chuva caram sobre sua nuca e o vento tornou-se mais forte, j que as nuvens se abriam para liberar uma espessa cortina de gua sobre a terra.
   -        Se no podemos ver, ele tambm no pode.  nossa chance, anjo. E desta vez, trate de seguir minhas ordens, ou acabaremos mortos.
   Tremendo de frio sob a chuva intensa, Dixie limitou-se a responder com um movimento afirmativo de cabea. Se o estpido Ty Kincaid no podia ou no queria entender 
por que ficara com ele, no podia fazer nada. No o ajudaria com explicaes extensas e detalhadas.
   Os lbios de Ty contra seu ouvido provocaram um arrepio sensual que a percorreu da cabea aos ps. Derrubou as balas que havia retirado do cinturo e, ao abaixar-se 
para recuper-las antes que a chuva as levasse, os dedos encontraram os dele.
   - Deixe-me cuidar disso. Voc est tremendo. - A raiva que sentia de si mesmo endurecia sua voz. Se no houvesse sugerido que deviam parar para descansar, no 
estariam enfrentando um atirador desconhecido. Desconhecido? Nem tanto. Onde estariam os outros dois homens? No tinha dvida de que um dos trs bandidos que caavam 
havia voltado para atac-los. Mas... por qu?
   Depois de devolver a arma recarregada, afagou a mo de Dixie com um misto de companheirismo e segurana. 
   - Vamos tentar subir e peg-lo pelas costas. Certo? 
   - Estarei logo atrs de voc.
   Kincaid abandonou o esconderijo, virou-se para encontrar o caminho mais fcil por entre as rochas e, depois de traar um mapa imaginrio, encarou-a novamente.
   -H algo que preciso fazer primeiro. - Beijou-a. Foi um beijo delicado, terno, uma forma de demonstrar todo o carinho que quisera oferecer depois da paixo que 
o deixara sem flego. Quando afastou os lbios dos dela, o arrependimento j o castigava. Mesmo assim, conseguiu forar um sorriso rpido. 
   - Boa sorte... para ns dois. Voltaremos a discutir a promessa que senti neste beijo quando conseguirmos sair daqui vivos e inteiros.
   -        Estarei esperando, Kincaid - ela sussurrou ao v-lo dar o primeiro passo encosta acima. Esperava que fosse verdade. Um n formado pelo medo contraa 
seu estmago. No conseguia livrar-se da sensao de que a sorte que at ento os acompanhara havia chegado ao fim.
   
   
   CAPTULO XIV
   
   Ty testou a firmeza do solo antes de mover-se, sabendo que fazia isso por Dixie, no por si mesmo. J havia enfrentado dificuldades antes, tantas vezes que nem 
podia lembrar, mas nunca a sobrevivncia fora to importante.
   Disse a si mesmo que ela era capaz de cuidar de si mesma, que no precisava virar-se a cada dez passos para certificar-se de que ela o seguia, conforme ordenara.
   Dixie j provara sua capacidade de enfrentar e vencer o perigo. Mas precisava certificar-se de que ela o acompanhava, de que estava bem e protegida.
   A dor o atormentava cada vez que tinha de usar o brao para sustentar-se sobre as pedras escorregadias. Era quase impossvel enxergar mais que dois metros  frente 
dele. A nica coisa pela qual abenoava a chuva violenta era o fato de t-los livrado das balas do bandido que os atacara.
   Lamentava a perda do cavalo, especialmente pelo equipamento, a gua e o cobertor. Quando escapassem dali, e tinha certeza de que conseguiriam, ia precisar deles. 
Ty sabia que devia estar concentrado na tarefa de escalar a parede de granito e encontrar locais seguros para Dixie apoiar-se, mas continuava pensando na distrao 
que ela representava, em como o fazia esquecer coisas importantes e necessrias  sobrevivncia.
   Ty parou para empurrar os cabelos para trs e livrar-se da gua que escorria sobre seus olhos. Os dedos estavam gelados e pareciam grudados  arma. nica vantagem 
da situao era poder finalmente apagar o fogo que queimava seu ombro.
   - Fique aqui. - As palavras foram varridas pelo vento e no sabia se Dixie as ouvira. Fez um gesto com a arma indicando que ela devia ficar onde estava enquanto 
ia reconhecer o terreno e os riscos que os esperavam alm da fronteira das rochas.
   Dixie o viu mover os lbios mas no conseguiu escutar o que dizia. O movimento que ele fez com a arma ajudou-a a entender o que ele queria. Sabia que sentia dor, 
mas tambm tinha conscincia de que jamais a deixaria seguir na frente. No havia um vo grande o bastante onde pudesse proteger-se, e a chuva era como uma saraivada 
de agulhas sobre seu corpo.
   - Tome cuidado! - Gritou ao v-lo chegar ao topo e desaparecer de seu campo de viso. Apoiou as costas na rocha e sentiu os ps entorpecidos dentro das botas 
encharcadas. Tinha de soltar a arma para movimentar os dedos, ou eles acabariam congelados. Lembrou o que Ty fizera naquela noite na caverna para aquec-la e levou 
a mo  boca, mas o alvio s durou alguns instantes.
   No podia deixar de preocupar-se com a demora de Ty. Devagar, tentou movimentar os msculos enrijecidos e sentiu-se escorregar. No havia nada em que pudesse 
agarrar-se, nada que pudesse sustent-la enquanto tentava fazer o corpo gelado reagir. Sentiu o gosto do sangue misturado  chuva quando mordeu o lbio e olhou para 
cima. A palma de uma das mos estava ferida e sangrando, resultado da tentativa desesperada de sustentar-se de alguma forma.
   A bota encontrou uma poa de lama. Quando tentou equilibrar-se, escorregou mais um pouco.
   Ty rastejou at a borda do penhasco e viu o que estava acontecendo com Dixie. Sem se preocupar com a possibilidade de ser atingido por uma bala, guardou a arma 
e foi socorr-la.
   Ferido e exausto, segurou-a pelos pulsos enquanto enterrava a bota entre duas rochas para apoiar-se. Viu o medo nos olhos dela e soube que no havia sido capaz 
de esconder a dor que sentira ao pux-la.
   No instante em que parou de escorregar, Dixie exigiu que ele a soltasse. Viu dor estampada em seu rosto e, desesperada, notou o rpido movimento negativo que 
ele fazia com a cabea.
   Tentou encontrar um lugar slido onde pudesse apoiar os ps a fim de aliviar o peso que ele sustentava com os braos. Fechou os olhos rapidamente e fez uma prece 
pedindo ajuda. E ento cometeu o engano de olhar para baixo. O caminho que haviam percorrido desaparecera sob a gua que escorria pela superfcie rochosa. A enxurrada 
arrastava galhos secos e folhas em sua esteira de destruio. Se Ty a soltasse... Se no conseguisse sustentar-se, encontraria seu destino naquela correnteza fatal.
   S precisou olhar para o rosto dele para ter certeza de que no a soltaria. Devia ter constatado o perigo. O que no compreendia era que, com o ombro ferido, 
no suportaria o peso por muito mais tempo e cairia com ela.
   - Nem pense nisso! - Ty gritou. No precisava ler sua mente, porque podia seguir a direo dos olhos. Conhecia o perigo, e o temia cada vez que era incapaz de 
impedir que Dixie escorregasse mais alguns centmetros. O terreno era traioeiro e as rochas escorregadias. Mas precisava segur-la, e por isso exigiu mais de si 
mesmo.
   Ty sentiu a pele fria sob seus dedos. As mos agarravam os pulsos com tanta fora que era como se tocasse os ossos delicados. Dixie era forte. Tentava convencer-se 
de que ela suportaria, mas sabia como sua energia fora prejudicada. Estava gelada, e tinha medo de que j comeasse a desistir de lutar.
   - Segure-se em mim, Dixie! - Mal podia ver os movimentos desesperados que ela fazia com as pernas enquanto tentava encontrar solo firme. Queria ordenar que parasse, 
mesmo sabendo que s tinha a inteno de ajud-lo, mas quando preparou-se para gritar, sentiu que Dixie os arrastava mais alguns centmetros para baixo.
   Pela primeira vez, teve de admitir para si mesmo que podia estar lutando por uma causa perdida.
   Como se fosse capaz de enxergar sua alma e ler seus pensamentos, Dixie gritou:
   -        Solte-me, Ty!
   -        Nunca! Tenho algo precioso a cobrar quando estivermos frente a frente. Lembre-se disso, Dixie.
   Os dedos seguraram os pulsos frios com fora surpreendente. Kincaid ignorou a prpria dor e, determinado, conseguiu finalmente firmar os ps numa parte mais 
slida do terreno. E ento, como que para zombar de seus esforos, a chuva voltou a cair com violncia espantosa. A nova torrente de gua o cegava. O corpo era 
sacudido por tremores de frio e medo, e o corao ameaava parar de bater cada vez que um relmpago rasgava o cu e iluminava o rosto apavorado de Dixie. Sua pele 
era to plida que parecia feita de cera. S os olhos exibiam vida e inteno de lutar enquanto os lbios formavam seu nome dezenas de vezes.
   Ty encontrou foras que nem sabia possuir. No deixaria que essa maldita montanha a levasse. Jurou que nada a tiraria dele.
   Dixie sentiu a nova onda de vigor nos braos que a sustentavam e percebeu que Ty redobrava esforos para i-la. Apavorada, rezou e pediu a ajuda divina com 
um misto de esperana e aflio. Estava aterrorizada, mas no por ela mesma. Temia que um daqueles horrveis relmpagos atingisse Ty.
   O sangue ainda brotava na palma de sua mo, tornando ainda mais difcil a tarefa de segur-la. Mordendo o lbio com fora, disse a si mesma que no ia chorar 
de medo.
   Manteve os olhos fixos no rosto determinado at que a chuva a cegou e a obrigou a virar-se.
   Sentir que uma das botas encontrava um patamar firme a encheu de esperana.
   - Consegui apoiar um p, Ty! - gritou para ser ouvida acima do vento.
   A perna esquerda pendia impotente, mas ela firmou a direita para sustentar parte do prprio peso e conseguiu conquistar alguns centmetros da difcil subida. 
Tentou encontrar outro ponto onde pudesse encaixar o p e repetir o movimento, mas a bota deslizava contra a rocha molhada e escorregadia. Dixie tentou no pensar 
no tempo que j haviam passado ali, porque no estava disposta a deixar-se dominar pelo medo. No ia cair. Enquanto repetia essa espcie de mantra, Ty a puxou e 
ela encontrou um novo patamar onde podia apoiar-se.
   -        Agora posso subir sozinha. Solte-me!
   Ty ignorou a sugesto. S a soltaria quando ela estivesse segura a seu lado.
   -        Mais um pouco, Dixie. Sei que pode conseguir. Conseguiremos juntos!
   Era como se uma camada de gelo cobrisse sua pele. Cada msculo queimava pelo esforo contnuo. Dixie fechou os olhos, reunindo todas as reservas de foras que 
possua. Era difcil admitir, mas, ao olhar para Ty, soube que s tinha direito a mais uma tentativa. Se no conseguisse chegar ao topo dessa vez...
   No! No podia deixar que o pensamento negativo a derrotasse!
   -        Pronta? - Ty perguntou.
   Dixie o viu inclinado sobre ela, sombrio, determinado a desafiar os elementos e os deuses para salv-la. Tentou engolir e descobriu que no podia. Havia pensado 
em Ty como um homem a quem poderia aprender a amar. Vendo seus olhos firmes e brilhantes, lendo neles a promessa de que, o que quer que acontecesse, estaria com 
ela ao longo do caminho, compreendeu que o amor j comeava a florescer em seu corao.
   - Anjo, vai ter de ser agora.
   -        Sim, estou pronta.
   Viu o delicado equilbrio que ele era obrigado a manter com um dos ps. A posio em que se encontrava no era muito melhor. Ty flexionou os joelhos e inclinou 
as costas, usando-as como se fossem uma alavanca. No momento em que o sentiu puxando, Dixie moveu o p direito e dessa vez conseguiu encontrar apoio para as duas 
pernas. Ele no a soltou, nem mesmo quando viu que sua cabea estava na altura do solo onde se deitara de bruos.
   Ofegante, segurou-a pelos cotovelos e a puxou num ltimo e definitivo esforo.
   -        Consegui! Voc est salva, Dixie!
   Ela limitou-se a um rpido movimento afirmativo com a cabea, sem se importar com a cortina fria da chuva ou os relmpagos ameaadores. S estaria segura e aquecida 
no instante em que pudesse abra-lo. A idia no a surpreendeu, pelo contrrio, deu a ela foras para mover-se e buscar abrigo sob uma rocha saliente na parede 
da montanha. E no instante seguinte estava nos braos de Ty.
   -        Pensei que a perderia.
   Ela tentou sorrir, mas os lbios j cobriam os seus. Sentiu o sabor da urgncia de Ty e rendeu-se, porque experimentava o mesmo sentimento. Os braos demoraram 
a obedecer as ordens do crebro, e a necessidade de senti-lo mais prximo cresceu. Quando finalmente pde mover-se com um pouco mais de desenvoltura, livre do pnico 
que at ento a paralisara, colou o corpo ao dele em busca de conforto, calor e proteo. Sentia-se possuda por ele. Lentas, as mos acariciavam suas costas e devolviam 
a vida ao seu corpo. A boca queimava de paixo e desejo, e Dixie ainda queria mais. A morte chegara perto demais. Ty era a vida.
   Quando ele ergueu a cabea, fitou-o e sentiu o sabor da chuva que caa. A princpio pensou que o arrepio percorrendo sua espinha fosse de frio, mas o ventre estava 
contrado pelo medo.
   Dixie virou a cabea e olhou para cima, examinando o cu e piscando rapidamente contra a violncia da chuva. No conseguia expressar o medo que sentia, nem explic-lo, 
e por isso limitou-se a abra-lo.
   -        Preciso tir-la da chuva, anjo.
   Ela pulou quando o trovo sacudiu a terra e um rpido feixe de luz iluminou o terreno que os cercava. Ty passou um brao em torno de sua cintura e a fez apoiar-se 
nele enquanto se virava.
   -        Ser uma descida perigosa, mas segure-se firme em mim. No quero repetir aqueles momentos de terror. No precisava de conselhos para manter-se grudada 
nele. O medo esfriava o sangue em suas veias. A chuva diminura, mas ainda podia v-la caindo violenta alguns metros  frente, como uma cortina branca.
   -        Ty, algum atirou em ns! Viu quem foi?
   -        No. Meu Deus, voc est gelada!
   -        Estou com medo. No me pergunte...
   No pensava no equilbrio precrio que tinham sobre as pedras molhadas. Dixie deu um passo  frente e, disposta a faz-lo entender, agarrou a camisa ensopada.
   -        Ty, no continue! - Tomada pelo desespero, olhou em volta. Estavam em p no alto da encosta, e s tinham duas possibilidades de fuga. A subida ngreme 
para um segundo patamar, ou a descida perigosa para a enxurrada.
   Dixie no soube o que a fez olhar em volta. Teve a impresso de estar gritando, mas nenhum som brotava de sua garganta. Havia uma sombra escura  frente, quase 
invisvel por causa da chuva que voltava a cair forte.
   Um relmpago iluminou a regio e ento o grito pde ser ouvido acima do vento. Era um homem.
   -        Veja, Ty! L est...
   Um trovo explodiu e Dixie encolheu-se em seus braos. Ty havia sacado a arma, apesar de mal poder ver a silhueta do atacante. S percebeu que ela havia sido 
atingida quando ouviu a voz fraca chamando seu nome.
   - No! Dixie, no! - Sustentou-a com um brao, atirando s cegas. Sabia que a pistola era intil a essa distncia, mas no interrompeu os disparos. Dixie apoiava-se 
nele como se no tivesse foras para manter-se em p.
   -        Ty?
   A voz era um murmrio de dor, baixa, confusa, como se ela no entendesse o que estava acontecendo. Ele a colocou no cho para retir-la da linha de tiro e protegeu-a 
com o prprio corpo.
   -        Fique calma, Dixie! Vou pegar o bastardo, nem que seja a ltima coisa que eu faa.
   -        No! - Ela agarrou seu brao, tentando mant-lo abaixado. - No me deixe, por favor. Di muito...
   Ty tocou o rosto delicado e plido. Fragmentos de rocha voavam em todas as direes. Perto, muito perto deles. Podia perceber que o atacante no era muito grande, 
o que significava que no se tratava de Thorne. E era alto demais para ser o garoto. Mas antes que pudesse persegui-lo, tinha de salvar Dixie. Se havia um Deus 
ouvindo, esperava que suas preces fossem atendidas, porque dessa vez estavam realmente encrencados.
   O cho tremia a cada trovo que explodia nas montanhas. Pedaos de rochas desprendiam-se e rolavam pela encosta. Deitado sobre o corpo dela, tentando proteg-la 
com a prpria vida, Ty descobriu que tinha um arsenal de preces a oferecer.
   Os tiros eram rpidos e furiosos, mantendo-os encurralados contra o cho. Sabia que praguejar era intil, mas pelo menos servia para aliviar o pavor por no 
ter conseguido identificar a regio exata onde ela fora atingida.
   - Pode segurar-se em mim? - perguntou num sussurro. - Os relmpagos esto muito prximos, anjo. No gosto da idia de ficarmos aqui, esperando para sermos assados 
como biscoitos.
   Ty soube que o ferimento era grave quando ela demorou a atender ao pedido insistente para segurar-se nele. Considerou a fora do brao direito sobre seu ombro 
e contou os segundos interminveis at v-la mover o esquerdo. Tinha idia de onde o tiro a acertara, mas tudo que importava agora era saber que estava viva.
   -        Vamos sair daqui. Segure-se bem, Dixie. E deixe o resto comigo. - Rolou pelo cho com todo o cuidado, temendo encar-la e ver o sofrimento em seus olhos. 
Mantinha a cabea dela sob seu queixo, os braos em torno da cintura delgada. Sentiu um calor mido nas mangas da camisa e, num momento de agonia, fechou os olhos. 
Sangue!
   Ignorando a dor provocada pelos pedregulhos que cobriam o cho e enterravam-se em suas costas, usou os saltos das botas como apoio e rolou at chegarem bem perto 
da beirada da encosta. Havia uma parte menos acidentada por onde poderiam escorregar, e a gua serviria para amenizar o impacto da queda quando chegassem l embaixo.
   - No quero que tenha medo, Dixie. Vamos descer rolando. Estou segurando voc. Sabe que no vou deixar que nada de mal acontea, no ? - As palavras soavam vazias, 
mas era tudo de que dispunha para confort-la nesse momento.
   Ty hesitou. Por mais cuidadoso que fosse, mesmo que conseguisse absorver todo o impacto da descida, ainda assim ela acabaria ferida. Queria poup-la da dor, mas 
tambm queria matar o homem que a acertara, e sua vontade no parecia contar muito nesse momento. Em primeiro lugar vinha a segurana de Dixie.
   Ty nunca soube o que o fez virar-se na direo do atirador. Como se a chuva fosse uma cortina aberta, viu nitidamente a silhueta com o rifle apoiado sobre um 
ombro, pronto para disparar.
   De repente o cu se abriu. A luz cortou o ar e ele viu, como se o tempo houvesse parado, o claro brilhante correr pelo cano do rifle de Peel. Raios de luz espalharam-se 
em todas as direes, como numa exploso violenta, e um grito desesperado foi interrompido.
   Ty fechou os olhos.
   Havia um Deus. Suas preces foram atendidas.
   -        Oh, meu Deus... Ty? Voc viu...?
   -        No fale, amor - ele sugeriu, segurando a cabea dela de encontro ao peito. - No olhe. Gostaria de no ter visto acontecer. Mas foi a justia, anjo. 
Nunca se esquea disso.
   Agora no havia mais motivo para enfrentarem uma queda suicida pela montanha. Podia descer devagar, garantindo a segurana de Dixie.
   E sabia para onde a levaria.
   Para casa. Para o rancho K, o nico lugar para o qual havia jurado jamais voltar em busca de ajuda.
   
   
   CAPTULO XV
   
   Ty usou sua camisa para fazer um curativo. J haviam sado da montanha quando descobriu que ela havia sido ferida duas vezes. Uma bala passara de raspo na carne 
macia da coxa, mas era a outra, a que penetrara no lado esquerdo de seu corpo, que o preocupava.
   Quando Dixie no pde mais arrastar-se, mesmo apoiada nele, Ty a carregou. No tinha idia de tempo, nem da distncia que haviam percorrido quando a chuva finalmente 
parou. Dixie perdera os sentidos muito antes.
   Sabia que ela precisava de abrigo, de um lugar quente e seco onde pudesse descansar. Viajar no ritmo lento em que seguiam acabaria por derrot-los antes que tivesse 
chance de conseguir alguma ajuda. Ty descansou um pouco, colocou-a sobre os ombros e retomou a caminhada.
   O som de gua corrente o atraiu para um bosque de algodoeiros s margens do rio. Sem perder tempo refletindo sobre a prpria deciso, deitou-a no cho e tentou 
no pensar em como estava gelada. Examinando as rvores, encontrou o que procurava. Dois galhos muito grossos partiam do tronco formando um "V" alguns metros acima 
do cho, alto o bastante para mant-la protegida, mas no tanto que no pudesse coloc-la ali.
   Usando a faca, limpou os galhos menores de folhas e farpas e tranou-os com os dois maiores. Ainda lembrava as horas que passara no rancho, ouvindo as explicaes 
pacientes e claras de Hazer Scofield sobre como tranar uma boa corda. Ty testou a rede com o peso do prprio corpo e depois encheu-a de folhas. Quando acomodou 
Dixie sobre cama improvisada, o gemido de dor cortou seu corao.
   Beijando as mos frias, soube que ela no podia ouvir as promessas que fazia. Palavras no eram o que Dixie precisava nesse momento.
   Por um momento ficou quieto, a cabea inclinada e os ombros cados, o corpo travando uma luta desesperada com a exausto que ameaava domin-lo. Tinha de cobri-la, 
e as folhas eram tudo de que dispunha.
   Olhou para trs mais uma vez, contando os passos entre a rvore e a margem do rio, e depois comeou a caminhar.
   Quando ficava cansado demais para dar mais um passo, pensava no sorriso de Dixie. Quando tropeava e caa, lembrava-se da coragem que ela havia exibido e encontrava 
foras para prosseguir. E quando no havia nada para mant-lo andando, Ty comeava uma silenciosa ladainha de preces.
   O amanhecer o encontrou de joelhos, tentando levantar-se. O som de um cavalo o fez erguer a cabea. O sol espalhava sua luz radiante sobre as fileiras verdes 
de uma horta bem cuidada e iluminava as cabanas construdas com cips tranados e barro. Ty balanou a cabea e, com esforo, levantou-se. Sabia onde estava: num 
acampamento Pima.
   Se no havia perdido o senso de direo, estava prximo do rio Hassayampa, abaixo do acampamento dos mineiros. Esfregando os olhos para enxergar melhor, piscou 
vrias vezes e estudou a terra que o cercava, O pico das montanhas distantes confirmavam sua hiptese inicial. Quatro dias de cavalgada o separavam do rancho Rocking 
K.
   Mas a sorte mudara, porque podia aproximar-se do acampamento sem riscos. Os Pimas haviam sido integrantes do exrcito muito antes da Guerra Civil, e alguns chegaram 
a servir na unidade Maricopa de voluntrios, um dos poucos pelotes indgenas a combater na guerra. Estava vasculhando a memria em busca de fatos concretos, porque 
assim no pensava em Dixie e no que encontraria quando voltasse ao local onde a deixara.
   Os ndios eram fazendeiros, e possuam cavalos. De sua parte, no contava com uma grande variedade de objetos para comercializar. Olhou para si mesmo e, sem nenhuma 
hesitao, soube o que faria.
   Parado ao lado da horta bem cuidada e protegida por cercas artesanais, Ty olhou para os cavalos no curral. Era uma verdadeira agonia esperar, quando o instinto 
o impelia a gritar por ajuda, mas perder a oportunidade de negociar por ter exibido comportamento imprprio era um risco que no podia correr.
   O cobertor que cobria a entrada da tenda mais afastada foi erguido, e um homem apareceu. No alcanava nem os ombros de Ty. Os cabelos longos estavam tranados, 
e havia um chapu de abas largas sobre sua cabea. Ao aproximar-se, Kincaid notou que a cala e a camisa do desconhecido eram muito limpas. Os traos fortes e os 
mocassins confirmaram a suposio original: estava num acampamento Pima.
   - Ty Kincaid, do Rocking K - identificou-se, retirando o cinturo com a arma para provar que no pretendia causar mal algum. - Vim negociar. Preciso de um bom 
cavalo, de um cobertor e comida. Entendeu?
   Impaciente, esperou que o ndio o estudasse da cabea aos ps. Tentou manter os traos rgidos a fim de no demonstrar o desespero que o dominava, mas no sabia 
se estava conseguindo.
   Os segundos transformaram-se em minutos antes que o Pima respondesse:
   - John Redbird. Podemos negociar.
   Ty trocou a arma pelo cavalo. Redbird aceitou sua escolha sem discutir e entregou a gua. Gostaria de poder levar o garanho de pernas longas e fortes, mas a 
gua possua costas largas que acomodariam duas pessoas com mais conforto. Seus olhos eram doces e inteligentes, e o plo preto e branco brilhava ao sol. Ela era 
forte e saudvel, jovem o bastante para suportar a longa viagem e velha o suficiente Para saber mover-se pelas montanhas e atravs do deserto.
   As balas serviram para pagar pelo cobertor. Um aroma delicioso pairava sobre o acampamento. Ty tocou o cinturo. Conner o fizera especialmente para ele, e Logan 
negociara com um Navajo a fivela de prata com um K gravado no centro. O cinturo havia sido seu presente quando completara dezesseis anos, uma das poucas coisas 
que levara ao sair de casa.
   Ty entregou-o em troca de comida.
   Uma fria surda o fez virar-se a tempo de ver uma mulher. Sabia que era rude encar-la, mas ela parecia pronta para alar vo, os seios nus, o peito e o queixo 
adornado por tatuagens tribais. Aquela era a aparncia de uma Mohave, no de uma Pima! Mas, ao virar-se novamente, Ty notou a expresso contrariada de Redbird e 
soube que no seria convidado a retornar.
   - Agora v. Redbird trar o alimento.
   Ty ajeitou o arreio feito de corda e jogou os cobertores dobrado sobre as costas da gua. O ndio voltou com uma cesta. Ty fitou-o, depois olhou mais uma vez 
para as tendas. Era evidente que Redbird prevenira sua mulher, e todas as outras, para se manterem afastadas do forasteiro. Segurando a rdea tranada numa das mos, 
Ty agarrou-se  crina espessa do animal para montar.
   Redbird j estava retornado ao vilarejo quando Ty partiu com o sol aquecendo suas costas.
   Menos de trs quilmetros depois, percebeu que devia ter tentado incluir uma camisa na transao.
   
   Dixie ouviu rudos distantes. Febril, pensou estar ouvindo vozes e foi sacudida por arrepios sucessivos. No conseguia abrir os olhos, porque o esforo ia alm 
da energia de que dispunha. Os lbios estavam ressecados e rachados, e a garganta doa. Os rudos se tornaram mais prximos, mais altos, e soube que tinha de afastar-se 
deles.
   Em segundos teve a impresso de estar mergulhando num poo escuro. O calor ameaava tost-la viva. A dor era insuportvel, especialmente quando tentava se mover. 
Num delrio febril, imaginou-se caminhando pelo deserto, caindo sob um sol inclemente que roubava toda a umidade de seu corpo. Tentou gritar. Nenhum som brotava 
de sua garganta. Estava morrendo. A cabea latejava, um tamborilar constante que espalhava-se por todos os rgos e empurrava o sangue por suas veias, acelerando 
a circulao. Mas havia algo... algo que precisava fazer.
   Ty a ajudaria. Ele havia prometido. Os rudos se tornaram mais intensos e prximos. A dor era mais intensa a cada segundo, e ela soube que precisava de ajuda.
   Ty... seu nome transformou-se numa ladainha apavorada que no proporcionava alvio algum.
   
   O terror era como uma garra gelada apertando o corao de Kincaid.
   Ainda estava conduzindo a gua para a rvore onde deixara Dixie, quando teve certeza de que no a encontraria l. Os galhos menores e as folhas com que a cobrira 
estavam espalhados pelo cho.
   Sem desmontar, aproximou-se e tocou a rede improvisada, medindo o calor que ainda restava nela. Como o sol que se infiltrava pela copa frondosa era muito fraco, 
teve certeza de que o calor que sentia era dela.
   Dixie no havia partido h muito tempo.
   Mas para onde? E como, ferida como estava, conseguira descer?
   Talvez no houvesse partido sozinha.
   O medo aumentou tanto que Ty comeou a tremer.
   Dixie tinha a nica arma que restava, e s dispunha de sua faca para defender-se. Ao descer da gua para deixar a cesta de comida no cho, viu as marcas deixadas 
no terreno. Caminhando devagar, dirigiu-se  margem do rio, lutando contra o mpeto de correr, obrigando-se a interpretar corretamente todos os sinais de maneira 
a no cometer mais enganos.
   As pegadas contavam uma histria prpria. E o terror continuava oprimindo seu peito. A certa altura ela cara, levantara-se e cara novamente, e depois seguira 
rastejando antes de pr-se em p mais uma vez.
   Uma fria cega contra o destino e os deuses ameaava priv-lo da capacidade de raciocnio.
   Seguindo em frente, descobriu que Dixie cara mais urna vez e continuara rastejando at a margem do rio, onde estava deitada e imvel.
   Oh, se fosse tarde demais...
   Ty tinha medo de toc-la. A culpa era insuportvel, sufocando o bom senso e mantendo-o prisioneiro antes que a razo viesse em seu socorro, ajudando-o a libertar-se 
para entrar em ao. Caindo de joelhos no lodo que a cercava, ele afastou os cabelos que cobriam o rosto plido. A febre que emanava do corpo imvel era to intensa 
que ele pde sentir o calor espalhando-se da mo para o brao. A pele estava seca e sem brilho. Acariciando o rosto abatido, rezou mais uma vez e foi recompensado 
por um gemido fraco, um sinal que, embora sugerisse dor, tambm indicava vida. E enquanto houvesse vida, poderia ter esperanas.
   Devagar, virou-a para sustentar seu peso nos braos. Soltou o ar que havia retido nos pulmes e respirou fundo, obrigando-se a recuperar o controle sobre as 
prprias emoes.
   Quando parou de tremer, tirou as botas e removeu as dela, tambm. No podia conter o leve tremor das mos enquanto soltava o cinturo com a arma e o arremessava 
para uma parte mais alta do terreno, onde a gua do rio no poderia alcan-lo. Temendo colaborar para a dor que a castigava, removeu a camisa e a cala imundas 
com cuidado exagerado. Depois retirou o curativo improvisado que cobria o ferimento.
   Segurando-a nos braos, levantou-se e caminhou at a beirada do rio para banhar a febre de seu corpo. Os gemidos confusos e os olhos fechados o fizeram abandonar 
a idia de iniciar a viagem para casa antes do pr-do-sol.
   Mas era com alvio e alegria que recebia os sons aflitos cada vez que a mergulhava lentamente na gua fria. Cada gemido marcava mais um minuto de vida, mais uma 
possibilidade de resistncia.
   Tudo que tinha a fazer era certificar-se de que ela no desistiria de lutar.
   Lembrou-se de quando Logan, seu irmo, foi acometido por uma febre muito alta. A me passara noites seguidas a beira da cama, sussurrando histrias sobre o passado, 
a infncia, cada pequeno incidente da vida no rancho.
   Por isso falava sem parar enquanto a envolvia com o cobertor limpo e providenciava uma fogueira. A conversa tambm era uma maneira de distrair-se enquanto aquecia 
a lmina da faca. No queria pensar em marcar a pele plida e suave, mas no havia outra alternativa.
   Ty nunca soube exatamente o que o fez lembrar o aroma de uma determinada erva. Havia passado pela regio prxima ao deserto onde a planta crescia, e notara que 
as flores ainda no podiam ser vistas nos arbustos rasteiros. As sementes... Sim, havia algo sobre as sementes.
   - Deus meu! No consigo recordar! - gritou, olhando em volta em busca de alguma resposta aos ps da montanha. Caminhando s cegas, atrado por uma fora inexplicvel 
e poderosa, comeou a recolher as sementes da tal erva. O aroma o atingiu como um soco no estmago. No instante em que segurou as sementes ele se lembrou. Havia 
ingressado num batalho voluntrio do exrcito, um trabalho que s durara trs dias. O capito, um sujeito muito mais jovem e inexperiente que a maioria de seus 
comandados, era incapaz de distinguir um ndio de outro, e vivia repetindo que todos eram feras, animais que deviam abater. Sentira-se incendiado pela estupidez 
do homem, e acabara por demitir-se depois de castigar o lder com uma surra violenta. Mas no partira de imediato. O capito fora ferido por uma bala que quase rasgara 
seu brao ao meio, e o ndio que o encontrara cado na floresta usara as sementes para preparar um emplastro.
   - Voc vai viver! - disse confiante ao voltar para perto de Dixie com os bolsos cheios do material cicatrizante. - Mesmo que tenha de fazer e pagar centenas de 
promessas, voc vai viver!
   Ty desistiu de contar as viagens que fez ao rio para banh-la. Perdeu a noo do tempo enquanto a segurava nos braos, despejando a gua do rio em seus lbios 
e lavando a testa quente e ressecada. Ele a embalava, sentindo que a febre a reduzira a um estado de fragilidade que jamais pudera imaginar numa mulher to forte 
e corajosa. No. No era verdade.
   Dixie estivera frgil uma outra vez, quando a possura. Mas no podia pensar nisso, ou acabaria enlouquecendo.
   S uma vez ela abriu os olhos e fitou-o diretamente o movimento lento da mo sobre seu peito nu durou apenas alguns segundos antes de ela deix-la cair sobre 
o colo.
   Ty teve de inclinar-se e colar o ouvido em seus lbios para compreender o que ela dizia.
   -        Ajude-me... Encontre...
   -        Quem, Dixie? Quem voc quer? Fale, meu anjo, e irei ao inferno ca-lo.
   -        Ty...
   Ele a encarou em silncio. O reflexo do fogo danava nos olhos brilhantes e febris. Depois de um suspiro profundo e cansado, ela fechou os olhos como se o esforo 
houvesse sido maior do que podia suportar. Mais uma vez a febre queimou seu corpo.
   Ty soube que no poderia esperar pelo amanhecer para partir.
   Abenoou a escolha da gua quando teve de acomodar Dixie sobre as costas do animal. Ela no era capaz de sentar-se sozinha e, cada sobre o pescoo da montaria, 
os braos soltos como se no tivesse foras para sustent-lo, permaneceu imvel at que ele montou.
   A gua permanecia parada e calma, como se tivesse conscincia do valor da carga que sustentava.
   Noites claras de lua cheia e cu estrelado eram as que Ty menos apreciava para viajar. J havia apreciado esse mesmo cenrio para cavalgadas noturnas, num tempo 
em que as estrelas haviam servido de guia para encontrar o caminho de casa. Muitos anos se passaram, mas ainda lembrava de Logan cavalgando a seu lado, as vozes 
embriagadas misturando-se com a dos sapos enquanto tentavam chegar ao rancho antes do amanhecer.
   Sempre Logan. Nunca Conner. Conner no suportava a companhia de um homem bbado, e desprezava os irmos por isso. Mas sempre pagara pelos prejuzos causados naquelas 
noites de sbado depois da morte do pai. Conner calara as botas do velho como se houvessem sido feitas para ele.
   Ty ressentia-se contra as recordaes que o inundavam com nitidez maior a cada passo do caminho de volta para casa. No entanto, no podia deixar de pensar em 
como gostaria de estar vivendo um daqueles momentos, quando ele havia sido incapaz de manter-se erguido sobre o cavalo. Daria qualquer coisa para que Dixie o estivesse 
conduzindo, e no o contrrio.
   Os pensamentos eram sua nica companhia enquanto a noite despedia-se e o sol levantava-se como uma enorme bola de fogo. Sabia que poderia diminuir a viagem em 
um dia se cortasse caminho pelo deserto, mas Dixie precisava de gua.
   Quando o sol se ps, Ty usava a gua para refrescar a pele queimada e ardida. Construir a fogueira foi uma tarefa difcil e dolorosa, porque o calor gerado pelo 
fogo aumentava a sensao de dor que o castigava.
   Cochilou e acordou assustado. No foi um sonho, mas os prprios pensamentos e o sentimento de culpa que o fizeram levantar-se para ir ver se Dixie estava bem. 
Sua respirao parecia mais fcil. Ou estaria imaginando coisas, deixando-se levar pelo desejo de v-la bem novamente?
   J a chamara de problema. Retirava tudo que dissera. Dixie resmungava sobre coisas, lugares e pessoas que ele no conhecia, mas Ty no parou de rezar para prestar 
ateno.
   Na noite seguinte cruzaram o riacho Queen. Estavam ao norte do Rocking K. Os galhos dos salgueiros acariciados pela brisa entoavam uma cano familiar que vrias 
vezes o fizera dormir quando estivera acampado ali. Ty estava rouco de tanto contar histrias do passado para Dixie. Passara o dia todo falando, e a exausto ameaava 
venc-lo. Mas tinha de continuar...
   A gua precisava de descanso. Ty esperava que ela o perdoasse por obrig-la a seguir em frente. Atordoado, lembrou-se das promessas que fizera a Dixie e decidiu 
tentar o mesmo procedimento com o animal. Um estbulo limpo. Uma baia espaosa. Milho e cenouras frescas, palha quente e plo escovado duas vezes por dia.
   Horas mais tarde Ty esfregou os olhos.
   - Estrelas cadentes... - sussurrou, segurando Dixie contra o peito a fim de favorecer a circulao do brao adormecido e atacado por centenas de mosquitos.
   O som que ouviu o fez balanar a cabea. Estava sonhando. Ou delirando! Ouvira o mugido de vacas. Erguendo o corpo sobre a sela, tentou enxergar atravs da escurido. 
O que vira anteriormente no fora uma estrela cadente. mas a fogueira de um acampamento.
   -Ajuda, Dixie. Encontramos ajuda! -Incentivou a montaria a continuar andando. Forando a mente a permanecer alerta, sacou a pistola de Dixie do cinturo e aproximou-se 
cauteloso.
   Entrou no acampamento e foi recebido por trs rifles apontados em sua direo.
   -Tenho uma mulher ferida comigo. Estamos cavalgando h quase quatro dias. Preciso de ajuda para chegar ao Rocking K.
   Silncio. Um homem adiantou-se dois passos, o rosto coberto por rugas deixadas por anos de sol inclemente. De repente ele tirou o chapu e baixou o rifle.
   - Macacos me mordam! Estou ficando cego como um poste! Abaixem as armas, rapazes! Ty Kincaid voltou para casa!
   -Hazer? Meu Deus,  voc? - Ty tentou sustentar o peso do prprio corpo, temendo machucar Dixie. Estava desmaiando, mas outros braos a seguraram, outras vozes 
prometeram ajuda, e ele desistiu de lutar.
   
   
   CAPTULO XVI
   
   Ty acordou envolto por lenis limpos, macios e perfumados. Tentou virar-se, mas o corpo recusou-se a responder. Mantendo os olhos fechados, absorveu o os familiares 
aromas do lar.
   O travesseiro tinha o perfume de flores do campo secas e amarradas em delicados sachs de tecido. Quando criana, percorrera os vales entre as montanhas em companhia 
da me e de Sofia para colher ervas, flores e sementes que eram usadas na confeco de chs, arranjos e perfumes caseiros. Correra livre e feliz, explorando o ambiente 
e aprendendo a respeit-lo.
   Respirando fundo, sentiu o cheiro do sndalo usado na construo do forro e do leo de limo que Sofia utilizava na limpeza diria, especialmente na moblia brilhante.
   Mergulhar na corrente de recordaes era como ser envolvido por um abrao caloroso e amigo. Por um instante lembrou a mo do pai sobre seu ombro, o orgulho em 
seus olhos e os elogios que ele sussurrara no dia em que havia escolhido seu primeiro cavalo.
   As lembranas seguiram seu fluxo e as imagens das brincadeiras com os irmos foram seguidas pelas das brigas violentas. Depois foram as festas, as grandes comemoraes 
nos feriados e ocasies especiais.
   Ty moveu-se inquieto, sentindo-se mais fraco que um bezerro recm-nascido. A ausncia do odor que o acompanhava nas longas viagens que fazia o fez lembrar algum 
banhando seu corpo. No fora capaz de erguer a cabea, muito menos de...
   -        Dixie! - Afastando as cobertas, tentou sentar-se o quarto girou e ele sentiu-se tonto, incapaz de mover-se.
   Segurando a cabea entre as mos, fechou os olhos e esperou que a tontura passasse. Quando ouviu a porta se abrir, no conseguiu nem erguer os olhos para ver 
quem era.
   -        Est acordado. Que bom! Descanse, meu irmo. No est em condies de ir a lugar algum.
   -        Conner.
   -        Em carne e osso.
   Ty ouviu o som das esporas e soube que o irmo mais velho estava se aproximando da cama.
   -        J tive ressacas terrveis que no fizeram o quarto rodar desse jeito.
   -        Eu me lembro - Conner respondeu. - Suas costas parecem um ferro em brasa. Hazer contou que voc entrou no acampamento cavalgando devagar, como se no 
conseguisse sustentar-se sobre o cavalo, e delirando como se a febre o castigasse. Mas se j est tentando sentar-se, Sofia deve ter operado mais de um de seus 
famosos milagres.
   -        Sim. - Apesar da tontura, identificava a questo no comentrio do irmo e preparou-se para o que sabia estar por vir. Conner no papel de proprietrio 
do Rocking K, agindo como o irmo mais velho, ou comportando-se como se fosse o pai. A verdade era que o resultado seria o mesmo.
   -        Parece que enfrentou problemas. E dos grandes, a julgar pelo...
   - No se importe comigo, Conner. Onde est Dixie? Como ela vai indo? Preciso ver se...
   -        Fique quieto - ele ordenou, pousando a mo sobre o ombro do irmo para impedi-lo de levantar-se. Notando que Ty encolhia-se cada vez que tocava a pele 
queimada pelo sol, afastou-se em seguida. - Mame e Sofia esto com ela. Sua amiga tem uma febre que se recusa a ceder, e o ferimento prximo da lateral esquerda 
infeccionou. Mas, nas condies em que est, no ser muito til. Alm do mais, ainda no me explicou por que voltou para casa como se houvesse acabado de perder 
uma batalha para o diabo.
   Saber que Dixie estava viva e em boas mos provocou uma onda de alvio que o fez respirar fundo. Ela era uma mulher forte e, por mais que odiasse admitir, Conner 
estava certo. No estava em condies de ajud-la.
   - E ento? - Conner incentivou-o, esforando-se para manter a voz baixa e as emoes sob controle.
   - No me pressione. S darei explicaes quando julgar conveniente.
   - Pelo visto, o tempo que passou fora de casa no serviu para aprender boas maneiras. Nem o ensinou a reconhecer o valor de cada coisa e das pessoas que...
   - Conner! - O tom suave e firme foi eficiente. Ao perceber que o irmo se calava, fitou-o pela primeira vez e descobriu que estava perto da janela, de costas 
para ele. - Sei que quer explicaes, e tem toda a razo de pedi-las - disse resignado. - Mas preciso de uma cala. Depois de verificar com meus prprios olhos o 
estado de Dixie, ento direi tudo o que quiser saber.
   Ouvindo a rispidez que cortava a voz do irmo mais novo, Conner aproximou-se da jarra deixada sobre a cmoda e encheu um copo com o lquido claro e fresco.
   -        Beba isto - disse. - Est parecendo um sapo.
   A luz do sol que penetrava pelas frestas da janela incidiu sobre os olhos de Ty e ele franziu a testa antes de aceitar a oferta de Conner. No precisava ver o 
rosto do irmo para saber que sua expresso tambm era carrancuda. Na verdade, seu rosto era sempre uma mscara de contrariedade e ressentimento quando se encontravam 
frente a frente.
   Ty bebeu toda a limonada doce e gelada. Depois limpou a boca com o dorso da mo e devolveu o copo a Conner.
   -        Sofia ainda faz a melhor limonada que j provei -comentou, deslizando a mo sobre os lenis limpos. - Camas macias, roupas bem lavadas, comida quente 
e um teto que no deixa a chuva cair sobre nossas cabeas. Um lar.
   -        Estou surpreso por notar ou dar importncia a esses detalhes. Afinal, raramente  visto por aqui.
   -        E ns dois sabemos por qu, no , Conner?
   Tratava-se de um desafio que o mais velho dos Kincaid recusou-se a responder. Mesmo assim, no pde deixar de mostrar que no recebia o tratamento desrespeitoso 
com descaso. Chutando um p do par de botas deixado ao lado da cama, disse:
   - Vejo que est usando calados maiores. Perfeitos para o tamanho da sua boca...
   - Por mais difcil que julgue admitir, Conner, eu cresci desde a ltima vez em que nos vimos.
   -        Deixe Sofia aliment-lo por alguns dias, e talvez eu acredite.
   Ty fez uma careta e pegou a cala que o irmo jogou sobre a cama. Era o mximo que receberia em termos de boas-vindas.
   Temendo levantar-se e cair, Ty ficou sentado na beirada da cama e lutou com a pea de algodo macio. A cala estava um pouco apertada, e logo ele percebeu que 
a roupa lhe pertencia, e que a deixara com todas as outras ao partir. Olhou para as botas que Conner ajeitou a seus ps, mas no tentou cal-las. Conhecia suas 
limitaes.
   -        Diga-me, onde mame instalou Dixie?
   -        No quarto ao lado - o mais velho respondeu, tirando as luvas de trabalho e prendendo-as no cinto. - Ns a acomodamos no antigo quarto de Logan.
   -        No dormitrio de Logan?
   -        Foi o que eu disse.
   -        E onde ele est?
   Irritado, Conner tentou manter a calma.
   -        Logan decidiu se mudar para o alojamento dos pees h cerca de um ano. - Puxou o chapu sobre os olhos. O movimento o ajudou a esconder a preocupao 
quando Ty levantou-se e oscilou sobre as prprias pernas. Qualquer oferta de ajuda seria recebida com uma negativa rspida, por isso nem tentou aproximar-se. Tudo 
que podia fazer era ficar onde estava e observar enquanto o irmo caminhava lentamente at a porta.
   Quando tocou a maaneta, Ty virou-se e olhou para Conner. Devagar, balanou a cabea.
   -        Ento, conseguiu expulsar Logan, tambm. Jamais entendi esse seu comportamento. Papai o deixou no comando de tudo. O rancho, as minas, ns... E no entanto... 
Acho que ele nunca percebeu que o primognito no passava de um bastardo ganancioso.
   -        V para o inferno, Ty. No vou ouvir suas tolices novamente.
   -        Tolices? Tolos so os meninos. Olhe para mim, meu irmo. No sou mais um garoto.
   -        Ento, pare de agir como se fosse. Papai me deixou no comando. Nunca pedi essa responsabilidade. Nunca a desejei, para ser mais honesto. Mas quem se 
importava com o que eu queria?
   Ty olhou para o irmo sem soltar a maaneta da porta, temendo cair. Era um homem alto, forte, duro e imponente, altivo como um pinheiro e rgido como o ao. As 
botas e as roupas ainda estavam empoeiradas, evidncias de que estivera trabalhando desde o nascer do sol. Ty nunca negara que Conner fazia mais que sua parte para 
manter o rancho funcionando e supervisionar a operao das minas. E ningum poderia imaginar que ele fosse o patro, julgando apenas por suas roupas.
   Mas coloque-o no meio de um grupo de homens, e sua postura seria mais que suficiente para que todos compreendem quem dava as ordens. No era cime que ocasionava 
o conflito entre eles. Conner nunca cedia. Era do jeito dele, ou de jeito nenhum.
   Sabia dar valor s coisas que havia conquistado com esforo, e era capaz de cavalgar centenas de quilmetros para recuperar algo que pertencesse ao Rocking K, 
mesmo que fosse apenas um boi.
   O problema era que Conner sempre acreditara que os irmos faziam parte da relao dos bens.
   Ao encar-lo, Ty notou as novas linhas que marcavam a pele em torno dos olhos e da boca. Sabia que fora responsvel por algumas delas quando desafiara as ordens 
do irmo e questionara sua autoridade sobre todos eles.
   E ao fitar os olhos cinzentos como o cu que antecede uma tempestade de inverno, percebeu que Conner ainda esperava atitudes desafiantes de sua parte.
   -        Mais tarde - disse. - Mais tarde.
   - Estarei esperando, meu irmo. - Mas no havia calor na voz dele. Sufocara sua impacincia e no exigira explicaes sobre os problemas que Ty trouxera ao voltar 
para casa. Continha o mpeto de dizer que tudo que pertencia aos Kincaid tambm era dele, desde que demonstrasse algum interesse.
   Olhou para a porta aberta e pensou na jovem que lutava para sobreviver. Dixie. Agora tinha um nome para referir-se ao que trouxera o irmo de volta, contrariando 
a promessa de nunca pedir sua ajuda novamente.
   Conner fechou os olhos e massageou as tmporas. No podia pression-lo. Teria de esperar. E esperava que Ty no explodisse quando tomasse conhecimento sobre Logan.
   Ty segurou-se na parede gelada, surpreso por no ter sido seguido por Conner. No era tpico do irmo mais velho permanecer em casa enquanto houvesse um raio 
de sol ou uma nica tarefa a ser cumprida. Talvez ele houvesse mudado. Com exceo da primeira exploso, conseguira conter o temperamento impetuoso, apesar das 
provocaes.
   No momento em que abriu a porta do quarto que havia pertencido a Logan, Ty afastou Conner da mente.
   A forma familiar de Sofia, a governanta, inclinava-se sobre o corpo nu e imvel de Dixie. Ela murmurava alguma coisa em espanhol enquanto a banhava. Como em seu 
quarto, as janelas haviam sido fechadas para impedir a entrada da luz do sol, mas podia ver que a cor do rosto dela era quase idntica  dos lenis. Os cabelos 
longos haviam sido tranados. Se conhecia bem sua me e a governanta, elas os haviam lavado, tambm. Mas Dixie no se mexia. Devia ter feito algum rudo, porque 
Sofia se virou.
   - Fora! Saia daqui! - Puxou o lenol para cobrir o corpo que banhava e jogou a toalha molhada na bacia.
   -        E assim que me recebe?
   -        Jovens garanhes devem ser mantidos longe das fmeas. - Ela levantou-se e aproximou-se dele, usando o avental para fazer movimentos como os que executava 
para espantar as galinhas no terreiro. 
   - Quando eu terminar de lav-la e vesti-la, voc poder voltar.
   Ty sorriu para a mulher baixinha e rolia que estava  frente da casa desde antes dele nascer e envolveu-a num abrao terno.
   -        Como ela est? - perguntou.
   -Dios mantenha la mujer em Suas mos. Estou fazendo o que posso.
   - O que  muito, tenho certeza. - Abraou-a novamente, dessa vez com mais fora. 
   - Ela precisa sobreviver, Sofia.
   - Ah, corderito. Ela  muito importante para voc, no?
   - Si. - Sabia que no precisava dizer mais nada. Ouvir o velho apelido de infncia o fez sorrir, apesar da preocupao e da fraqueza. Triste, soltou-a e balanou 
a cabea. 
   - No sou mais um carneirinho, Sofia.
   - Para mim voc ser sempre meu corderito. - E olhou para a cama. Muy malo, esta febre. Mas no se preocupe. Sua me e Sofia cuidaro de tudo.
   Ty seguiu a direo dos olhos que contemplavam cama e o crucifixo de madeira na parede, acima dela. Um sorriso saudoso distendeu seus lbios. Santo, o marido 
de Sofia, levara cada um dos trs irmos para recolher a madeira com que haviam feito seus crucifixos.
   -        Como vai Santo?
   - Como sempre - ela respondeu encolhendo os ombros.
   - Como as montanhas, continua aqui, firme e forte.
   - Rosanna deve ter se transformado numa bela mulher. E Rafael deve ser quase um homem.
   -        Si Meus pequenos cresceram. Rosanna vai se casar no ano que vem, e Rafael trabalha como qualquer peo do rancho. Conner est orgulhoso dele. - Levantando 
a mo pequena e rolia, tocou a testa de Ty. 
   - J no tem febre. Fico feliz por ver que est se recuperando.
   Ele segurou a mo que acabara de toc-lo e levou-a aos lbios.
   -        Um beijo para essas mos capazes de operar milagres em corpos alquebrados. Por favor, Sofia, preciso dela viva! Cure-a para mim. Essa mulher merece viver.
   -        E merece o amor?
   -        Sim, muito amor - repetiu com tom suave. - Principalmente o amor.
   -        Vai me contar tudo quando ela estiver curada.
   Perturbado com o tom cortante e srio da governanta, certo de que no estava preparado para examinar os prprios sentimentos, muito menos discuti-los com algum, 
procurou por uma distrao.
   -        Que cheiro  esse, Sofia? - perguntou, levando as mos dela ao nariz. - Andou fazendo capirotada? Ela riu como uma criana feliz.
   -        Canela, cravo-da-ndia, anis, acar escuro... - Ty parou para pensar.
   -        J esqueceu? Que vergonha, corderito.
   Sabendo que a deixaria contente, ele abaixou a cabea como fazia quando, ainda garoto, a procurava para pedir sua sobremesa favorita, pudim de po.
   -        Diga-me, Sofia. Fez capirotada?
   -        Si, si! Quando viu que voc estava dormindo em paz, sua me me incumbiu de preparar alguns pratos especiais, enquanto ela cuidava da jovem. Passei a 
manh toda na cozinha.
   -        A manh toda?
   -        Si.  quase hora do jantar. Deixamos voc dormir at despertar por conta prpria, porque no h remdio melhor para os enfermos e cansados. - Ela beijou 
suas mos e sorriu. - Agora v. Trate de arrumar-se melhor enquanto cuido da moa. Mandarei cham-lo quando ela estiver apresentvel.
   -        Sofia, quem voc acha que cuidou dela...
   - No quero ouvir mais nada! Agora est na sua casa, e conhece as regras. Ela  sua mulher, mas no  sua esposa. E voc  um hombre!
   - Fico feliz por saber que algum percebeu que no sou mais um garoto.
   - Para mim, ser sempre meu adorado corderito. Conner nunca foi um nio. Aquele j nasceu adulto.  uma pena e uma vergonha que insistam em brigar.
   -        Ns no brigamos, Sofia. Na verdade, no brigaria com ele neste momento por nada. Tudo o que quero  ver Dixie curada.
   - Farei o que for possvel. - Tentou bloquear o caminho que o separava da cama, mas, ao ver a agonia em seu rosto, cedeu com um suspiro resignado. - Um momento. 
Seja rpido.
   Ty apoiou-se na cabeceira da cama e inclinou-se para beijar a testa de Dixie. A pele era to quente que queimava seus lbios, e o desespero o levou a fechar os 
olhos por alguns instantes. Se Sofia, com o conhecimento e a experincia que possua sobre os mistrios da cura, no pudesse vencer a febre de Dixie, ningum mais 
poderia.
   - Agora v.
   Ty respirou fundo e afastou-se da cama.
   -        Est bem, eu irei. Mas mande algum me chamar assim que terminar de banh-la, por favor.
   -        Rezaremos e faremos com que ela se recupere. Por que no oferece uma prece ao Senhor enquanto espera?
   -  melhor voc rezar, Sofia. Usei todo meu estoque de oraes para mant-la viva enquanto vnhamos para c.
   - Que tolice  essa de estoque? Ah, no importa! Temos muitas oraes por aqui, e foram elas que fizeram a felicidade de sua me trazendo-o de volta para casa. 
- Sofia concentrou-se novamente no trabalho. - Agora v. Sua me espera por voc.
   O sorriso sbito e luminoso o fez virar-se. O movimento brusco obrigou-o a apoiar-se no batente da porta por uns instantes, os olhos fixos no rosto carinhoso 
e adorado diante dele.
   -        Ty - Macria Kincaid sussurrou o nome do filho. Passara boa parte da noite em viglia, observando seu sono com um misto de alegria e apreenso. S algo 
desesperador devolveria Tyrel aos seus braos. Julgava ter derramado todas as lgrimas, mas de repente a garganta estava novamente contrada, os olhos queimando 
com a necessidade de desabafar a angstia. Tudo que pde fazer foi abrir os braos para receb-lo.
   Ty segurou o corpo delgado da me e sentiu o perfume familiar e doce dos lrios do campo.
   Macria afastou-se e segurou o rosto dele entre as mos.
   -         bom t-lo em casa outra vez, filho. - Estudou seus olhos e sorriu ao ver a surpresa estampada neles. - O que foi? Mudei muito?
   - Ainda  a mulher mais linda do territrio. Mas agora h mais fios prateados nos seus cabelos - notou, tocando a coroa de tranas que ela sempre usara. O polegar 
roou a testa muito alva. -E mais algumas linhas de preocupao, tambm. Espero no t-las causado. Sei que as coisas pareciam terrveis ontem  noite, mas estou 
bem. Quero dizer, sinto uma fome horrvel e um pouco de dor nas costas, mas  s isso.
   Ela o segurou pelo brao.
   -        Venha comigo. Enquanto voc come, aproveitarei para contar tudo que aconteceu por aqui desde que partiu. E voc me dir sobre a jovem que trouxe  nossa 
casa. Mas, antes de mais nada, deixe-me providenciar uma camisa. Receio que as antigas j no sirvam mais.
   - Madre, onde est Logan?
   Ela desviou os olhos e parou junto de um grande armrio no corredor, de onde retirou uma camisa limpa.        .
   -        J esteve com Conner? - perguntou, esperando que o filho se vestisse. -  claro que esteve! - deduziu, vendo que ele franzia a testa. - Seu irmo estava 
ansioso para saber se havia se recuperado.
   - Conner esteve no meu quarto h alguns minutos. No, ns no brigamos. Sim, ele me contou que Logan saiu de casa. O que ele no disse, e nem eu perguntei, foi 
o motivo que o levou a partir.
   -        Era o que eu temia. Vamos deixar esta conversa para depois da comida, est bem? Atualmente Rosanna me ajuda na cozinha. Sofia contou que ela vai se casar?
   Sabia que quando a me tomava uma deciso, nada a convencia a mudar de idia. Por isso no insistiu. Falando sobre amenidades, acompanhou-a at a cozinha.
   Mas no foi a beleza morena e imponente de Rosanna que chamou sua ateno, e sim o homem alto e forte que entrou no aposento instantes depois. Os cabelos escuros 
dos quais se lembrava haviam embranquecido, brilhando contra o rosto bronzeado e marcado pela passagem do tempo.
   -        Santo!
   -        Seus olhos sofreram algum prejuzo enquanto esteve longe de casa?  claro que sou eu! - ele respondeu com tom amoroso. - Saiu daqui ainda garoto, e agora 
volta um homem. El patrn ficaria orgulhoso se pudesse v-lo, filho. Vamos, venha cumprimentar um velho como manda a boa educao.
   - Velho? Voc? Nunca! - Ao abra-lo, Ty percebeu que Santo ainda tinha muita fora no corpo, apesar dos cabelos brancos.
   -         bom t-lo de volta, garoto. E nem pense em partir novamente, porque precisamos de ajuda por aqui.
   Ao ver que Ty se livrava dos braos do amigo e empregado e abaixava a cabea, Macria aproximou-se.
   -        Ty? Veio para ficar?
   -        Fao questo de sua presena no meu casamento - Rosanna falou, acrescentando mais pratos  mesa posta com cuidado.
   -        Responda - Santo insistiu.
   -        Tenho uma promessa a cumprir, e no poderei cumpri-la se ficar aqui.
   -        Uma promessa? - Macria estranhou.
   - Trata-se da jovem que trouxe para casa com voc, no ? Rosanna arriscou um palpite.
   - Exatamente. Prometi a Dixie que iria procurar o responsvel pela morte de seu pai e por seus ferimentos. E fiz a mesma promessa a Deus, caso ele poupasse sua 
vida.
   - Por Dis! Voc procura um animal, meu filho. Porque um homem capaz de atirar numa mulher no  digno de pertencer  raa humana! - Santo exclamou furioso.
   Mas Ty no respondeu. Viu a cor desaparecer do rosto materno e, em silncio, abaixou a cabea.
   -        Primeiro voc, depois Logan. Agora me diz que pretende partir novamente.
   -        Logan se foi? - ele perguntou confuso.
   O silncio tornou-se tenso enquanto Ty buscava respostas no rosto de Santo e Macaria. Rosanna mantinha-se de costas para ele.
   -        Ningum vai responder? Ento terei de ir atrs de Conner! - explodiu.
   -        No se incomode, meu irmo. Estou bem aqui.
   
   
   CAPTULO XVII
   
   Ty virou-se e oscilou sobre as pernas. Com um gesto, impediu que Santo se aproximasse para ampar-lo e puxou o banco de madeira que ficava ao lado da mesa. Odiava 
revelar fraqueza diante do irmo e da me, mas precisava sentar-se, ou acabaria caindo.
   -        J chega - Macria determinou. - As perguntas tero de esperar. Rosanna faa um prato para o meu filho. Santo, traga o vinho! - Virou-se para Conner, 
a voz assumindo um tom muito mais suave. - Far a refeio com seu irmo?
   -        No  a mim que deve perguntar.
   -        Para o inferno, Conner!
   -        Ty!
   -        Perdo, madre. - Encarou o irmo. - Sente-se  mesa comigo. Ningum vai conseguir me fazer engolir toda esta comida.
   Conner acomodou-se no banco do lado oposto e agradeceu quando Rosanna ps um prato diante dele. Santo serviu o vinho em dois copos e, a um sinal da dona da casa, 
saiu da cozinha acompanhado pela filha.
   -        Muito bem, vocs comero juntos, bebero juntos, e depois conversaremos juntos. Certo?
   Era uma cena que havia vivido diversas vezes na infncia, e Ty no pde conter o riso ao ver a careta que Conner fazia. Desde pequeno, ele sempre reagira torcendo 
o nariz para as ordens alheias, inclusive as da me.
   -        S, madre - disseram em unssono.
   - Muito bem. Vou ver se Sofia precisa de alguma coisa. Quando terminarem, procurem-me.
   Macria virou-se ao alcanar a porta e olhou para o filho mais velho. A comunicao era silenciosa, mas nunca precisaram de palavras. Ela os deixou certa de que 
Conner controlaria o temperamento explosivo e diria a Ty apenas o estritamente necessrio sobre Logan.
   -        Muito bem, quero saber tudo sobre nosso irmo - Ty exigiu assim que ficaram sozinhos.
   -        H cerca de seis meses descobrimos que algum estava roubando o gado do rancho. Logan tinha algumas suspeitas sobre o local onde os animais eram escondidos, 
mas os bandidos devem ter percebido alguma coisa, porque abandonaram o esconderijo levando o produto do roubo. Logan decidiu persegui-los, e desde ento no voltamos 
a v-lo.
   -        O qu?
   - No desistimos de procur-lo, Ty. Eu mesmo estive...
   -        Maldio, Conner, sei que no deixaria de procur-lo! A convico por trs da afirmao simples foi suficiente para garantir o silncio do mais velho.
   Ty encarou-o.
   -        No esperava ouvir isso, no ? Quaisquer que tenham sido nossas diferenas ao longo dos anos, sei que vasculharia o inferno, se fosse preciso, caso 
um de ns estivesse encrencado.
   -        Bem, parece que no posso mais cham-lo de garoto.
   -        Tem certeza? Ainda  dois ou trs centmetros mais alto do que eu. - Sentia que as emoes de Conner eram intensas e poderosas, como as dele, e sabia 
que nenhum dos dois estava preparado para discuti-las de imediato. Por isso apelou para o bom humor a fim de amenizar a tenso.
   Seu pensamento se confirmou quando Conner falou:
   -        Sim, tenho alguns centmetros e vrios quilos mais que voc. E quando vir Logan...
   -        Sim, quando nos encontrarmos... - Ty confirmou, trocando um voto silencioso com o irmo quando os olhos encontraram-se.
   -        Bem, ento saber que ser sempre o menor de ns. No entanto, voc cresceu por dentro.
   -        Tem razo. Quanto a Logan...
   - No, espere! Antes de discutirmos os planos para encontrarmos Logan, quero saber mais sobre a promessa que fez a Dixie. Ou por ela.
   - Voc ouviu tudo o que havia para ser dito. - Ty brincou com o copo de vinho, os olhos vagando pela cozinha. Viu sem notar as panelas de ferro negro penduradas 
nos ganchos, os tamanhos to variados que era possvel preparar uma refeio para duas ou quarenta pessoas. Pratos de cermica colorida ocupavam as prateleiras que 
cobriam boa parte das paredes, e ervas amarradas em fardos secavam penduradas nas vigas do teto. De onde estava, podia ver a despensa repleta de potes de barro e 
sacos de algodo. Sabia que o reservatrio das tortas devia estar cheio, como sempre, porque esse era o orgulho de Sofia. S ela possua a chave do precioso recanto, 
pois Macria a fizera responsvel por toda a cozinha desde que se casara.
   -        Ty? No quer falar sobre o assunto?
   O fato de Conner estar perguntando, em vez de exigir, o fez encar-lo. Se Logan estivesse ali, no teria hesitado. Logan no s ouviria com ateno, como insistiria 
em ajud-lo. Mas era Conner quem o fitava com aquela expresso enigmtica e sria. Pensou no que Sofia havia dito sobre seu irmo, sobre nunca ter sido uma criana, 
e de certa forma foi obrigado a concordar. Ainda no tinha sequer alcanado a idade necessria para compreender o que era um rancho e ele, seis anos mais velho, 
j trabalhava oito, at dez horas por dia.
   O problema era que no sabia como Conner receberia o que tinha a dizer. Se algum tocasse numa folha de rvore do Rocking K, teria de acertar contas com Conner. 
Mas Dixie no pertencia ao rancho. No era uma Kincaid.
   E, em vista do desaparecimento de Logan, Conner no gostaria de ouvir que Ty no tinha inteno de permanecer na propriedade.
   -        Sabia que no devia contar com sua confiana - ele comentou, levantando-se sem desviar os olhos dos dele. -Diga a madre que tenho algumas tarefas a concluir. 
Irei v-la depois do jantar.
   - Diga voc mesmo, quando concluirmos nossa conversa. - As palavras eram resultado de um impulso provocado pelo cansao que acabara de ver nos olhos do irmo. 
Talvez houvesse crescido o suficiente para perceber que Conner havia carregado muitos fardos sozinho.
   Ele se sentou.
   Ty comeou a falar.
   E no corredor, Macria sorriu para Santo, antes de seguirem em direes distintas.
   Macria fechou a porta sem fazer barulho.
   -        Como ela est, Sofia? - perguntou interessada.
   - A moa bebeu um pouco de limonada.  um bom sinal, seora. A febre no cedeu. Mas ela  jovem, forte... e muito bonita.
   -        Realmente. E esta linda jovem significa muito para a felicidade de meu filho. - A voz de Macria no sugeria dvidas ou rancor, nem ressentimento pela 
governanta ter sido a primeira a saber sobre a escolha de Ty. Muitas vezes haviam conversado sobre os trs filhos, e sabia que Sofia e Santo eram confidentes mais 
que dignos da confiana de um Kincaid.
   -         como diz - Sofia concordou com um sorriso, afagando a testa de Dixie ao ver que ela se movia com agitao inquietante. - Ela chamou por ele vrias 
vezes.
   -        Ento temos de cuidar para que se recupere rapidamente, porque decidi recompens-la generosamente por ter trazido meu filho de volta. Ela poder pedir 
o que quiser, e atenderei ao pedido sem hesitar.
   -        A moa trouxe problemas, seora.
   -        Ento porei a fortuna Kincaid  sua disposio para que solucione cada um deles.
   - E se ela desejar o corao de seu filho? Tambm reagir com a mesma generosidade?
   -        Se meu filho a ama e  correspondido, ento nada dever ficar no caminho de to belo sentimento. No permitirei que ele nos deixe outra vez. O lugar 
de Ty  aqui, nas terras que eu trouxe para o meu casamento. Enquanto estamos aqui, tentando salvar a vida da mulher que ele escolheu, Ty conspira com Conner para 
ocultar de mim seus problemas.
   -        Ento no tem do que reclamar - Sofia sorriu, voltando a banhar o corpo febril de Dixie. - Deus ouviu suas preces, seora. Agora seus filhos aprendero 
a permanecerem unidos. J era hora!
   -        Ainda no, Sofia. Logan precisa voltar para casa.
   
   Havia uma suavidade na escurido da noite que caa como um manto confortvel sobre a terra quando Ty entrou no quarto de Dixie. Sabia que esses primeiros indcios 
de paz eram provenientes da conversa que tivera com Conner. Era difcil acreditar que haviam conseguido falar com honestidade, sem reservas ou ressentimentos. E 
ele havia falado mais que o irmo.
   Conseguira a garantia de Conner de que, antes do amanhecer, o mundo saberia que os Kincaid buscavam um homem chamado Thorne.
   Tomara providncias para certificar-se de que o sujeito seria encontrado. Apesar dos protestos de Conner, oferecera uma recompensa no valor de sua parte nos lucros 
acumulados da mina: vinte mil dlares. Quando percebera que Ty no estava disposto a ceder, Conner aceitara sua deciso.
   Jamais havia pensado na riqueza que o irmo guardara para ele. E olhando para Dixie, soube que seria capaz de oferecer qualquer coisa para fazer aquela febre 
ceder.
   Rosanna mantinha viglia constante. Suas costas eram to eretas quanto o encosto da cadeira onde ela estava acomodada, ao lado da cama. Sorrindo, ela levou um 
dedo aos lbios para pedir silncio e ofereceu seu lugar. O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado por uma lmpada muito fraca cuja luminosidade no alcanava 
os cantos do aposento.
   Ty ergueu a mo inerte de Dixie e levou-a aos lbios. Como se nem se lembrasse da presena de Rosanna no quarto, apesar do rudo montono da cadeira de balano, 
seus pensamentos estavam voltados para a mulher deitada sobre a cama.
   Os cabelos pareciam quase negros contra a pele plida. Cauteloso, levou o dedo  veia que pulsava em seu pescoo e, por um momento, manteve-o ali, como se quisesse 
transferir para ela a prpria vida. O medo que o mantivera prisioneiro durante os ltimos dias voltou a atorment-lo quando inclinou-se para sussurrar no ouvido 
dela.
   - Nunca tive muito jeito com as palavras, Dixie, mas sinto que preciso falar. Quero que lute, meu anjo. Quero poder consertar o mundo para voc. Estou com saudade... 
- A garganta se fechou e ele ergueu o corpo.
   Mais uma vez segurou a mo dela, os olhos fixos no crucifixo sobre a cama. Fitando-a, vendo como permanecia imvel e plida, temeu por sua vida. Ty escorregou 
da cadeira para o cho, onde se ajoelhou. Inclinando a cabea, pressionou a mo muito quente contra a prpria testa.
   E rezou.
   E prometeu.
   E continuou rezando durante muito tempo, at adormecer. Sonhou com seu sorriso, com a voz firme e a atitude corajosa, e em sonhos orou mais uma vez, pedindo 
a Deus que a devolvesse  vida.
   Horas mais tarde ele tentou mover-se e, dolorido, despertou. Confuso, percebeu que estava ajoelhado, o rosto molhado apoiado sobre a cama. Havia chorado. Levantou 
a cabea para verificar se molhara o lenol a ponto de incomod-la e descobriu que Dixie estava ensopada.
   Aos poucos a compreenso o invadiu.
   -        Dixie. Dixie - sussurrou, as mos trmulas tocando seu rosto.
   Ela tambm estava molhada, mas no por ter chorado. A febre finalmente cedera e o suor ensopava os lenis e o travesseiro.
   -        Rosanna! - Chamou apavorado. - Onde est o...
   -        Devagar, meu filho. Fale baixo - Macria o aconselhou. - A crise foi superada. Saia para que eu possa mudar a roupa de cama e banh-la. Sofia est esperando 
na cozinha. - Abraou-o com um sorriso aliviado. - Diga a ela que nossas preces foram atendidas.
   Ty passou o resto da noite impaciente, esperando pelo momento de estar com Dixie. Sofia e Macria haviam ordenado que Santo guardasse a porta do quarto enquanto 
cuidavam dela, prometeram que mandariam cham-lo assim que ela pudesse falar.
   Conner o encontrou no salo. Quando entrou, levava caf e ordens para que Ty fosse tomar um banho e barbear-se.
   - Madre? - ele perguntou, aceitando a xcara fumegante.
   -        Sim, so ordens dela. E de Sofia - Conner respondeu. - No quero que Dixie saiba sobre a recompensa. Existem algumas coisas que deixei de mencionar 
a respeito dela.  teimosa, obstinada, orgulhosa... - Olhou para a xcara, refletindo sobre o que mais podia revelar.
   -        Ainda no consegue confiar em mim?
   - No - Encarou-o. - Preciso de sua palavra, Conner. Quando Thorne for encontrado, far com que Dixie permanea no rancho. No quero o sangue daquele bastardo 
nas mos dela.
   -        Tem idia do que est dizendo?
   -  claro que sim. H alguns dias ainda no sabia como reagiria se ela me pedisse para matar Thorne. Nunca aluguei minha pontaria durante todo o tempo que passei 
longe de casa.
   -        Mas matou alguns homens.
   Os olhos encontraram-se e Ty soube que no precisava oferecer explicaes ou justificativas. Conner compreendia. Na verdade, estava certo de que o irmo sabia 
mais sobre o que estivera fazendo do que deixara transparecer.
   -        Sobrevivi - disse, encolhendo os ombros. - Mas tem de entender que quero aquele bandido no s para dar paz a Dixie, para que ela saiba que a morte do 
pai foi vingada. Eu o quero pelo que ele fez com ela. No s agora, mas antes.
   -        Vai me deixar acompanh-lo?
   -        No. Por favor, no me pea isso, Conner. Essa luta me pertence. Alm do mais, como o Rocking K sobreviveria sem voc aqui?
   Conner riu.
   -        Esqueceu que nossa me  uma mulher muito competente? E ela conta com a ajuda de Santo.
   -        Ei, esto falando de mim?
   Os dois se viraram e viram Santo na porta. Ty adiantou-se, as duas mos em torno da xcara.
   -        O que houve?
   - Vim ver se j se preparou para ir ao encontro da moa.
   Ty deslizou uma das mos pelo rosto barbudo. Um sorriso distendeu seus lbios e ele se virou, perdendo o olhar trocado entre Conner e Santo.
   -         melhor ir me preparar - disse.
   -        Sim, v se arrumar. Conversaremos novamente mais tarde.
   Santo afastou-se para deix-lo passar pela porta, depois entrou no salo e fechou-a sem fazer barulho.
   -        A situao est melhor entre vocs dois?
   -        Muito melhor. Teve notcias de Logan?
   -        Acha que eu ainda estaria aqui se soubesse alguma coisa? Rafael est preocupado.
   Conner sentou-se no sof e olhou para a ponta das botas.
   -        E Enrique? Tambm est preocupado?
   -        O noivo de Rosanna tambm se tornou amigo de seu irmo. Todos os dias ele pergunta se temos alguma novidade.
   - Desculpe-me, Santo. A volta de Ty nos trouxe mais problemas, e justamente quando eu j me considerava afogado neles.
   -  sempre assim que a vida trata os mais fortes. Venha, Conner. O trabalho nos espera.
   
   Dixie sussurrou seu nome instantes depois de Ty entrar no quarto. Os olhos estavam nela, no na me ou em Sofia, que retrocederam depois de ajeitar os lenis 
limpos sobre o corpo recm-lavado.
   - Seja bem-vinda  minha casa, anjo. - Ele se inclinou para murmurar as palavras, incapaz de conter o desejo e acariciar seu rosto. A pele era fresca e ele sorriu 
ao sentir os lbios em sua mo. - No fale agora - pediu, notando que ela tentava dizer alguma coisa. - Teremos muito tempo mais tarde. Todo o tempo de que precisarmos. 
Descanse. Estarei bem aqui quando voc acordar.
   As palavras firmes devem t-la tranqilizado, porque em seguida Dixie fechou os olhos.
   - No sei se pode me ouvir, meu anjo, mas quero lhe falar sobre as promessas que fiz por voc. Quero lev-la para conhecer todo o rancho quando puder cavalgar 
novamente. Sofia a alimentar com sua comida deliciosa e Santo encontrar a mais vibrante de todas as guas. Eles faro Rosanna nos acompanhar a todos os lugares, 
e voc conhecer Conner. Ele  um pouco rspido e frio, mas  um Kincaid, tambm. Descanse, amor. E durma.
   Ty no a deixava sozinha nem por um instante. Mas,  medida em que foi ficando mais forte e os ferimentos comearam a cicatrizar, depois de trs semanas, Dixie 
percebeu que ele estava comeando a assumir novamente o comando da situao.
   Era ele quem a guiava para conhecer as belezas da propriedade Kincaid. Primeiro a colocava sobre o cavalo, entre seus braos, e cavalgava devagar para no cans-la. 
Seguiam pelo vale e descansavam sob as rvores, onde saboreavam a deliciosa comida de Sofia e conversavam.
   Ele era o amigo que ouvia as recordaes da infncia oferecia confidncias e provocava gargalhadas com suas brincadeiras inocentes.
   Era o protetor, gentil terno, detendo-a sempre que tentava ir alm do limite.
   Mas Ty Kincaid recusava-se a ser seu amante novamente.
   Alm de um casto beijo de boa-noite na porta do quarto, mantinha distncia. Era verdade que raramente ficavam sozinhos. Quando Rosanna no os acompanhava, um 
dos pees do rancho estava por perto, atento a cada movimento que faziam.  noite, quando passeavam pelo jardim que era a alegria e o orgulho de Macria, Santo e 
Sofia ficavam sentados na varanda acompanhando seus passos.
   Dixie tentava demonstrar que estava mais forte a cada dia, e procurava alimentar-se bem e cuidar da sade da melhor maneira possvel.
   Ty a ignorava.
   Dixie aceitou os conselhos de Macria sobre adiar o plano de vingana at estar curada, e tambm aceitou os vestidos que ela e Rosanna providenciaram.
   Ty no parecia notar.
   Sabia que ele se preocupava com seu bem estar. Tinha lembranas vagas da voz profunda sussurrando em seu ouvido nos momentos mais difceis, fazendo promessas 
que no conseguia recordar.
   Quando perguntava, Ty respondia que tudo no passara de um sonho.
   Tentava discutir com ele seus planos de partir. Ty respondia que ainda era cedo para ela fazer planos.
   O temperamento explosivo ameaava domin-la. A frustrao crescia. E com ela vinha a necessidade.
   Desejava-o. Aprendera a confiar nele, mas no conseguia derrubar a parede que Kincaid construra entre eles.
   
   Ty sempre a surpreendia fitando-o com tanto desejo, que sentia rasgar-se por dentro. Estava fazendo tudo que podia para proteg-la nesse momento de fragilidade. 
Dixie precisava ficar sozinha para recuperar a fora e coragem que sempre havia admirado, e no encontraria paz se soubesse como a desejava.
   Era um pesadelo. Dixie flertava com ele, era obrigado a ignor-la. V-la todos os dias era uma tortura  qual poderia pr fim rapidamente, mas no v-la seria 
mil vezes pior.
   Conseguia ignorar quase todos os comentrios que ela lanava em sua direo nos momentos de maior tenso. Dixie era a nica pessoa capaz de lev-lo a controlar-se. 
Com ela, sentia-se capaz de conter todos os mpetos e impulsos, porque era necessrio conter o desejo que o mantinha acordado at tarde da noite.
   Para os que o questionavam, dizia que a frustrao era devida ao fato de ainda no terem notcias de Thorne. Mas Conner conhecia a verdade. Todos sabiam. Quem 
quer que o visse ao lado de Dixie poderia perceber a paixo que o queimava.
   Ty temia o que sentia por ela. Uma fria cega o invadia cada vez que pensava naqueles momentos de terror na montanha. Thorne pagaria pelo que fizera.
   No queria amarrar-se. No que Dixie houvesse mencionado a palavra casamento, mas notara a especulao nos olhos da me, e procurava sempre evitar qualquer tipo 
de discusso em torno de suas intenes.
   O precipcio emocional sobre o qual mantinha um equilbrio precrio o deixava nervoso e irritado. Pensar em amar Dixie era algo muito complicado num momento em 
que tinha de concentrar-se em Thorne. Precisava encontr-lo e elimin-lo, pois s assim teria certeza de que Dixie estaria segura.
   Permanentemente.
   E tinha de agir depressa.
   Era um homem preso no visco. No podia partir e no podia ficar.
   Como numa tempestade que vai se formando lentamente, algo teria de se romper.
   Saber disso o fazia sentir-se como se caminhasse sobre o fio de uma navalha.
   Observ-lo era suficiente para fazer aqueles que o amavam sentirem-se impotentes. Todos. Inclusive Dixie.
   
   
   CAPTULO XVIII
   
   Ty caiu do fio da navalha. Thorne havia sido visto. Ao amanhecer, Conner o procurara para dizer que o bandido fora visto em Ajo, a sudeste do rancho. A discusso 
que ocorrera em seguida fora breve e fria. Ty iria atrs de Thorne. Partiria na mesma noite, sozinho, assim que tivesse certeza de que Dixie dormia. Nada poderia 
det-lo.
   No esperava que ela fosse confront-lo na cozinha enquanto a fria ainda fervia em seu peito. Podia dizer o momento exato em que ela a sentira. E no tinha como 
evit-la. No sem mago-la.
   Dixie tinha crculos escuros em torno dos olhos para atestar a falta de sono. Ouvira quando ela abria a janela do quarto e soluara, porque tambm estivera acordado, 
olhando para a escurido enquanto o desejo o consumia. No sabia onde encontrara foras para no ir procur-la.
   Mas agora no havia a menor dvida em sua mente. Ao v-la entrar na cozinha e encar-lo, soube que teria de fazer de tudo para impedir que ela descobrisse sobre 
Thorne.
   No esperava que a nsia nos olhos dela refletisse a sua. No contava com a paixo deflagrando um incndio to rpido.
   E nunca, nunca havia previsto a possibilidade de Dixie agir movida por esse sentimento.
   Ela se aproximou exibindo as curvas delicadas sob a camisola de algodo, os olhos cintilando de desejo e os lbios murmurando seu nome numa splica alucinada.
   E ali, nas horas geladas que antecediam o nascer do sol, Dixie segurou seu rosto para impedir que desviasse os olhos dos dela.
   - J chega, Ty. Quero saber por que est negando o que existe entre ns. Tem medo de que eu faa cobranas? No farei. Jamais pensaria em mant-lo a meu lado 
contra sua vontade. Mas passei as ltimas semanas precisando de voc, precisando do seu abrao, do seu carinho - confessou, jogando fora o orgulho e esperando poder 
manter oculto o amor que sentia por ele.
   A honestidade de Dixie fez ruir o muro que Ty havia construdo. No havia como proteg-la da nsia despertada pelo mais delicado toque de suas mos. No suportava 
a idia de ouvir mais uma palavra formada por aqueles lbios sem antes sabore-los.
   Um beijo... Apenas um beijo...
   Lembrou-se de ter pensado isso antes. No havia sido bem assim. As agora era mais forte. Pretendia reconfort-la com um beijo, porque sabia que as palavras nem 
sempre so teis.
   A memria o traiu.
   Havia deixado de pensar em como a boca era macia sob a dele, como o calor se espalhava rapidamente quando os corpos se tocavam. Esquecera o sabor, a generosidade, 
a liberdade com que ela se entregava  mais sutil das carcias.
   Pensou em deix-la crer que no a queria. Mas no era forte o bastante para esconder o desejo.
   Ty interrompeu o beijo. As mos de Dixie permaneceram em seu rosto. Os olhos estavam fixos em sua boca.
   -        No me olhe assim... - ele a preveniu.
   Dixie no se moveu. Nem piscou.
   -        No sou feito de pedra, anjo.
   -        Ento, por que no se move? Afaste-se. D as costas para mim e para o que estamos sentindo. - Ergueu-se na ponta dos ps para roar os lbios nos dele.
   Sabia como era doloroso suplicar. A hesitao dele pareceu estender-se por uma eternidade, mas finalmente Ty deixou escapar um gemido rouco, primitivo, e apoderou-se 
da boca carnuda to prxima da dele.
   Podia sentir o gosto do desespero. E da fome. Sabia que ele se continha, como fizera durante as ltimas semanas. Apesar dos sons aflitos, o beijo era gentil. 
Apenas um roar de lbios, quase um gesto de conforto. E Dixie no queria conforto. Nem gentileza.
   As mos abandonaram o rosto msculo para acariciar os ombros. Deixou os dedos penetrarem pela abertura do colarinho da camisa, empurrando o tecido para os lados. 
A necessidade de tocar e ser tocada, de abraar e ser abraada depois de ter estado to perto da morte a tornava destemida, persistente.
   O beijo tornou-se mais ntimo e ela se arrepiou, apesar do calor que os envolvia. Continuaram parados no meio da cozinha, abraados, beijando-se com ardor. Ty 
entregava-se  paixo com um misto de ternura e ressentimento, como se no pudesse mais conter-se e no quisesse ceder. Dixie agarrava-se  camisa dele temendo cair, 
as pernas trmulas e o corpo ardendo com um fogo que era ao mesmo tempo devastador e revigorante. De repente ele interrompeu o beijo e enterrou o rosto na cova formada 
entre o pescoo e o ombro dela.
   -        Dixie, no podemos - gemeu. 
   - No, meu anjo - suplicou, sentindo os lbios em seu peito. 
   - No devia desej-la.
   Mas ela sentia a evidncia desse desejo.
   Ty afastou-a e, determinado, caminhou at a porta, onde ficou ajeitando os cabelos com os dedos numa atitude nervosa.
   -        Talvez seja hora de ir embora. Eu...
   -        No! - Virou-se para encar-la, mas no cometeu o engano de aproximar-se. Sentir o perfume dos cabelos longos e macios seria suficiente para fazer cair 
por terra as resolues que mal acabara de tomar.
   -        Oua, Ty, nada mudou. Ainda pretendo encontrar Thorne e faz-lo pagar por ter matado meu pai.
   -        Esquea! Ele quase a matou, tambm. Acha que v deix-la partir?
   A raiva tomou o lugar do desejo nos olhos dele e Dix suspirou.
   -        Voc no tem escolha. No sou sua propriedade, lembra-se? Nunca pertenci a homem nenhum.
   -        E por acaso eu disse que queria possu-la nesse sentido? Como um objeto? No. Voc nem disse que me queria.
   Dixie manteve os lbios selados por alguns segundos, temendo pronunciar as palavras que se formaram em sua mente. Balanando a cabea, incapaz de compreender 
o que o guiava, tentou argumentar mais uma vez.
   -        No h razo alguma para eu ficar aqui, Ty. Apesar de insistir em negar os fatos, estou curada. Jamais poderei pagar pelo que sua famlia fez por...
   -        Quem est pedindo pagamento? Quem diabos...?
   -        No grite comigo, Ty! No sou...
   -        Esta  minha casa, e aqui eu grito quanto...
   A xcara de caf que ele havia deixado sobre a mesa despedaou-se contra o batente da porta.
   Ty olhou para a Dixie com expresso perplexa.
   -        Tentou me acertar com uma xcara? Ela sustentou seu olhar.
   -        Foi o nico jeito de chamar sua ateno e faz-lo calar a boca.
   - Acho que devia estar de joelhos, agradecendo a Deus por voc no ter uma arma na mo.
   Dixie no pde controlar o arrepio que a sacudiu.
   -        No brinque com isso, Ty. Eu... lamento ter jogado a xcara.
   -        E eu peo desculpas por ter gritado. 
   - No sei por que ando to irritada.
   Ty jogou a cabea para trs e, massageando a nuca, olhou para o teto. Cerrar os punhos no havia adiantado. Contar at cem tambm no o ajudara em nada. E lembrar 
as razes pelas quais tinha de manter-se longe dela tambm era intil. Deixando escapar um suspiro resignado, encarou-a em silncio.
   Dixie permaneceu onde estava, pronta para defender-se ou atacar, conforme a necessidade. Os cabelos estavam tranados e caam sobre um seio. Os laos que deviam 
manter fechada a camisola estavam soltos, revelando uma poro de pele plida como a lua. O sol comeava a romper o manto escuro da noite, e os primeiros raios infiltravam-se 
pela fresta da porta, banhando-a com uma claridade dourada. Dixie era a imagem do desejo. A personificao da tentao.
   -        Ty?
   -        Voc sabe qual  o problema - ele comeou, dando alguns passos na direo dela. - Est irritada porque sofre a mesma privao que eu. Vista-se - ordenou, 
parando antes de toc-la. - Vamos sair.
   -        Mas eu pensei...
   -        Sim, tambm pensei muito. V se vestir, enquanto preparo os cavalos.
   Dixie ainda o encarou por alguns instantes em busca de algum indcio de raiva, mas s viu paixo, desejo e desespero. Sem saber o que esperar, virou-e e saiu 
da cozinha correndo.
   No havia dvida de que Ty a queria. E esse era o nico pensamento que ocupava sua mente enquanto ela percorria o corredor que levava ao quarto.
   Estava to distrada e ansiosa, que no viu quando, atrs de uma porta entreaberta, Macria ps a mo sobre o brao de Sofia para impedir a mulher de segui-la.
   -        No. Esse assunto pertence ao meu filho e  mulher que ele trouxe para nossa casa. No h mais nada que possamos dizer. Agora  ele quem deve decidir.
   -        Vai falar com Ty?
   -        No, Sofia. Ele no me ouviria. Sou apenas a me dele. Dixie  a mulher que ele ama e deseja.
   -        Mas jamais conseguir faz-lo danar no ritmo de sua msica, seora.
   -        Talvez no. Mas ela  forte, e o ama verdadeiramente. Para mim, isso  o bastante.
   -        E para ele tambm deve ser.
   
   A expresso carrancuda afastava todos os curiosos do caminho enquanto cavalgavam. Os traos s se tornavam mais suaves quando olhava para ela. Quisera coloc-la 
diante dele no cavalo e cavalgar como haviam feito ao longo das ltimas semanas, mas no teria sido capaz de ir alm da cerca do curral sem ceder ao impulso de 
possu-la.
   Dixie merecia mais que um segundo encontro rpido e fortuito. J haviam vivido instantes de paixo desmedida, e a falta de cautela quase a levara  morte. Tinha 
o dever moral de conter-se e oferecer mais a ambos.
   Por mais que quisesse, no podia esquecer a possibilidade de nunca mais v-la depois dessa noite.
   Dixie o observava. A tenso dominava o corpo musculoso. Havia algo de diferente em Ty. No sabia o que era, mas tinha a impresso de que estava preocupado. Cada 
vez que ele se virava para fit-la, via a linha estreita formada pelos lbios apertados e o brilho intenso nos olhos, mas no fez perguntas. Se as fizesse, estaria 
criando a oportunidade para ele question-la, tambm. E no queria falar sobre os sentimentos que viviam encolhidos dentro dela, ameaadores, persistentes e dolorosos.
   Sabia que alimentava a dor cada vez que olhava para ele. Mas dizer a si mesma para parar era to intil quanto assobiar contra o vento.
   Atravessaram o riacho onde tantas vezes haviam parado antes, mas Ty continuou cavalgando, guiando o animal por terras cobertas de relva e vegetao. O sol tornava 
o dia quente o bastante para transformar o milho em pipoca, e todos os insetos da regio pareciam querer provar uma gota de seu sangue. Ty, ela notara, no parecia 
se aborrecer com os bichinhos inconvenientes. Pensou em como a beijara com paixo antes de sarem e experimentou um arrepio.
   Ele se virou nesse instante, os olhos brilhantes e o sorriso provocante.
   Dixie o seguiu at aproximarem-se de um lago onde cavalos se banhavam tranqilos. Ty contornou a lagoa para no perturb-los A mente invocava a imagem dos dois 
no rio. Jamais esqueceria. Inquieta, moveu-se sobre a sela sentindo a excitao passear por seu corpo.
   Dixie deixou a gua encontrar o prprio ritmo enquanto escalavam encostas cobertas de relva, cada uma delas levando-os para mais longe da casa dos Kincaid. A 
certa altura olhou para trs e no pde mais ver nenhum sinal de sua passagem. Ao longe, parte do rebanho do Rocking K movia-se devagar, e mal podia identificar 
o peo que conduzia os animais.
   Uma faixa de gua muito azul estendia-se convidativa. A medida em que se aproximavam, Dixie pde ouvir a gua caindo das rochas. A vegetao rasteira deu lugar 
aos salgueiros altivos, mas Ty continuou cavalgando at alcanarem um bosque de algodoeiros.
   Ento parou e desmontou sob uma rvore que lanava seus galhos para a terra. Antes que pudesse imit-lo, ele j estava ao lado da gua ajudando-a a descer.
   Dixie apoiou as mos sobre seus ombros e, apesar das luvas que usava para cavalgar e da camisa fina que o cobria, sentiu os msculos firmes e esculpidos. Fechando 
os olhos, saboreou o prazer de sentir o calor daquele corpo quando, lentamente, ele a ps no cho devagar. Os seios estavam pesados, rgidos, e duvidava de que as 
pernas pudessem sustent-la.
   - Isso - ele sussurrou em seu ouvido ao tirar-lhe o chapu e jog-lo para o lado -  para ter certeza de que sabe como a quero.
   Dixie fitou-o nos olhos e teve a impresso de que Ty estava guardando um segredo.
   -        Ty, se algo o estivesse incomodando, voc me diria? Quero dizer...
   -        Sei o que quer dizer - ele cortou, inclinando-se par beijar o pescoo alvo e delicado. - E  claro que eu diria.
   A voz era abafada, e o calor dos lbios sobre sua pele a fez esquecer a sensao de estar sendo enganada. Dixie tirou o chapu que cobria a cabea dele e, sem 
deixar de abra-lo, livrou-se das luvas.
   No momento em que sentiu as mos nuas deslizando sobre seus cabelos, Ty colou os lbios aos dela e apertou-a entre os braos, castigando-a com a fora do beijo.
   Prometera a si mesmo que iria devagar, que cortejaria a paixo como a uma dama. Por que no lembrara que a nsia de Dixie era to grande quanto a sua? Por que 
havia esquecido que ela s o deixava assumir o comando quando era conveniente? Enquanto tentava conter o mpeto de atirar-se nos braos do desejo, ela o empurrava 
mais e mais na direo o abismo de sensaes. Podia sentir o fogo que fazia tremer seu corpo.
   Dixie tentou conter um gemido quando Ty a ergueu nos braos e acomodou-a sobre a evidncia fsica de seu desejo. Tremendo, abriu a boca para receb-lo e sentiu 
que a excitao crescia rapidamente, ameaando domin-la em pouco tempo. No podia deixar de reagir enquanto ele a acariciava com as mos e os lbios, porque isso 
era tudo que queria. Precisava dele como necessitava do ar que respirava e da gua que bebia.
   Ty ressentia-se contra o esforo que tinha de fazer para controlar-se.
   - Devagar, anjo - sussurrou. - Devagar, ou vai acabar nos incendiando antes que possamos realmente provar do sabor do prazer.
   Dixie abriu os olhos, apesar das plpebras pesadas, e forou um sorriso. Estava to inebriada que no conseguia falar. No queria ir devagar. No queria que a 
razo interferisse nesse momento de sentimentos. Queria a satisfao prometida pelos beijos, mas Ty parecia disposto a trat-la como se fosse feita de vidro.
   Ele depositou um beijo em sua testa, afastou-se e segurou sua mo.
   - Precisamos conversar, e no seremos capazes de falar se continuarmos aqui. Que tal um passeio?
   Um rpido movimento afirmativo com a cabea foi tudo que ela conseguiu oferecer. O instinto colocou-a em estado de alerta. O que quer que Ty tivesse a dizer, 
sabia que no queria escutar. Em algum momento durante o tempo em que estivera doente, perdera a capacidade de endurecer para resistir aos ataques do mundo. Todas 
as defesas que construra cuidadosamente ao longo dos meses que seguiram-se  morte do pai pareciam ter rudo. E no lugar delas existiam os sonhos que um dia acalentara.
   Mas Ty no era um homem para o futuro. Sabia que ele no queria laos que o prendessem. Livre. Rebelde. Essas eram as palavras que as pessoas usavam para descrev-lo. 
Ty no inclua o casamento, uma famlia e filhos nos planos que traava para si mesmo.
   No queria pensar no amanh. O presente era tudo que importava.
   Dixie o acompanhou at a margem do rio. A brisa fresca e a proximidade com a gua amenizavam o calor do sol. Apesar de ter dito que precisavam conversar, Ty guardava 
silncio. Dixie encarou-o seguiu a direo dos olhos que observavam a terra diante deles.
   -        Uma expresso to sria s pode significar que tem algo em mente, Ty. Meu pai sempre dizia que  melhor falarmos aquilo que pensamos, por pior que seja. 
Assim no ficamos doentes de preocupao tentando encontrar as palavras certas, e aquele que vai escut-lo no se inquieta tentando imaginar o que vai ouvir.
   -        Seu pai era um homem sbio, anjo. Mas, por alguma razo, as palavras nunca me ocorrem com facilidade quando estou perto de voc. - Ele puxou-a para mais 
perto e a fez apoiar as costas em seu peito. - Gosta daqui, Dixie?
   -         um bom lar para se construir um lar. Muita gua, vegetao abundante...
   -        Sim, a terra  farta e frtil. Esta parte do Rocking K  minha. - A voz era suave, apesar de ter sentido a tenso que a dominava desde que comeara a 
falar. No conseguia entender o que a deixava to nervosa. Afinal, era ele quem estava prestes a fazer uma proposta que jamais fizera a nenhuma outra mulher. - Acha 
que seria feliz aqui, Dixie?
   -        O que est querendo saber, Ty? Fale claro, sem rodeios. 
   - Voc no tem um lar para onde retornar. E eu quero lhe dar esta terra.
   -        Quer me dar a terra? - Ela girou entre seus braos para encar-lo. - Por qu?
   Havia antecipado todas as perguntas que Dixie poderia formular. Ty retrocedeu e massageou a nuca.
   -        Sem rodeios?
   -        Sem rodeios.
   -        Quero convenc-la a desistir de vingar-se de Thorne. Quero que saiba que tem um lugar seu, onde poder sentir-se segura. Conner gosta de voc. Ele a 
ajudar a construir uma casa. A terra  minha, posso fazer o que quiser com ela, e o que quero  que voc fique com o que me pertence.
   Tentou toc-la, mas ela desviou da mo estendida e virou-se para o rio.
   -        Por isso me trouxe at aqui, Ty? Para me dar um presente? - A necessidade de buscar a verdade em seus olhos era imperiosa, e Dixie encarou-o novamente. 
Ele no havia se movido, mas a mandbula exibia uma tenso que sugeria persistncia, obstinao. - Essa  sua maneira de dizer adeus? Sua famlia deve ficar furiosa 
cada vez que traz algum para casa. Se oferece terra a todas as mulheres de quem deseja se livrar...
   - No diga bobagens, Dixie. No se atreva a vulgarizar o que aconteceu entre ns.
   -        Eu jamais poderia.
   Sentindo o instante de fraqueza, Ty aproximou-se e segurou-a pelos ombros.
   -        Droga! - explodiu, puxando-a de encontro ao peito. - Fiz uma grande confuso com tudo isso. A nica coisa que quero  que me prometa que vai esquecer 
Thorne e seu plano de vingana. Esse assunto no  para uma mulher...
   - No faa isso. Por favor, no me pea o que no posso oferecer. A luta de que estamos falando no  sua. E eu nunca pedi para fazer parte dela.
   -        O bastardo tentou mat-la. Por favor, Dixie, escute o que tenho a dizer - pediu, percebendo que ela pretendia interromp-lo. - Suponha que encontre o 
desgraado e consiga mat-lo. Acha que teria sangue-frio para conviver com a lembrana? Sei o que estou dizendo. Matar um homem no  fcil. A imagem dos olhos 
se fechando para a vida a seguir para sempre.
   -        Mas eu...
   - Dixie, nunca disse a outra mulher o que estou dizendo a voc. Nunca precisei de nenhuma outra antes. Ser que no pode tentar entender minha necessidade de 
proteg-la, de saber que est em segurana? Que tem aquilo com que tanto sonha?
   -        Ty... - Ela fechou os olhos para proteger-se contra os sentimentos que via refletidos no rosto dele.
   -        Quando estava doente, voc falou sobre um lar.
   -        Foram delrios.
   -        No. Estava l, e sei que as palavras brotaram de seu corao, movidas por um desejo verdadeiro que no foi criado pela febre. No estava delirando. 
Estava pensando sobre as surpresas que o futuro pode trazer.
   -        E voc? Nunca sonha com o futuro? No quer ter um lar, uma famlia? - As perguntas passavam por entre seus lbios como sopros de esperana, mas Dixie 
arrependeu-se de t-las formulado no instante em que ele suspirou e abaixou a cabea. De repente sabia qual seria o fim dessa estranha conversa, e a certeza plantou 
a semente do medo em seu corao. Ty ia deix-la! A esperana caiu por terra e se quebrou como um delicado vaso de cristal. Tinha de enfrentar com honestidade as 
perguntas que acabara de ouvir. Seria capaz de viver com a lembrana de ter tirado a vida de um homem? Perder Ty no seria um preo alto demais a pagar por sua vingana?
   Encarou os fatos como consumados, porque todos os instintos indicavam que ia mesmo perd-lo.
   Se algum dia o tivera... e independente da deciso que tomasse com relao a Thorne. Afinal, Ty era um homem livre que no queria laos.
   
   
   CAPTULO XIX
   
   O primeiro passo para longe de Ty foi o mais difcil que ela j havia dado. O segundo no foi mais fcil, mas era necessrio para sua sobrevivncia. Quando conseguiu 
colocar alguma distncia entre eles, Dixie virou-se e correu.
   Ty no a deixou ir muito longe antes de segur-la pela cintura e ret-la.
   - Fugir no  a melhor resposta. Nunca foi. Eu gosto de voc. Gosto mais do que posso expressar com palavras, mas ns dois sabemos que as boas intenes pavimentam 
a estrada para o inferno. No poderia me perdoar se algo de mal lhe acontecesse. - Fitou seus olhos tentando encontrar algum sinal de que estava conseguindo faz-la 
compreender, mas Dixie aprendera a no revelar as emoes atravs do rosto. Aprendera da maneira mais difcil. Ty havia tido as mesmas lies, mas agora as amaldioava. 
- Segurando a cabea coberta por cabelos sedosos, aproximou os lbios dos dela e sussurrou: - No se afaste de mim, Dixie. Oua o que tenho a dizer. - Beijou-a rapidamente, 
sentindo a garganta contrair-se como que para impedi-lo de pronunciar as palavras. Mas tinha de diz-las. - Eu amo voc, Dixie.
   Era um sussurro de sonhos. Ele no esperou uma resposta, no a deixou falar nem reagir. O beijo foi envolvente e apaixonado, privando-a da capacidade de raciocinar. 
Poucos instantes depois Dixie reconhecia apenas a presena de Ty e o desejo que ele despertava em seu corpo.
   - Esquea o que disse - ele murmurou. - Pense apenas em ns. Nada mais importa, meu anjo.
   Para Ty, a necessidade de proteg-la era to intensa quanto a de ouvi-la dizer que seria sempre sua. Ouviu o desespero pontuando a prpria voz enquanto os sussurros 
invocavam imagens sombrias e sensuais. Mas Dixie desabrochava em seus braos como uma flor do deserto abrindo-se para a chuva que trazia a vida.
   Dixie podia sentir a necessidade nos lbios de Ty. Havia desejo, forte e quente, uma chama que a fazia arder com o mesmo calor. Mas, atravs da paixo, ainda 
podia perceber a necessidade de proteg-la.
   Amo voc. As palavras mais preciosas que j ouvira. Palavras que no acreditava jamais poder ouvir dos lbios dele. Mas uma espcie de instinto de proteo a 
impedia de acreditar, de entregar o corao.
   Era tarde demais. Pela primeira vez, o corao sabia o que a mente recusava-se a reconhecer. Ty era o homem a quem podia entregar seu amor, aquele que a protegeria 
e manteria segura.
   Enquanto o beijo imitava a unio que aconteceria mais tarde, pensamentos interferiam nas sensaes. Lutava contra eles. No queria pensar em ser forada a escolher 
entre o amor de Ty e a necessidade de vingana contra Thorne. No queria pensar em nada. O desejo intensificou-se, oferecendo a ela a oportunidade de buscar refgio 
na paixo que os fazia tremer.
   Como se sentisse sua hesitao, Ty repetia que devi: pensar apenas neles, pois nada mais tinha importncia. S neles. No desejo.
   Dixie movia as mos sobre o peito musculoso, pressionando a testa contra a dele, ansiosa para tocar a pele quente sob o tecido.
   Mas Ty era devorado pela culpa. Confessara seu amor e, para ele, amar era compartilhar. Tudo. No fora capaz de dizer a ela sobre Thorne, ou o que planejava fazer. 
E ao fit-la nos olhos, soube que jamais diria.
   - Quero v-la - disse, soltando seus cabelos para que cassem livres sobre os ombros. As mos tremiam quando comeou a desabotoar a camisa que a cobria. - Quero 
que estejamos juntos como se no existisse outro lugar alm deste, ningum no mundo alm de ns. Quero am-la como se fosse a primeira vez... o momento certo para 
ns.
   - Ty?
   Com um beijo ele a impediu de fazer perguntas. Dominada pela paixo, Dixie entregou-se ao desejo e s sensaes que ele provocava, inclinando as costas para 
oferecer-se s mos que a seduziam. Podia sentir o calor dos dedos atravs do tecido da camisa e da cala. Devagar, Ty comeou a acariciar seu seio, o polegar friccionando 
um mamilo at que ele se tornasse rgido e saliente. Sentia-se como uma marionete cujas cordas eram subitamente manejadas com maestria, cada nervo do corpo clamando 
por uma satisfao que s ele poderia proporcionar.
   As pernas ameaavam ceder, trmulas, e ela se agarrou  camisa de Ty para sustentar-se. A respirao ofegante e quente a incendiava ainda mais, ameaando lev-la 
 loucura.
   - Por favor... Oh, Ty, por favor...
   Ele inclinou a cabea e afastou a camisa que ainda cobria seus seios, usando os lbios para acarici-los com intimidade. Enquanto a lngua deslizava lenta e 
provocante sobre a pele rosada, ele lutava contra o mpeto de sugar a carne como se ali pudesse encontrar o nctar da vida. Queria afag-la sem pressa, desfrutar 
de cada momento de prazer, prolongando-os como se no pudessem ter uma prxima vez, como se as lembranas fossem seu nico tesouro. Ty recusava-se a pensar na possibilidade 
de estar imaginando a verdade. Talvez nunca mais pudesse abra-la, beij-la, ouvir os suspiros suaves e os gemidos que brotavam dos lbios carnudos e sensuais.
   Ajoelhado sobre o tapete de folhas macias, puxou-a em sua direo. O cheiro doce da vegetao os cercava, mas Ty preferia sentir o perfume da pele feminina incendiada 
pela paixo.
   Dixie enterrou os dedos em seus cabelos e segurou a cabea de encontro ao peito. Os lbios bebiam em sua pele e ela sentia arrepios sucessivos provocados pelo 
contato da lngua e dos dentes com partes sensveis de seu corpo. Sabia que ele estava fazendo um grande esforo para ir devagar, mas prolongar o momento e transform-lo 
numa eterna lembrana. Foi essa certeza que a fez guardar silncio quando ele apoderou-se de um seio e sugou-o com vigor.
   Um de seus joelhos estava preso entre as coxas musculosas, e ela se movia como se quisesse cavalgar a perna que a sustentava. Os gemidos de Ty e a explorao 
sensual que ele realizava com a boca levou-a a morder o lbio para conter um grito de aflio e prazer.
   -        No tente conter-se - ele pediu. - Gosto de ouvir os rudos que voc faz quando est em brasa. Quero ouvi-la suspirar e gemer - sussurrou, ajudando-a 
a retirar os braos das mangas da camisa. - No precisamos disto entre ns - Jogou a pea de roupa no cho.
   -        E a sua? - Dixie perguntou, levando a mo aos botes da camisa que ainda o vestia. No podia conter o desejo de toc-lo. Os dedos passeavam dos ombros 
s mos, sentindo a mesma camada de suor que a cobria, medindo a fora dos braos. Fitando-o, umedeceu os lbios com a ponta da lngua e riu quando ele inclinou-se 
para captur-la entre os dentes.
   Ty era a imagem da seduo. Vibrante, confiante e poderoso, ele a fazia reagir como jamais julgara ser possvel.
   -        Ty... Oh, Ty...
   -        Eu sei, eu sei. Sente-se como um punhado de palha seca perto de um fsforo aceso - ele sorriu.
   -         como se a febre houvesse retornado.
   Ty afastou-se um pouco e olhou para o corpo delicado. O sol penetrava por entre as folhas da rvore, banhando sua pele numa luminosidade dourada.
   -        Vamos ver se a temperatura subiu - Tocou um de seus seios, acariciando-o com lentido desesperadora.
   -        Ty, isso  provocao. Eu... - As palavras se transformaram num gemido. Dixie estremeceu ao sentir a lngua banhando sua pele e tentou toc-lo.
   -        Impaciente?
   -         claro que sim!
   -        Ento, vamos nos livrar destas malditas roupas.
   Enquanto a despia, Ty a acariciava de todas as maneiras possveis, arrancando de seu peito gritos aflitos e apaixonados que o incendiavam. Puxando-a para mais 
perto, sentiu que o calor mido e feminino chegava mais perto de sua carne rgida e excitada. Empurrando os cabelos longos para trs dos ombros, tocou a orelha 
delicada com a ponta da lngua e explorou cada curva como se fosse a primeira vez.
   Dixie deslizava as mos por seus braos, os dedos acariciando a parte interna dos pulsos. Tomada por uma ousadia de que nunca imaginara-se capaz, inclinou-se 
para beijar o peito musculoso e mordeu um mamilo, sendo recompensada por um gemido rouco de surpresa e satisfao.
   - Meio a meio - disse, segurando a cabea dele para beij-lo. No escondeu nada, nem se conteve durante o beijo, sabendo que a entrega a deixava vulnervel, percebendo 
que Ty tambm entregava-se sem restries.
   Mas no conseguia encontrar foras para murmurar as palavras preciosas que ele dissera antes. No podia dizer que o amava, porque temia que, ao confessar seus 
sentimentos, o levasse a crer que estava tentando extrair promessas e garantias para o futuro. Podia demonstrar seu amor com a fora do desejo.
   Decidida, deitou-se sobre a relva e puxou-o sobre si. Ty sustentou o peso do corpo sobre os braos.
   - Nunca vi imagem mais linda que esta - disse.
   - Oh, Ty...
   - Quero gravar esta imagem para sempre em minha mente. E a desejo tanto que todo meu corpo est em brasa.
   Terminaram de despir o que restava das roupas e, nu, Ty explorou o corpo delgado com as mos e os lbios. Dixie contorcia-se, banhada por luzes e sombras, conhecendo 
uma intimidade e um prazer que jamais imaginara serem possveis com um homem. De repente, a ternura deu lugar  paixo. Os beijos se tornaram mais profundos, menos 
sutis, e os corpos buscavam-se numa dana mais antiga que a prpria vida, estabelecendo um ritmo que os levaria ao clmax.
   Um momento antes de verter nela sua semente, Ty soube que no poderia deix-la sair de sua vida. Nunca mais.
   A conscincia retornou lento demais. Como vus delicados e muito finos, sensaes e pensamentos iam sendo erguidos um a um.
   Uma brisa leve vinha do rio, esfriando a pele sensvel e trazendo o aroma das flores e da relva que os cercavam. Ty permanecia deitado sobre seu corpo, quieto, 
e ela temia mexer-se e perturbar a paz que os envolvia. Cada vez que respirava, tornava mais fina a nuvem de desejo que ainda nublava sua mente.
   Recusou-se a fazer o esforo necessrio para abrir os olhos, satisfeita por poder estar ali, sentindo as batidas do corao de Ty contra o seu.
   Fragmentos comearam a brotar da memria. No havia arrependimento, nem tristeza ou medo. Apenas o eco das palavras doce de Ty sussurradas em seu ouvido: Amo 
voc... amo voc... E no tinha dvidas de que havia sido a primeira mulher a ouvir essas palavras de seus lbios.
   Mas... por que confessara o que sentia sem pedir nada em troca? Como podia reconhecer que a amava e no pedi-la em casamento? Oferecera sua terra. Era como se 
pretendesse partir para nunca mais voltar.
   No suportava pensar nessa possibilidade. A dor era to intensa que um soluo escapou de seu peito.
   O som despertou Ty. Dixie usou uma das mos para acariciar a cabea apoiada em seu ombro, temendo fit-lo nos olhos. Tinha medo de que ele visse o que seus olhos 
podiam revelar.
   Afagou os cabelos midos e macios, notando a imediata mudana no ritmo de sua respirao. Ty moveu-se devagar, o suficiente para faz-la perceber que ainda estavam 
unidos, ainda eram como um s ser.
   O calor inundou-a. Os lbios iniciaram uma nova viagem por seu rosto, pelo pescoo e a orelha, provocando um desejo to intenso e imediato quanto surpreendente. 
Dixie o reteve com urgncia, o corpo ansioso para responder ao movimento sutil de seus quadris.
   - Por favor, me ame - disse, inclinando-se numa oferta silenciosa e selando a entrega com um beijo.
   Se o amasse muito, intensamente, teria lembranas para aquec-la durante toda a vida.
   - Qualquer coisa, anjo. Tudo que quiser. - Ty podia sentir a tenso que a dominava. Havia uma necessidade desesperada na maneira como ela o beijava, uma urgncia 
que o contagiava e acendia novamente o fogo da paixo.
   E ele fez um juramento ao deitar-se de costas mantendo-a sobre o corpo. Mataria para garantir sua vida.
   Mas agora no era hora de pensar no que faria com Thorne. Era hora de mostrar a essa mulher que suas palavras no foram mentiras vazias.
   Dixie o cavalgava, o calor que brotava de seu corpo inundando-o como uma tempestade de vero. Ela sorria, sem vergonha, sem medo ou restries, entregando-se 
com naturalidade espantosa, como se Deus a houvesse criado apenas para esse momento de amor. Jogando os cabelos para trs, segurou as mos dele e as posicionou sobre 
os quadris, pedindo ajuda para mover-se. Pela primeira vez experimentava um poder que s as mulheres s podiam exercer. Podia dar prazer. Podia incendi-lo com um 
simples olhar. E a prova disso estava bem ali, diante de seus olhos.
   Segredos. Ty podia v-los no brilho dos olhos dela, na curva suave dos lbios e nos movimentos delicados do corpo sobre o seu.
   - Glria, meu anjo.  o que partilhamos. O que sempre conheceremos juntos. - Ty fechou os olhos quando ela se inclinou para beij-lo, tentando ignorar a mentira 
contida no sempre que acabara de pronunciar. Tinha de enterr-la no fundo da mente, perto da culpa que sentia por no ter revelado sua inteno com relao a Thorne.
   O dia foi marcado por recordaes eternas. Dixie desfrutou de cada momento. Comeram sanduches de po e queijo que ele havia preparado antes de sarem, beberam 
a gua fresca e cristalina da montanha, e fizeram amor como se o mundo pudesse acabar a qualquer instante, como se no houvesse um amanh.
   Ty era a realizao de todos os sonhos de Dixie. Ele a fazia rir com as histrias que contava sobre os irmos e, em troca, ela o brindava com as aventuras que 
vivera em companhia do pai, quando andavam de vilarejo em vilarejo.
   Tambm existiram momentos de sobriedade. As lembranas da infncia deram espao aos anos de tristeza e luta. Para Dixie era a necessidade de ter um lar, os anseios 
que preenchiam seus sonhos de moa. Para Ty, a urgncia de encontrar o irmo e descobrir os segredos que pressentia em sua prpria casa.
   O calor do sol rivalizava com o da paixo que os unia, e uma piscina natural os convidou ao mergulho. Foi Dixie quem comeou a brincadeira infantil de jogar gua 
e tentar afog-lo, e Ty respondeu com um beijo to provocante que ela se sentiu desfalecer.
   Mais tarde, envolta por um cobertor, Dixie descansou com as costas apoiadas no peito dele, as pernas encolhidas entre o crculo formado pelas dele. Contou sobre 
a noite em que o pai fora morto, sobre o terror e a culpa que guiavam seus passos desde ento. E quando terminou, ele a fez deitar-se na relva e amou-a com ternura, 
varrendo de sua memria as recordaes amargas, abrindo espao para lembranas doces e eternas.
   No havia passado, nem futuro, apenas as horas que passavam juntos sob um cu azul e limpo. Dixie baniu os fantasmas que o assombravam e ele trouxe a paz  sua 
alma.
   A vergonha no podia penetrar nesse paraso, e quando ela confessou o temor de ter seios pequenos demais, Ty os reverenciou com as mos e os lbios, at faz-la 
crer que a perfeio comeava e terminava nos olhos de um amante.
   Dixie desistiu de contar as vezes que ele disse am-la. Ty estava determinado a ouvir as mesmas palavras antes de deix-la.
   Temia que a tenso crescente que percebia nele fosse causada pelo receio de que ela o forasse a pedi-la em casamento. Por isso engoliu cada confisso de amor 
produzida pelo corao.
   Uma contagem regressiva das horas que ainda tinha com Dixie acrescentou um toque sombrio ao desejo. Quanto mais tentava ignorar a passagem do tempo, mais longas 
eram as sombras sobre o corpo da mulher amada.
   O entardecer abraou a terra com suas cores impressionantes e, relutante, Ty ajudou-a a vestir-se. Trocaram os ltimos beijos, as ltimas carcias antes das 
roupas passarem a agir como uma barreira fsica a separ-los.
   -        Cavalgue comigo - Ty sugeriu quando encerraram mais um beijo apaixonado. - Quero segur-la em meus braos por todo o tempo que for possvel.
   -        Sim, tambm quero estar em seus braos. - Com esforo, Dixie acrescentou. - Mas haver um amanh. J contei sobre um certo jogo de pquer do qual ouvi 
falar no saloon Lily?
   -S ouviu falar? - ele provocou, ajeitando-a sobre a sela do cavalo e acomodando-a de encontro ao peito. - Se for um bom menino, iremos jogar pquer num lugar 
onde as apostas so muito mais altas que todas que j viu. E muito melhores que o ouro.
   - Parece arriscado - ele riu, inclinando-se para beij-la no rosto.
   - Pode ser. - Dixie respondeu enquanto ele conduzia o cavalo num ritmo lento. - Vai ter de esperar at amanh i para descobrir.
   - At amanh - Ty repetiu em voz baixa, sentindo o gosto amargo da mentira.
   
   
   CAPTULO XX
   
   Conner precisou de toda a fora de vontade de que dispunha para desviar os olhos do rosto estupefato de Dixie. Ao mesmo tempo, praguejava contra Ty por t-lo 
deixado incumbido da terrvel misso e censurava por ter permitido que o irmo cavalgasse sozinho.
   No que Ty houvesse oferecido escolha. Era difcil admitir que o irmo mais novo transformara-se num homem. E mais difcil ainda era aceitar que esse mesmo irmo 
poderia no sobreviver para ver o sol nascer.
   -        Conner?
   O tom suplicante o fez encolher-se. Recompor os traos do rosto foi uma tarefa difcil que exigiu alguns instantes de poder encar-la.
   -        Sei o que vai perguntar - ele disse num esforo para det-la. - No tenho idia de onde ele pode estar. No sei quando vai voltar. E no, ele no se 
deu ao trabalho de perguntar o que eu acho sobre o fato de ter partido sem preveni-la. - As mentiras brotavam de seus lbios com facilidade espantosa. Estava aperfeioando 
a capacidade de mentir desde que Logan deixara o rancho.
   -        Entendo - Dixie no pensou na maneira estranha como ele olhava em todas as direes, menos para ela. Sabia que estava impaciente para voltar ao trabalho, 
porque o interrompera quando preparava-se para sair em busca de um rebanho. Dois pees do rancho j haviam ido ao encontro dos trs homens enviados pelo agente da 
Reserva Indgena de San Carlos para recuperar os animais.
   -        Obrigada, Conner. Vou deix-lo voltar ao trabalho. Mas gostaria muito se pudesse mandar algum selar aquela gua trazida do acampamento indgena. No 
posso pagar agora, mas prometo recompens-lo no futuro.
   -        Pagar? No  necessrio... Oh, no! Esquea! No vai sair daqui. Ainda no est forte o bastante.
   Tudo que queria era encolher-se em algum recanto isolado e chorar a dor de ter sido abandonada por Ty. No queria discutir com Conner. No queria ficar ali merecendo 
sua piedade.
   Por que Ty havia partido sem dizer nada? A pergunta tantas vezes repetida enviava o pulsar do corao s tmporas, provocando um desconforto to grande que temia 
explodir a qualquer instante.
   Na noite anterior... Dixie cruzou os braos sobre o peito. A dor era devastadora. Fechando os olhos, reviu Ty parado na porta de seu quarto. Ele havia se apoderado 
de sua mo e beijado cada dedo com ternura, pressionando-os contra o corao.
   -        Mantenha meu amor seguro, anjo.
   Pensara que ele a beijaria mais uma vez, e chegara inclusive a adiantar-se para esper-lo, mas Ty limitara-se a sorrir e brincar, dizendo que havia armazenado 
um arsenal de sonhos suficiente para mant-lo aquecido por muitas noites.
   E ela o deixara ir. A lembrana obrigou-a a abafar um grito enquanto as lgrimas corriam por seu rosto.
   - Ei, Conner, vai ficar a conversando o dia todo?
   - Espere um minuto, Henley - ele gritou de volta para um dos empregados. - Dixie, volte para casa. Assim que eu terminar as tarefas, irei procur-la para conversarmos.
   Ela fez um movimento afirmativo com a cabea, porque essa era a reao esperada. Chegou a virar-se na direo da casa, mas a construo iluminada pelo sol no 
tinha mais nenhum atrativo agora que Ty se fora. Esse no era o seu lugar. Por mais que Ty quisesse ret-la, por mais que tentasse convenc-la de que seria recebida 
com alegria, no era uma Kincaid. No tinha o direito de invadir o refgio sagrado dessa famlia.
   Mas quando foi pedir a Santo para selar um cavalo, descobriu que a palavra de Conner era lei no Rocking K. No poderia cavalgar, a menos que levasse um acompanhante. 
O apelo a Macria a fez compreender de onde Conner e Ty haviam herdado tanta determinao. Imponente como uma rainha, a sra. Kincaid estava sentada atrs da escrivaninha 
no escritrio, e ouviu com calma at Dixie concluir seu pensamento.
   -        Querida, voc  nossa hspede, no uma prisioneira. Conner s deu ordens voltadas para a sua proteo.
   -        E Ty? Que ordens ele deixou ao partir?
   -        Apenas pediu para que fosse mantida em segurana e que tivesse tudo que quisesse. - Separar a correspondncia era uma boa desculpa para no ver a dor 
nos olhos de Dixie. Como Conner, Ty no havia lhe dado escolha.
   -        E se eu quiser minha liberdade?
   -        Liberdade? - Macria levantou a cabea e encarou-a. - Quer liberdade para matar um homem? No precisa ficar assustada. Ty me contou tudo sobre sua necessidade 
de vingar a morte de seu pai. Um desejo admirvel, mas j pensou que  mulher cabe o dom de dar a vida? Uma mulher  a nica capaz de nutrir um ser e faz-lo crescer 
forte e saudvel.  ela quem administra o lar, quem ensina aqueles deixados aos seus cuidados a viverem de acordo com um cdigo de honra, a acreditarem na justia 
e em Deus. Sem ela, nossas vidas seriam comandadas por aqueles que vivem sem honra e amor. Se sair daqui agora, estar correndo o risco de perder o amor de Ty.  
isto que quer?  o que espera conseguir em troca do seu desejo de liberdade?
   -        No. Quero o amor de seu filho, mas no a qualquer preo.
   -        Pelo que vejo, meu filho entregou o corao e a confiana a uma mulher incapaz de reconhecer a importncia de seus sentimentos. Se no  capaz de considerar 
o pedido de Ty, uma solicitao cujo nico proposto  garantir sua segurana, ento no h nenhuma esperana para esse amor. - Ela se forou a levantar, as mos 
apoiadas sobre a mesa e o corpo inclinado na direo de Dixie. - Lamento se minha sinceridade a feriu. Ty  meu filho, e voc  a mulher que ele ama. Permanea conosco 
at ele retornar. Prometo que no ser uma longa viagem.
   -        Por que no me dizem aonde ele foi?
   - Porque ele pediu segredo. - Macria sentou-se novamente e abaixou a cabea, indicando que a conversa chegara ao fim. Ouviu o suspiro profundo de Dixie e, sem 
olhar para a mulher cuja fria agora voltava-se em sua direo,  disse: - Fique conosco, por favor.
   -        Vou pensar. Talvez fique, pelo menos por hoje. Um sorriso triste distendeu os lbios da sra. Kincaid.
   -        J  alguma coisa. - Era uma mulher forte, uma parceira  altura do filho. Se ao menos... balanando a cabea, sufocou o pensamento e ouviu Dixie fechar 
a porta depois de sair.
   
   Ty sentia-se como se uma porta houvesse se fechado asim que atravessara as montanhas Sad Tank. Bloqueou Dixie dos pensamentos, uma tarefa quase impossvel, e 
procurou um local para acampar, uma ravina ao norte do deserto. Estaria em Ajo no final da tarde.
   Depois de construir uma pequena fogueira, preparou caf e dosou o fogo, procurando diminuir a luminosidade. Essa era uma noite em que no queria estranhos partilhando 
de seus suprimentos.
   Preparando-se para dormir, olhou para as nuvens que brincavam em torno da lua crescente. Jamais havia partido numa viagem com o nico objetivo de matar algum.
   O tempo e as circunstncias o fizeram reagir. Mas nunca caara um homem tendo em mente pr termo  sua vida. No era um covarde. Nunca temera uma luta, nem seu 
desfecho.
   Mas agora sentia medo. E o temor vinha do pensamento insidioso de que talvez no vivesse para dizer  mulher amada que podia ter paz, porque o assassino de pai 
havia pago com a prpria vida pelo erro que cometera.
   Em alguns momentos do passado havia mentido para si mesmo. Essa no era uma noite de mentiras. Pensando nos prprios arrependimentos e receios, desejou que o 
sono o libertasse do tormento, mas no encontrava nem mesmo esse consolo.
   Apesar de todo o esforo, pensou em Dixie. E soube que, qualquer que fosse o futuro, havia tomado a deciso acertada. A nica deciso. No podia permitir que 
a mulher que amava sujasse as mos com o sangue de um homem. Amava-a demais para deix-la viver assombrada pelos fantasmas que vagavam por suas noites.
   Quando as estrelas comearam sua viagem pela escurido da noite, Ty alimentou o fogo. No tinha pressa. Sentia apenas uma calma profunda enquanto limpava a arma 
sentado no cho. Quando o amanhecer tingiu o cu de prpura, selou o cavalo e dirigiu-se a Ajo.
   Era fcil distanciar-se de seu objetivo. As emoes estavam reunidas num feixe imaginrio to apertado quanto o cinturo em torno da barriga do animal. Deixara 
todas elas para trs, como fizera com Dixie, agora cavalgava firme rumo ao novo dia.
   Ajo era uma cidade pequena. Ty tinha conscincia de estar sendo observado com cautela, mas seguiu em frente at encontrar o estbulo local. Havia um armazm, 
um banco, dois saloons e vrias residncias. O lodo j comeava a secar sob o sol vespertino quando ele desmontou entregou as rdeas ao jovem que o recebeu na porta 
do estbulo.
   -        Se escov-lo e aliment-lo com generosidade, prometo que ser recompensado da mesma forma - Ty esclareceu. - E pode ganhar algum dinheiro em troca de 
uma informao.
   A resposta foi um movimento afirmativo com a cabea e um sorriso paciente.
   -        Vai ficar por aqui muito tempo, senhor?
   -        No se eu puder evitar. - Ty ajeitou o chapu sobre a cabea e tirou a arma da cartucheira, verificando a prpria agilidade depois da longa cavalgada. 
Satisfeito, guardou-a e voltou a encarar o rapaz.
   -        Este  o nico estbulo da cidade?
   -        Sim, senhor.
   -        Viu algum estranho por aqui nos ltimos dois ou trs dias?
   -        Muitos estranhos passam por aqui, senhor. Comerciantes que possuem negcios em Nogales, por exemplo, sempre param aqui para alimentar os animais. Esse 
homem que est procurando... como ele ?
   -        Feio como o pecado, muito forte, e com um corao to negro que nem o diabo o receberia no inferno. O garoto sorriu.
   - Est descrevendo muitos homens que passaram por aqui.
   - Mas esse tem urna cicatriz na mo. E como um relmpago. - Se no estivesse observando o menino com tanta ateno, no teria notado o medo que passou por seus 
olhos. O sentimento desapareceu to depressa que Ty ficou em dvida se realmente o vira, ou o imaginara.
   -        Talvez o tenha visto - o rapaz encolheu os ombros. - Talvez no.
   Ty tirou vinte dlares do bolso da camisa e segurou-a entre o indicador e o polegar, balanando-a como se fosse uma isca.
   -        Muito bem. Tenho um recado a ser levado para esse sujeito com a cicatriz, mas deve ser uma surpresa. Ficaria muito grato se pudesse me dizer onde encontr-lo.
   -        Ele  um grande filho da... - Parou, deixando claro o significado de suas palavras.
   -        Tem razo. O territrio seria mais seguro se ele fosse plantar as botas em outro lugar. Pegue.
   O garoto aceitou a moeda e guardou-a no bolso.
   - Ele est escondido na casa de Nat Stargo. - Apontou para o saloon do outro lado da rua. - Ali.
   -        Muito obrigado.
   Ty esperou que o garoto levasse seu cavalo para dentro do estbulo e atravessou a rua com passos calmos, como se tivesse todo o tempo do mundo, como se no planejasse 
um assassinato. Algumas vacas que pastavam no final da rua se afastaram para dar passagem a uma carroa. As rodas rangiam pedindo leo e as mulas pareciam sedentas. 
Um grupo de crianas maltrapilhas seguiam penduradas nas laterais do veculo, fitando-o com os mesmos olhos inexpressivos do homem que as conduzia. Ty parou para 
deix-los passar, e depois seguiu at a porta do saloon.
   Se havia uma placa, devia estar escondida sob a sujeira que cobria toda a frente do edifcio. Algumas tbuas haviam sido arrancadas da porta. Ty olhou para dentro 
do estabelecimento e notou o garom, que lia um jornal encostado na ponta do balco. Embora o sujeito no se movesse, Ty sabia que ele notara sua presena.
   No canto prximo  escada havia uma mesa. No sabia se devia chamar de instinto ou sorte, mas teve certeza de que Thorne fazia parte do grupo reunido em torno 
dela.
   Ty empurrou a porta e entrou.
   -        Thorne.
   Um a um, todos os homens se levantaram e afastaram-se da mesa. Todos, menos um. Ty no disse nada. Nem saiu de onde estava. Thorne no iria a lugar nenhum.
   Quando os homens passaram por ele, cumprimentou com a cabea cada um dos pees do Rocking K. Haveria um bnus extra para cada um deles no dia do pagamento.
   -        Garom - chamou. - Esta cidade tem um padre?
   -        Nunca precisamos de um - o sujeito respondeu sem levantar os olhos do jornal. - E gostaria que fosse resolver seus problemas l fora, senhor. Nesta regio, 
os vidros custam caro e so difceis de encontrar.
   -        Ser um prazer. S estou esperando aquele homem levantar-se para acompanhar-me.  uma pena que no tenham um padre. Ele vai precisar de algum para dizer 
algumas palavras sobre seu corpo quando morrer. Gente como voc tambm direito ao conforto da f, Thorne.
   Ento ele se moveu. Caiu para o lado levando a cadeira como escudo e disparou, tentando retroceder protegido pela mesa.
   Ty mergulhou e rolou pelo cho at ir esconder-se atrs do balco do bar. Lascas de madeira eram arrancadas do piso pelas balas de Thorne.
   -        J perdeu duas, Thorne - gritou, virando-se para o garom. - Os prejuzos sero pagos por ele. Depois das despesas com o enterro,  claro.
   A provocao obrigou-o a encolher-se para evitar as trs balas disparadas sucessivamente, seguidas pelo som de garrafas se quebrando e pelo cheiro forte do usque 
barato. Ty ainda nem havia sacado.
   -        Sua mo est tremendo, Thorne?  hora de despedir-se. Pena no ter sido voc o atingido por aquele relmpago na montanha.
   -        V para o inferno, Kincaid!
   -        J estive l. Vi Dixie lutar contra a morte depois de voc ter mandado aquele desgraado atrs dela. Sabe de uma coisa, Thorne? Voc  um verme asqueroso. 
E to covarde que no tem coragem de ir pessoalmente atrs de uma mulher. Enforc-lo seria desperdiar corda!
   -        Voc no  a lei, Kincaid! Ser enforcado se me matar. Aqueles homens sero testemunhas...
   -        Aqueles homens trabalham para o Rocking K - Ty anunciou com tom frio. - E eu sou a lei que vai julg-lo. - Rindo, tirou o chapu da cabea e levantou 
o brao para balan-lo acima do balco. O disparo foi imediato. - Eu gostava deste chapu, Thorne.
   -        Ento providencie outro igual para ser enterrado.
   -        Mas essa foi sua ltima bala. Seis tiros - disse, levantando-se e correndo ao encontro do bandido encolhido atrs da mesa.
   Com um pontap violento, mandou a mesa para o outro lado do salo, arrancando da mo de Thorne a arma que ele acabara de recarregar. Sabia que tinha apenas alguns 
segundos de vantagem conferidos pelo fator surpresa, e por isso lanou-se sobre o inimigo, agarrando mo armada forando-a contra a cabea dele.
   - Quero o nome do homem que o contratou para matar o pai de Dixie.
   Thorne tentou livrar-se, mas Ty mantinha o cotovelo enterrado em sua garganta.
   - Pode tornar sua morte mais lenta ou mais rpida, se me der o nome dele.
   Mais uma vez ele tentou libertar-se. Ty pressionou o cotovelo, impedindo-o de respirar.
   - Estou lhe dando uma possibilidade de escolha. Agora vamos jogar, Thorne. Trata-se de uma brincadeira que aprendi ao sul da fronteira. Deve ter conseguido colocar 
duas, talvez trs balas no tambor. Quais so as chances de puxar o gatilho e encontrar um buraco vazio?
   Era uma pena que Dixie no pudesse ver o medo nos olhos do bastardo. O mesmo medo que vira nos olhos dela na noite em que havia sido baleada. O medo da morte. 
Mas era melhor assim. Melhor que o problema fosse resolvido entre ele e Thorne. Se Dixie estivesse ali, no conseguiria manter a calma necessria para concluir a 
misso.
   A reao do bandido confirmou suas suspeitas. Thorne havia mesmo inserido algumas balas no tambor do revlver, ou no estaria to apavorado.
   -        Pisque se quiser falar - disse. - Pode escolher. Lenta ou rpida. Mas farei com que me d o nome do homem. - Queria provoc-lo e ver o terror em seu 
rosto. Queria castig-lo pelo que Dixie sofrera. Precisava ter certeza de que Thorne sentia a aproximao da morte.
   Mas Ty no era nenhum tolo. Sabia que Thorne levava vantagem fsica, e que poderia super-lo a qualquer momento. Por isso ergueu um pouco o cotovelo, permitindo 
que ele respirasse.
   - Est com medo, Kincaid? - Thorne resmungou, a voz reduzida a um som rouco e horrvel. -  preciso ter coragem para apertar o gatilho olhando nos olhos da vtima.
   -        Como pode saber? Seu estilo condiz mais com tiros pelas costas. - A memria invocou as palavras de Dixie sobre como ele a perseguira pela casa, como 
tocara seu corpo com luxria e tentara possu-la a fora, e ele teve de fazer um grande esforo para no disparar. Antes de mat-lo, precisava saber o nome do homem.
   Determinado, encostou o cano da arma no queixo do bandido.
   - Vou deix-lo escolher, Thorne.  mais do que fez pelo pai de Dixie. Mais do que fez por ela e Deus sabe por quantas outras.
   -        Tambm vou lhe dar uma escolha, Kincaid.
   Ty sentiu o sangue gelar nas veias quando o metal frio de uma arma tocou sua nuca. Conhecia aquela voz, mesmo que ela soasse rouca como se o moleque houvesse 
engolido areia durante muitos dias.
   -        Cobie.
   -        Eu mesmo, Kincaid. E tenho contas a acertar com Thorne.
   -        No! Ele  meu! - Ty protestou, temendo morrer antes de concluir sua misso.
   -        De jeito nenhum. O bastardo roubou meu cavalo e me deixou para morrer sozinho nas montanhas. Nenhum homem vai escapar das minhas balas depois de ter 
me tratado como um animal. E como sou dono da ltima pistola da fila, eu tenho a preferncia.
   O corpo de Ty gritava de tenso. Viu o brilho do riso nos olhos de Thorne quando Cobie ordenou que jogasse a arma no cho, do outro lado do salo. No havia a 
menor possibilidade de desarmar o moleque sem ser atingido por Thorne. O som do revlver caindo sobre o piso de tbuas foi como o sino de uma igreja assinalando 
a morte de algum.
   - Muito bem, Kincaid. Agora peque a arma do bastardo e...
   -        Ei, garoto...
   -Cale a boca, Thorne! No vai us-la para nada. As minhocas no vo gostar de voc, mas no estar vivo para atirar nelas.
   - Vamos, diga o nome do homem, Thorne! - Ty exigiu.
   -        Cobie no vai deix-lo vivo. No tem mais razo para proteger quem o contratou.
   - Fale, Thorne - Cobie ordenou. - Vai morrer de qualquer jeito. Talvez esse homem me contrate para substitu-lo.
   -        V para o inferno, moleque! - E virou-se para Ty.
   -        Mate-o! Elimine o garoto e direi o nome do homem.
   -        No tenho dia todo, Kincaid! Tire a arma de Thorne e jogue-a do outro do salo.
   Ty obedeceu. Cobie o privaria da satisfao de fazer o bandido pagar por tudo que fizera, e estava indefeso como um beb com aquela arma apontada para sua nuca.
   -        Cobie, vamos fazer um trato. Deixe-me apenas arrancar o nome do desgraado.  tudo que quero. Depois poder ter Thorne.
   -Eu j o tenho. Voc  s um prmio extra, amigo. Vou me lembrar disso quando chegar sua vez. E agora chega de conversa. Trate de sair da frente do desgraado. 
E mova-se bem devagar, ou vai acabar com um buraco na cabea.
   -Cobie! Estava chovendo muito! Eu o vi descer a montanha. No pode me culpar por ter pensado que havia partido para sempre. Peguei o cavalo porque...
   Ty tentou no ouvir os lamentos de Thorne. No acreditava que Cobie pudesse poupar sua vida.
   Considerou a hiptese de virar-se e agarrar os joelhos do moleque. Ergueu a perna para se mover e olhou para Thorne, os olhos fixos em seus olhos. Ty pensou em 
Dixie. Viera atrs do bandido para impedi-la de manchar as mos com sangue. Seria melhor voltar para os braos dela levando a ndoa da morte no corao?
   Havia dito a Thorne que era a nica lei que ele teria, mas a Providncia enviara Cobie. Que diferena podia fazer, desde que a justia fosse feita?
   -        Kincaid? - Thorne resmungou. - Charles... - Um tiro atingiu a tbua ao lado do rosto dele.
   -         a ltima vez que vou avis-lo, Kincaid. Saia da frente dele.
   Ty rolou para o lado. O movimento foi rpido. Cobie no perderia tempo atirando nele quando tinha o maior inimigo a sua merc. Esse era o jogo.
   O mergulho colocou-o perto da arma. Ty estendeu os dedos e tocou-a no exato instante em que dois disparos e um baque soaram atrs dele. Mais um tiro ecoou pela 
sala, seguido de outro.
   O cheiro de plvora enchia seus pulmes. Uma bala cravou-se no cho ao lado de sua mo. Ele puxou a arma, ajoelhou-se, girou e disparou.
   O tiro foi desperdiado. Cobie j estava cado, segurando o estmago. Thorne empunhava uma pequena pistola cuja eficincia s era garantida a curta distncia. 
E Cobie estivera muito perto.
   Ty levantou-se devagar, a arma apontada para a cabea de Cobie. Caminhou at onde os dois corpos jaziam imveis e examinou-os com cautela. A nica coisa que lamentava 
era no ter descoberto o nome do homem que contratara Thorne. Charles... Era s o que tinha.
   Depois de guardar a arma, jogou algumas moedas sobre o balco e sorriu para o garom que, plido, permanecia encolhido atrs do bar.
   - Faa com que sejam enterrados.
   S queria ir para casa.
   Para os braos de Dixie.
   
   
   EPLOGO
   
   Ty encontrou Dixie onde Conner disse que ela estaria, onde passara todo o tempo esperando por sua volta. Ela estava sentada sob a rvore onde haviam feito amor, 
as costas voltadas para ele e o vestido azul espalhado pelo cho. A luz do sol arrancava reflexos dourados de seus cabelos.
   Sabia que ela o receberia com certo ressentimento, mas quando fitou-a nos olhos espantou-se com a fria que os fazia cintilar.
   No pediria desculpas.
   Dixie fitou-o e descobriu que ele no pediria desculpas nem oferecia explicaes. E nem as ouviria, mesmo que ele tentasse.
   -        Sente-se, Kincaid - disse. - Agora vou falar e voc vai ouvir.
   -        Uma arma? Dixie, est apontando uma arma para mim?
   -         o que parece - ela sorriu.
   -        Mas... estou desarmado!
   -        Discutiremos esse detalhe mais tarde. Sente-se.
   -         claro. Voc manda.
   -         bom que tenha percebido. No tinha o direito de ir atrs de Thorne sozinho, Kincaid.
   -        Talvez tenha razo, mas agora isso no importa. O homem est morto. Assunto encerrado, Dixie.
   -        Voc o matou?
   -        No. Mas pretendia mat-lo. Fui atrs dele para isso, mas Cobie levou os louros da vitria.
   -        Conte-me tudo.
   Sem rodeios, Ty relatou o encontro no bar de Ajo, onde Thorne e Cobie viram a luz do sol pela ltima vez. No revelou que havia conseguido descobrir o primeiro 
nome do homem que encomendara o assassinato de seu pai, como tambm no disse os motivos que o levaram a ocultar suas intenes.
   -        Agora acabou - concluiu. - No precisa mais ter medo, anjo. Sei que no era assim que queria encerrar esse assunto, mas Thorne est morto. A justia 
foi feita.
   -        Tive tanto medo de que eles o matassem! Droga, Kincaid! Para um homem que no queria problemas, voc conseguiu armar uma grande confuso! Nunca mais 
se atreva a decidir por mim, ouviu bem?
   -        Acha que eu no tinha o direito de decidir? Eu amo voc! O amor me d todos os direitos, Dixie! J ofereci minha terra, meu amor, e agora estou oferecendo 
casamento. O que mais quer para abaixar essa arma e beijar-me?
   -        Agora... agora oferece casamento? Mal posso crer no que ouo! Devia atirar em voc, seu... seu...
   -        Vamos, fale. Honestidade, lembra-se?
   -        Seu bastardo sujo, mentiroso e traidor!
   - Mas apaixonado - ele riu, tirando o revlver da mo dela e apertando-a entre os braos. - Nunca amei outra mulher, meu anjo. Nunca pedi ningum em casamento. 
Nunca quis me prender a laos que...
   -        Por que agora? - ela cortou. - Por que comigo?
   -        Porque voc  a nica que carrega sonhos nos olhos.
   -        Sonhos que voc despertou. At conhec-lo, julgava t-los enterrado para sempre, mas agora sou capaz de sonhar novamente. Oh, Ty, como eu o amo!
   -Ah, finalmente! - ele riu. - Se me ama, ento aceitar meu pedido de casamento. E ser a me de meus filhos, a senhora de minha casa?
   -Sim, sim, sim! Tudo que voc quiser, desde que esteja sempre a meu lado. Desde que nunca mais me deixe, Ty Kincaid.
   -        No a deixarei, meu amor. Nunca mais.
   
   FIM
   
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